O câncer está matando mais e menos - ao mesmo tempo. Como isso é possível?
1 Mar, 2026
Vocês já ouviram falar da Rua do Amendoim, em Belo Horizonte? É uma rua na qual você deixa o carro em ponto morto e ele começa a andar espontaneamente - aparentemente subindo a rua. Só que é uma ilusão ótica, pois, apesar das aparências, é um declive e o carro está descendo. Existe um fenômeno muito parecido em causas de óbito, no qual parece que os óbitos estão subindo, mas na verdade estão caindo. Para começar, eis um gráfico que mostra o total de óbitos por doenças do aparelho circulatório, por tumores e por mal de Alzheimer. Todos eles subiram no período de dez anos (entre 2015 e 2024). Você já deve imaginar o que vou mencionar na sequência: em vez de comparar números absolutos, é preciso colocar em índice relativo à população, já que a população cresceu nesse período. Mas não é apenas isto - não é tão simples. Por exemplo, nos óbitos por tumores (câncer), a taxa bruta realmente subiu: de 103 para 124 por 100 mil habitantes. Mas existe uma outra taxa, que é a padronizada por idade - e esta taxa caiu. O que é essa taxa padronizada por idade? É uma metodologia que foi desenvolvida para poder comparar épocas distintas ou países distintos, atribuindo peso específico para cada faixa etária (ASMR = age standardized mortality rate, em inglês). É uma média ponderada. Os pesos são estabelecidos pela OMS. Um segundo exemplo usando esta metodologia: óbitos por doenças do aparelho circulatório. A taxa bruta também subiu, mas a taxa padronizada por idade também teve queda, a exemplo dos tumores. Publicidade Explico em detalhe a origem deste paradoxo: calculando as taxas por faixa etária, percebe-se que ou elas mantiveram o índice anterior, ou houve queda. Mas a média, que é a taxa bruta, aumentou. PUBLICIDADE Como é possível ter componentes daquela média diminuindo e o agregado, como um todo, aumentando? É muito simples: a composição etária dentro daquela população mudou. Temos uma participação cada vez maior de idosos. Idosos morrem mais por essas doenças. Então temos um número absoluto maior dessas causas de óbito, que acabam puxando a média simples para cima. Mas, ao considerar a taxa apenas daquela faixa etária, detecta-se a queda. A isto se chama Paradoxo de Simpson: alguma taxa que está subindo, mas quando é desagregada, não há mais subida e eventualmente até mesmo há queda. À primeira vista é bem contraintuitivo, mas, uma vez que feito o cálculo, percebe-se que tem total plausibilidade matemática, não existe nenhum truque. E como último exemplo, temos os óbitos por mal de Alzheimer. No caso específico desta causa, tanto a taxa bruta quanto a padronizada por idade tiveram aumento. O que se observou nos óbitos por tumores e doenças do aparelho circulatório não é uma regra, pode haver casos em que a tendência é crescente ou decrescente para ambas taxas. Nota: voltando ao gráfico por câncer: percebam que, ao contrário do que aqueles que apregoam a tese do “turbo câncer” (pessoas estariam morrendo aos montes por câncer de ação rápida depois da vacinação contra covid) não é o que está nos números. Não houve nenhum aumento atípico após a vacinação. Publicidade Concluindo, nem tudo é o que parece ser à primeira vista. Nem sempre é suficiente colocar os óbitos em taxa relativa já que, em períodos longos, a composição da população muda. É preciso ajustar também por idade. Infelizmente ainda não temos o costume de usar esta padronização aqui no Brasil, ao menos nos veículos de comunicação leigos. Nos Estados Unidos, o sistema de informação de mortalidade deles (CDC WONDER), já fornece estas taxas calculadas padronizadas pela idade - uma vantagem quando comparado com os dados fornecidos pelo DataSUS. Ainda pretendo abordar estas vantagens e desvantagens de cada um dos dois sistemas aqui neste espaço. PUBLICIDADE De qualquer maneira, é muito importante que nós estejamos conscientes que comparações de longo prazo dentro do mesmo país, ou comparações entre diferentes países, são muito mais precisas e melhor comparáveis se considerarmos a estrutura etária, via taxa de óbitos padronizada por idade. Sabe aquela doença que passou a matar muito mais de um ano para o outro? É bom desconfiar Como é possível calcular a expectativa de vida de quem acabou de nascer? A estranha homeopatia de um preparado para a gripe: quando o nada encontrou o infinito