Morre Ali Khamenei, líder supremo do Irã, após ataques

admin
1 Mar, 2026
Morreu o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, após o ataque dos Estados Unidos e Israel contra o território iraniano. A informação foi confirmada pelo canal do Telegram da Irna (Agência de Notícias da República Islâmica). Morte "O Líder Supremo da Revolução Islâmica do Irã foi martirizado", divulgou a Irna. No texto, a agência ainda escreveu que: "A Deus pertencemos e a Ele retornaremos". A publicação com o anúncio foi compartilhada às 22h29 (horário de Brasília). A morte do aiatolá também foi comunicada na rede de televisão. O governo iraniano decretou 40 dias de luto e sete dias de feriado nacional em razão da morte. Quem foi Khamenei Khamenei, o homem mais poderoso do Irã, governava o país desde 1989. Como líder supremo —ou seja, religioso e político—, o aiatolá detinha a autoridade máxima sobre todos os ramos do governo, as forças armadas e o judiciário na república islâmica xiita. Ele era tanto chefe de Estado como comandante-chefe e tinha a palavra final sobre políticas públicas do país. Nascido em 1939 na cidade de Mashhad, no leste do Irã, Khamenei teve seus anos de formação religiosa e política na década de 60. Ele se envolveu em movimentos que questionavam o regime do então xá Mohammad Reza Pahlevi. De acordo com a Reuters, baseado na biografia oficial do aiatolá, Khamenei foi torturado em 1963 quando, aos 24 anos, cumpriu a primeira prisão de muitas por atividades políticas durante o regime do xá. Khamenei estudou religião em Qom, quando sofreu forte influência do pensamento do aiatolá Ruhollah Khomeini, que liderava a oposição conservadora a partir do exílio. Ele se aproximou do movimento de Khomeini e logo estava ajudando a organizá-lo e executando missões em território iraniano. Nessa época, Khamenei se aprofundou em teorias anti-coloniais e anti-ocidentais. Ele chegou a traduzir livros do egípcio Sayyid Qutb, um influente intelectual do fundamentalismo islâmico, segundo um perfil publicado pelo jornal britânico The Guardian. Também participou dos protestos de 1978, que antecederam a Revolução Iraniana no ano seguinte, e tornou-se aliado próximo de Khomeini. Em 1980, quando Khomeini já era líder supremo do Irã, escolheu-o para ser o imã que faria a tradicional oração de sexta-feira em Teerã. Em junho de 1981, Khamenei sofreu um atentado a bomba que deixou seu braço direito paralisado para sempre. Quatro meses depois do ataque, foi eleito presidente do Irã, com 95% dos votos. Na época, apenas quatro candidatos foram autorizados a concorrer, e os demais três eram apoiadores de Khamenei. Ele ascendeu ao posto aos 42 anos de idade —e foi o primeiro clérigo a assumir o cargo, consolidando o domínio deles sobre o Estado. Em 1985, foi reeleito, e exerceu o cargo até 1989, quando seu líder e mentor, Khomeini, morreu de ataque cardíaco. O nome considerado favorito para assumir o posto de líder supremo era o aiatolá Hussein Ali Montazeri —que, no entanto, havia caído em decadência dois meses e meio antes da morte de Khomeini por criticar publicamente violações de direitos humanos cometidas pelo regime iraniano. O órgão responsável pela escolha do líder supremo, a Assembleia dos Peritos, decidiu de comum acordo que Khamenei assumiria o cargo. Informações indicam que Khomeini também o havia escolhido como sucessor. Para empossar Khamenei, foi necessário fazer uma manobra. Na época, ele não tinha o grau de marja, reservado aos grandes aiatolás e exigido pela Constituição para ser líder supremo. Foi então nomeado de forma temporária, a Assembleia dos Peritos alterou a Constituição, e em seguida o confirmou no cargo. Em 2018, um vídeo da reunião secreta de 1989 que levou a essa escolha vazou para a imprensa, revelando um Khamenei incrédulo e inseguro com a escolha. No início do governo, Khamenei era considerado fraco e a sua escolha foi tida como surpreendente. Inclusive, era visto como sem apelo popular e um sucessor ruim para a função de Khomeini, visto como carismático, informou a agência de notícias Reuters. O governo Khamenei Khamenei estruturou a máquina pública iraniana de forma a assegurar seu controle e poder, sendo o mais longevo chefe de Estado do Oriente Médio. No cargo, agiu para neutralizar oponentes, guiado pelos seus princípios externados na revolução de 1979, inclusive o combate ao liberalismo, à