Paula Azevedo: o museu de todos os brasileiros
1 Mar, 2026
Presidente do Instituto Inhotim, Paula Azevedo, comemora reconhecimento do The New York Times e revela detalhes sobre a sua organização à frente do museu. Crédito: Colagem de Thais Barroco sobre fotos de Brendon Campos/Daniel Ribeiro/Inhotim/Divulgação/Washington Alves/JF Diorio/EstadãoQuando o The New York Times incluiu o Instituto Inhotim na lista de destinos imperdíveis do mundo, o reconhecimento chamou atenção para um momento específico da instituição. Único representante brasileiro entre os citados, o museu-jardim de Brumadinho chega aos 20 anos em meio a mudanças importantes: recorde de público, busca por autonomia financeira e a consolidação de um modelo de governança que passa a ser acompanhado por outras organizações culturais. À frente dessa fase está a paulistana Paula Azevedo. “É a única instituição de cultura na lista. Não tem outros museus. Para a gente foi uma validação de um trabalho de quase 20 anos, mas também de quatro anos de maturidade institucional”, afirma em entrevista à Coluna. E completa, apontando para o que considera o eixo central dessa nova fase: “O Inhotim deixa de ser personalista para ser o museu de todos. Não é mais o museu do Bernardo (Paz, seu fundador). O Bernardo é essa grande figura que deixou um legado para o mundo. Inhotim vai sobrepassar todos nós.”A mudança não foi circunstancial. Segundo Paula, o próprio fundador abriu o debate sobre sucessão no pós-pandemia. “Partiu dele esse desejo de institucionalização. A partir da doação das obras, da formação de um novo conselho deliberativo trazendo a sociedade civil para perto e da sustentabilidade financeira, estruturamos um pilar de transformação.” O conselho hoje reúne representantes de sete estados brasileiros. “Não é um museu mineiro ocupado por uma presidente paulista.”O Instituto Inhotim é um museu a céu aberto com cerca de 140 hectares de extensão. Isso equivale a área do Parque do Ibirapuera, de São Paulo. Créditos: Divulgação/Clara ResortsEssa reorganização estrutural veio acompanhada de método. “A gente fez um programa que chamou de três P’s: ‘pessoas’, ‘programação’ e ‘planejamento’. ‘Pessoas’ porque são elas que fazem aquele lugar todos os dias, visitante e colaborador. ‘Programação’ porque não é só ver os pavilhões, é ativar uma agenda relevante. E ‘planejamento’ porque quem não mede e não gere, não sobrevive.” E os resultados aparecem. “Inhotim bateu recorde histórico em 2025, com mais de 360 mil visitantes. É um número super relevante, lembrando que é museu de destino, não é museu de passagem.” Mais da metade do público entrou gratuitamente, com políticas de acesso ampliado. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade financeira avançou. “A gente passa de cerca de 45 milhões para mais de 90 milhões em orçamento. Hoje é um museu com autonomia financeira.” Autonomia que não é simples, considerando a escala. “São 140 hectares, praticamente o tamanho do Ibirapuera. São mais de 60 km de tubulação, 11 subestações de energia, tratamos 100% do esgoto e da água. Não é só uma operação de exposições. É um microcosmo.”Antes de chegar ao Inhotim, Paula construiu uma trajetória sólida nas artes. Passou pelo MAM, pelo IAC e pelo Instituto Tomie Ohtake. “Tive o privilégio de trabalhar com grandes figuras da cultura brasileira. Trabalhei com a Milu Vilela durante oito anos, depois com a Raquel Arnaud, com o Ricardo Ohtake e com o Bernardo Paz. São figuras que marcaram uma geração.” Paula define-se como “uma pessoa de pessoas”, alguém que construiu relações duradouras no campo cultural — capital invisível que hoje sustenta pontes.Aos 50 anos, diz viver um momento de síntese. “Chegar aos 50 foi uma coisa de mulher autônoma, segura do projeto que escolheu. Escolhi esse projeto. Quero fazer esse museu ser de todos e para todos e uma referência global.” E volta ao ponto da governança: “O que a gente criou em termos de gestão pode ser replicado. É uma fórmula que funciona.”Inhotim, está localizado em Brumadinho, no estado de Minas Gerais. O Instituto fica a 55km de Belo Horizonte, capital mineira. Créditos: John Brandão/Secult-MG/DivulgaçãoEssa liderança, segundo ela, tem características que associa ao feminino — menos hierárquica, mais voltada à mediação e à capacidade de lidar com frentes simultâneas. “A gente equilibra muitas bolas ao mesmo tempo. É entender qual é a bola da vez e seguir tocando com todas as outras no ar, sem deixar cair.” A metáfora resume um cotidiano de decisões estratégicas, gestão de equipe, captação de recursos e articulação institucional. Ao mesmo tempo, ela reconhece o custo desse arranjo permanente: “Como manter a saúde mental nesse multitasking a longo prazo é uma dificuldade.”Esse estilo de condução, baseado em articulação e consistência mais do que em movimentos espetaculares, ajuda a explicar como o reconhecimento internacional aconteceu sem uma estratégia específica de marketing. A inclusão do Instituto Inhotim pelo The New York Times não foi resultado de uma campanha. “Não foi um trabalho proativo. Eles entraram em contato dizendo que queriam conhecer”, conta. A repercussão, no entanto, ganhou tração própria. “Depois, furou a bolha.” O que começou como uma reportagem se desdobrou em novas visitas, convites e contatos. Entre eles, a de Alice Walton, herdeira da família Walmart, que passou dois dias em Brumadinho. “Inhotim transpassa barreiras.”Apesar do prestígio em ter o reconhecimento do The New York Times, Paula Azevedo destaca a importância do Instituo Inhotim para o público local. Créditos: João Kehl/DivulgaçãoPara ela, esse alcance externo só faz sentido porque está ancorado no território. O impacto não se limita ao circuito artístico nem ao prestígio internacional. “A influência social e econômica do Inhotim no território é fundamental.” O efeito é visível no turismo, na expansão da rede hoteleira e na melhoria dos acessos; a consolidação institucional trouxe previsibilidade e segurança para investimentos na região. Hoje, cerca de metade do público é mineiro — um dado que ela destaca como sintoma de pertencimento. “O mineiro tem muito orgulho do Inhotim e traz a pessoa de fora.”O ano comemorativo do aniversário de 20 anos reforça essa dimensão pública. “Em abril abrimos Dalton Paula, David Nascimento e Lais Myrrha. Em outubro, inauguramos a galeria do Cildo Meireles e retomamos ‘The Murder of Crows’, da Janet Cardiff.” Com um ano restante de mandato, Paula já projeta o futuro. “A grande marca dos 20 anos é pensar na perenidade e na sustentabilidade financeira.” E deixa clara a convicção que norteia sua gestão: “Quanto mais os museus forem transparentes e autônomos, mais forte é a cultura do país.”