Brasil acelera na corrida global dos minerais críticos

admin
1 Mar, 2026
Após acordos firmados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em meio à intensificação da disputa geopolítica por recursos naturais, o Brasil passa a ocupar posição de destaque no cenário internacional como potencial fornecedor estratégico de minerais críticos. Com reservas expressivas de terras raras, bauxita e potássio, o país busca converter sua riqueza geológica em ganhos econômicos, industriais e tecnológicos. Fique por dentro das notícias que importam para você! Em agendas oficiais realizadas em Nova Délhi e Seul, Lula firmou entendimentos com Índia e Coreia do Sul voltados à exploração, ao desenvolvimento e à agregação de valor a minerais considerados essenciais para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia. Os acordos preveem cooperação em pesquisa e processamento de terras raras, atração de investimentos e integração às cadeias globais de suprimento. A estratégia do governo federal é ampliar a participação brasileira em segmentos ligados à produção de baterias, equipamentos eletrônicos, energia renovável e defesa, áreas fortemente dependentes de insumos minerais estratégicos. O Brasil figura entre os países com maiores reservas de alguns desses recursos, mas ainda enfrenta desafios relacionados a infraestrutura, licenciamento e capacidade de beneficiamento. No mesmo contexto, integrantes do governo dos Estados Unidos têm visita prevista ao país em março para participar, em São Paulo, de reuniões e fóruns dedicados ao setor de minerais críticos. A agenda inclui discussões para destravar negociações, aprofundar parcerias bilaterais e avaliar projetos com potencial de financiamento norte-americano, reforçando o interesse internacional no papel brasileiro nesse mercado. "O Brasil tem uma reserva ainda grande e, em parte, desconhecida de minerais estratégicos. O ciclo do século 21 no país será o da mineração", afirma o diretor de Assuntos Minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Julio Nery. Segundo ele, o debate internacional sobre minerais críticos ganhou força com a transição energética e a reorganização das cadeias globais de suprimentos. A exploração do território brasileiro pelos portugueses teve como um de seus principais motores a busca por ouro e outros metais preciosos. Séculos depois, a lógica extrativista permanece, mas assume nova configuração, com a corrida por insumos estratégicos. De acordo com Nery, minerais como terras raras, bauxita e potássio são fundamentais para a agricultura, a indústria e as novas tecnologias. "Quando falamos em minerais críticos, estamos tratando de insumos essenciais para a economia e para a tecnologia, com risco de escassez ou de concentração de oferta. O problema, muitas vezes, não é a existência do depósito, mas o processamento", explica. Apesar do nome, as chamadas "terras raras" não são raras do ponto de vista geológico. Elas integram um conjunto mais amplo de insumos estratégicos, classificados como minerais críticos. O termo designa um conjunto de 17 elementos químicos, entre eles neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, considerados estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Esses materiais são fundamentais na fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, ímãs permanentes de alta potência, baterias, semicondutores e equipamentos de defesa, como radares e sistemas guiados. A demanda é expressiva. Um único carro elétrico pode utilizar até um quilo de terras raras, enquanto uma turbina eólica offshore pode exigir centenas de quilos desses elementos, evidenciando o papel central desses insumos na transição energética e na economia digital. A bauxita é a base da cadeia do alumínio, insumo estratégico para infraestrutura e mobilidade. O potássio, por sua vez, é vital para fertilizantes e para a segurança alimentar. O Brasil concentra as segundas maiores reservas globais de minerais críticos, atrás apenas da China, condição que amplia o interesse internacional por parcerias estratégicas com o país. Ainda que não seja o único a deter capacidade de processamento, a China mantém hegemonia no refino mundial e se consolidou como principal elo técnico das cadeias produtivas. Grande parte dos minerais extraídos em diferentes regiões depende de processamento em território chinês antes de chegar ao mercado internacional. Dados de 2024 e 2025 indicam que o país controla entre 85% e 90% da capacidade global de processamento de terras raras. Segundo o relatório Global Critical Minerals Outlook 2025, da Agência Internacional de Energia (IEA), a China lidera o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos considerados mais relevantes no cenário internacional, com participação média de 70% no mercado global. Em alguns casos, a concentração é ainda maior, mais de 90% do processamento de gálio e magnésio ocorre no país, além de quase 80% do grafite natural, reforçando sua centralidade nas cadeias de tecnologia e energia. Enquanto isso, o Brasil ainda desenvolve sua capacidade de processamento e enfrenta o desafio de converter suas vastas reservas em produtos refinados e industrializados, etapa que exige investimentos em tecnologia, infraestrutura e políticas públicas voltadas à agregação de valor. Para o vice-presidente de Finanças da Câmara Italiana de Comércio de São Paulo (Italcam), Fabio Ongaro, economista e CEO da Energy Group no Brasil, o país reúne condições para assumir papel de protagonista por concentrar grandes reservas fora da Ásia, com projetos em estágio avançado em Minas Gerais, Goiás e Bahia. O entrave, porém, está na estrutura industrial. "O desafio brasileiro não é geológico, é industrial. O país ainda carece de escala de separação química e tecnologia de refino comparável à asiática", afirma Ongaro. "Hoje, a China domina não apenas a produção, mas principalmente o refino e a separação química, que são as etapas de maior valor agregado. Quem controla o refino controla a indústria", reforça. Segundo ele, o ponto decisivo será a capacidade do Brasil de internalizar etapas da cadeia produtiva e romper com o padrão histórico de exportação de concentrado bruto, ampliando a agregação de valor no território nacional. A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China em torno das terras raras consolidou-se como um dos principais eixos da nova corrida tecnológica global. A preocupação de Washington decorre do amplo controle chinês sobre a cadeia de suprimentos desses insumos, fundamentais para a indústria de alta tecnologia, o setor de defesa e a transição energética. Em resposta, os EUA ampliaram iniciativas para diversificar fornecedores, incentivar projetos internos e fortalecer alianças estratégicas, com o objetivo de reduzir a dependência externa e mitigar riscos à segurança nacional. Nesse contexto, o Brasil é visto como parceiro relevante em minerais críticos e terras raras, diante de suas reservas expressivas. A estratégia inclui apoio financeiro a empreendimentos de extração e processamento, como projetos em Goiás, além da articulação de acordos comerciais que ampliem alternativas ao mercado chinês. O movimento de Donald Trump de reforçar políticas voltadas à segurança no abastecimento de minerais estratégicos se insere nessa lógica histórica de disputa por recursos naturais. "A guerra geopolítica recolocou a mineração no centro da disputa internacional. O que o ouro simbolizava antes, hoje traduzido pelos minerais estratégicos, que passaram a determinar influência econômica e soberania nacional", afirma Paulo Henrique Leal, diretor de Comunicação e Projetos do Ibram. Segundo o instituto, a Bahia se destaca atualmente como um dos estados com ambiente mais favorável à atividade mineral no país, reunindo condições regulatórias e institucionais que favorecem a exploração e novos investimentos no setor. Para Julio Nery, o Brasil deve adotar uma postura aberta ao comércio internacional, porém guiada por estratégia e defesa dos interesses nacionais. "O Brasil precisa estar aberto a parceiros comerciais, mas protegendo seus interesses e agregando valor internamente", ressalta. Jornalista formada pela UCB, com especialização em Economia pela Saint Paul Escola de Negócios e cursando MBA em Gestão Ambiental e Sustentabilidade na Uniube. Atua na cobertura política em Brasília desde 2018.