O que um túmulo de 2,8 mil anos atrás revela sobre o feminicídio na história

admin
28 Feb, 2026
Recorde de feminicídios em SP: 4 motivos por trás da escalada da violência Em apenas dez meses de 2025, a capital paulista já registrou o maior número anual de feminicídios da série histórica, iniciada em 2015. Crédito: TV Estadão Comparados com outras espécies, o ser humano é o animal que mais mata indivíduos de sua própria espécie. Guerras sempre foram comuns e continuam a nos assolar. As provas que elas sempre existiram são relatos históricos e esqueletos com crânios esfacelados e outras evidencias físicas de violência na pré-história. Mas a prova mais cabal dessa violência são as “mass graves”, locais onde dezenas ou centenas de corpos com sinais de violência foram enterrados juntos, os ossos empilhados de maneira desordenada. Exemplos recentes são as covas enormes onde os nazistas depositaram os restos de judeus exterminados durante a Segunda Guerra Mundial. Dezenas de locais como esses já foram encontrados por todo o planeta e muitos deles contém corpos enterrados até milhares de anos antes de Cristo. PUBLICIDADE Os mais antigos datam das épocas em que surgiram as cidades e a agricultura. Quando deixamos nossa vida nômade de caçadores-coletores, entre 15 e 5 mil anos atras, em diferentes regiões do planeta. Foi nessa época que os humanos ocuparam territórios determinados e acumularam bens, como depósitos de mantimentos, que atraiam a cobiça de outros grupos. Foi nessa época que surgiram os exércitos, no início grupos armados, como as quadrilhas que existem hoje. Nesses túmulos coletivos geralmente são encontrados esqueletos de homens, mulheres e crianças, quando uma vila era dizimada, ou somente de homens quando os mortos eram resultado de uma batalha entre exércitos. Muitos pesquisadores acreditam que as mulheres eram capturadas para fim reprodutivos ou eram escravizadas junto com as crianças. É nesse contexto que causou surpresa a descoberta de um túmulo coletivo contendo esqueletos principalmente de mulheres e crianças mortas de forma violenta. Uma das poucas evidências de um feminicídio semelhante ao que observamos hoje por aqui. O túmulo foi encontrado no norte da atual Sérvia, próximo a cidade de Gomolava. É uma região que foi ocupada por diversos grupos humanos desde 6.000 anos antes de Cristo. O túmulo coletivo é circular, com 2,9 metros de diâmetro e meio metro de profundidade. Sob essa fina camada de solo foram descobertos esqueletos de 77 pessoas. Troncos e pedaços de rocha foram encontrados ao redor da cova indicando claramente sua localização. Testes com carbono 14 determinaram que essas pessoas morreram 2.800 anos atrás, por volta de 750 anos antes do nascimento de Cristo. Publicidade Os cientistas descobriram um isqueiro de 400 mil anos Quem são as ‘pessoas cegas do terceiro olho’ e no que elas são diferentes? O que acontece no cérebro quando perdemos a consciência? Das 77 pessoas, 40 eram jovens (1–12 anos), 12 eram adolescentes (13–17 anos) e 24 eram adultos (18+ anos). Apenas um era um bebê (<1 ano). O que chamou a atenção dos cientistas é que entre os 24 adultos, 21 (87%) eram do sexo feminino, assim como 7 (70%) dos adolescentes e 23 (62,2%) dos jovens. O exame detalhado dos ossos revelou que praticamente todos foram assassinados. Os crânios estavam perfurados como se atingidos por lanças ou com buracos circulares, uma lesão típica de clavas ou martelos. Como as lesões encontradas estavam na parte posterior e superior da cabeça provavelmente foram assasinadas por trás e por cima, como se os atacantes estivessem montados em cavalos. Fora uma mãe e seus dois filhos, os exames do DNA extraído dos ossos não indicou relações familiares próximas, até terceiro grau de parentesco, mas demonstraram que todos as pessoas pertenciam a uma das quatro populações que compartilhavam essa planície. Provavelmente nunca saberemos as razões que causaram esse violento feminicídio. Tampouco saberemos quem cometeu esses assassinatos e as consequências desse ato. Mas, para mim, a descoberta desse túmulo demonstra que a violência e a coragem de matar mulheres desprotegidas não é causada unicamente pelo ambiente em que vivemos nas sociedades atuais. Essa violência faz parte de nossa história profunda e talvez até de uma genética que facilita uma violência que se extende às mulheres e crianças e nos persegue desde nossa pré-história. Isso não quer dizer que é impossível combatê-la, mas mostra quão difícil é essa tarefa. Mais informações: A large mass grave from the Early Iron Age indicates selective violence towards women and children in the Carpathian Basin. Nature Human Behavoiur https://doi.org/10.1038/s41562-025-02399-9 2026 Publicidade