influência dos Estados Unidos e ao que ele via como desvios dos costumes islâmicos. Especialistas atribuíram a Khamenei uma estratégia de construir e fortalecer estruturas paralelas dentro do Estado que espelhavam algumas de suas instituições, como o Exército e as agências de inteligência, para dessa forma poder controlá-las melhor. É o caso da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês), por exemplo, uma força paralela aos militares tradicionais. Ao longo dos anos, tornou-se capaz de influenciar cada vez mais a formulação e execução de políticas no país, e fomentou o culto à sua personalidade. Nos quase 40 anos de gestão, o líder supremo fez do Irã uma potência regional. Ao mesmo tempo, ele promovia tecnologia nuclear, que deixava as regiões próximas e outros países temerosos com a capacidade bélica iraniana. Ele também controlava diretamente o império financeiro paraestatal, conhecido como Setad. O órgão é avaliado em bilhões de dólares e cresceu durante o seu governo, com investimento bilionário na Guarda Revolucionária. Além disso, uma das suas estratégias centrais de política externa foi apoiar com verbas e armas organizações que atuavam como intermediárias do Irã para confrontar Israel. Em diversas ocasiões, Khamenei defendeu a aniquilação do Estado de Israel, e essa estratégia de guerra por procuração lhe pareceu a mais adequada. Inclusive, apoiou o ataque do grupo extremista Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. Ele chegou a passar cinco anos sem fazer uma aparição pública. O jejum foi quebrado em outubro de 2024, quando proferiu um sermão numa mesquita de Teerã após militares de Israel matarem seu antigo aliado Hassan Nasrallah, que comandou a milícia libanesa Hezbollah por mais de três décadas. Linha dura e repressão a protestos Khamenei também esmagava opositores e mantinha uma política linha dura em relação aos costumes. Seu governo foi acusado de matar opositores exilados, e reprimiu jornalistas e intelectuais não alinhados ao regime. Em momentos de tensão, o líder supremo recorria à Guarda Revolucionária Islâmica e à Basij, uma força paramilitar com milhares de voluntários, para sufocar dissidências. Em 2009, a guarda e a Basij esmagaram protestos após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em meio a denúncias de fraude eleitoral. Em 2022, o líder mandou prender, encarcerar ou executar manifestantes em meio a protestos pela morte da jovem curda iraniana Mahsa Amini. A jovem de 22 anos morreu enquanto estava sob custódia por supostamente desrespeitar o código de vestimenta islâmico do Irã. Organizações de direitos humanos estimam que mais de 500 pessoas foram mortas durante a repressão. Neste ano, o político enfrentava a mais grave crise recente no seu governo. Em janeiro, Khamenei ordenou a repressão mais violenta desde a Revolução Islâmica de 1979 contra manifestantes que protestavam nas ruas contra a alta dos preços e condições de vida no país. Khamenei e mísseis Influência do líder iraniano caiu após o enfraquecimento do Hezbollah no Líbano e a deposição de Bashar al-Assad na Síria em 2024. Ao mesmo tempo, os EUA exigiam que ele abandonasse uma das principais estratégias iranianas: os mísseis balísticos, algo importante na visão do aiatolá. Teerã nega ter ambições nucleares militares, mas insiste em seu direito ao uso civil da energia nuclear. Em junho de 2025 , Khamenei teve que se esconder por 12 dias diante dos ataques dos EUA e Israel no Irã. O alvo dos dois países eram instalações nucleares e mísseis importantes iranianos, que foram destruídos. Vários de seus funcionários e comandantes da Guarda Revolucionária morreram na ocasião. Khamenei desconfiava do Ocidente, principalmente dos EUA, a quem acusava de tentar derrubá-lo do poder. Em janeiro, chegou a chamar Trump de "criminoso", segundo a Al Jazeera, e atribuiu aos EUA a culpa pelas mortes e danos causados no país pelos protestos ocorridos no mesmo mês. Apesar da rigidez ideológica, o aiatolá apoiou, de forma cautelosa, o acordo nuclear de 2015 entre o Irã e seis potências mundiais. A decisão foi tomada para aliviar as sanções, visando a estabilização da economia e consolidar o seu controle do poder. Em 2018, Trump abandonou o pacto e determinou sanções severas ao Irã, que reagiu violando as restrições acordadas sobre o seu programa nuclear. *Com Deutsche Welle, Reuters e RFI