O velório e o malabarista

admin
1 Mar, 2026
Tem gente que não gosta. Eu gosto. Gosto de velório. E gosto, inclusive, de sepultamento. Gosto de andar por entre os túmulos. De ver a verdade. De, no silêncio, silenciar os barulhos da vida.Gosto de pensar na vida que prossegue sem saber como prossegue. Gosto do som dos pássaros que vivem nos cemitérios. E dos ventos. A vida é vento.Vento curto, que pena! Gosto da vida. Fui ao velório do Genésio, pai da Ruth, amiga que também gosta da vida. Conversei com algumas pessoas. Os assuntos em velórios começam sobre o fim de quem se despede. Como foi? Estava bem? Um soluço e partiu. E partimos. E, depois, vai para outros fins. Falamos do calor inclemente. Das chuvas que ora ameaçam, ora poetizam os dias.De alguns remédios e até dos solavancos que sofremos quando um amor se vai. Falamos até do sol que se põe. Foi, então, que entrou um ministro para celebrar as despedidas.Isabel, uma senhora que havia conversado a dor de Ruth comigo, resmungou, "Ué, não é um padre?". O ministro entrou, disse que era a hora, distribuiu alguns livretos com as orações apropriadas e começou: "Sou ministro, nomeado pelo arcebispo, qual o nome do defunto?". Isabel soltou um som de reprovação, não sei se pela ausência de atenção ao nome que estava na porta ou por dizer "defunto". As pessoas disseram, "Genésio". "Como?" Repetiram."Falem mais alto que o ministro é meio surdo", disse o próprio ministro. Isabel desaprovava com a cabeça."Ah, Genésio, será que Genésio é nome de santo?", perguntou o ministro. Silêncio. "Sempre é bom batizar filho com nome de santo, ajuda". "Uai", foi o que disse Isabel. Feita a leitura do Evangelho, o ministro começou a explicar. Falava como se aconselha, olhando, ora advertindo, ora acusando."Quem não perdoa não vai para o céu, está decidido. Espero que o ... qual o nome mesmo do defunto?". Isabel soltou um "Eu não acredito".O ministro não ouviu. Mas os que ouviram riram. Inclusive Ruth. "E é bom ir à missa, além do domingo, às sextas-feiras. Quem vai nove sextas-feiras seguidas garante, ao menos, o purgatório". "Eu discordo", disse Isabel, "Eu discordo". O ministro ouviu um barulho, mas não a discordância.Os risos aumentaram. E o ministro não teve dúvidas, "Estão gostando das palavras do ministro, não é?". E prosseguiu orgulhoso, "Sempre gostam". Isabel despertou minha vontade de conversar, enquanto andávamos por entre os túmulos para chegar à morada do corpo de Genésio.De braços comigo, disse que não gostava de improvisações. Nem de conclusões sobre o que não se pode concluir. Falou de Genésio com amor. "É nome de santo, sim, um santo que foi malabarista no império romano. O pai da Ruth era muito bom". Pensei nos malabares da vida. Nas lágrimas de Isabel, quando o corpo descia. Nos sentimentos que subiam, nos afetos que se abraçavam pela ausência de Genésio e pela presença da certeza de que todos nós nos ausentaremos. Ainda tive a curiosidade de saber das nove sextas-feiras de missa. Isabel foi didática, "Sou uma mulher de missas, mas não gosto que digam certezas sobre incertezas, o que nos leva para o céu, que ninguém sabe nada sobre, é o amor, é o que Jesus nos ensinou". Eu brinquei dizendo que as missas podem ajudar, que, pelo menos, não atrapalham."Sim, podem ajudar a amar, o que vem depois ninguém sabe e a ninguém foi dito". Olhei os cabelos brancos de Isabel, seu enrugar do tempo na face, sua ausência de paciência com ditos pouco cuidadosos e me despedi. Ruth ainda teve tempo de me dizer, "Um dia eu te conto mais sobre Isabel, você vai escrever um livro sobre ela". Disse sorrindo, embora na dor da partida do pai.A curiosidade quase me fez permanecer um pouco mais. Precisava ir. Andando de volta, eu olhava para os túmulos e lia algumas lápides. E imaginava a vida. O sopro e o vento. Nascemos. Vivemos. E nos despedimos...Tudo tão rápido e tão encantado. Não sei se o pai de Ruth era malabarista como o santo.Concluí que somos todos. Viemos sem nada e sem nada vamos. Sem nada? Nada sei. O que sabe Ruth sobre Isabel? Que poder fascinante é a imaginação. Imaginando, sorri o pensamento no dia que prosseguia...