Crônica: O dedal de cada um

admin
28 Feb, 2026
"Seja feliz com o tamanho do seu dedo." Foto: Juliana AzevedoAs mídias sociais se transformaram no campo aberto oficial da comparação. Não é novo que os seres humanos se comparem uns aos outros. Em bairros de qualquer classe social, vizinhos comparam cada pequeno detalhe de quem mora ao lado. Em condomínios de classe altíssima, comparam-se carros, tamanhos de casas — já ouvi, pessoalmente, uma conversa sobre qual seria o melhor aquecimento de piscina (parece que o melhor, em Nova York, é o que vem de uma tecnologia que aquece por meio de um aparelho ligado ao centro da Terra). Na porta da escola, mães comparam notas e conquistas de seus filhotes.E assim, pouco a pouco, construímos nós mesmos uma nova forma de acomodar esse desejo pela disputa — agora mais abrangente, mais poderosa e capaz de atingir muito mais gente: as mídias sociais.Mostra-se para onde se viaja, quantas vezes e para quantos lugares; quem tem mais looks; quem é mais rico, mais bonito ou tem mais acesso. Homens e mulheres fazem igual, ainda que comparando coisas diferentes — mas, nisso, estamos todos no mesmo barco. Um barco que, claro, afundará com todos nós. Não há como ser feliz assim. E sabemos disso, apesar de continuarmos.Quando comecei a trabalhar, escolhi o turismo por gostar de viajar. Fui para a Agaxtur, atendendo passageiros em uma agência na Av. Europa. Eu amava meu trabalho: desbravar roteiros, estudar o mundo que meus clientes queriam conhecer e me relacionar com pessoas diferentes que simplesmente entravam pela porta da agência.Meu marido e amigas, na época, não entendiam e me comparavam com outras mulheres da mesma geração: “Mas, Alice, você poderia ser vendedora na Daslu e ganhar muito, muuuuito mais.” E era mesmo lindo — e eu também achava, que fique claro — ser vendedora da Daslu em São Paulo. Mas o que eu queria era trabalhar na Agaxtur.Esta semana estou lendo uma nova edição da história de Santa Teresinha, a santa francesa. Ainda menina, ela disse à irmã — um pouco mais velha e mais sábia — que não se conformava com a forma como Deus distribuía suas graças, aparentemente de maneira tão desigual.A irmã então pegou dois dedais que usavam para costurar: um maior, para dedos maiores, e outro menor, que a pequena usava com seus dedinhos. Encheu os dois com água até a borda, quase transbordando.Perguntou: “Você acha que dá para colocar mais?”A pequena respondeu: “Impossível. Está na capacidade máxima.”Assim é a comparação. Seu dedal foi feito para você — para o seu tamanho, sua medida, sua capacidade de enchê-lo até o máximo. Mas não além disso.Seja feliz com o tamanho do seu dedo. Preencha seu dedal até a borda. Mas, não há nada que faça caber mais do que aquilo que foi feito para o seu tamaho.