SP é a nossa Califórnia na inovação e no desenvolvimento tecnológico, diz brasileiro da Nasa
1 Mar, 2026
Quando o brasileiro Ivair Gontijo assistiu, ainda criança, à chegada do homem na Lua, ele não imaginava que contribuiria para colocar sondas da Nasa em Marte várias décadas mais tarde. Nascido em Moema, município do interior de Minas Gerais com menos de 10 mil habitantes, ele integra hoje o Jet Propulsion Laboratory (JPL) da agência espacial americana. Gontijo chegou a se formar como técnico em Agropecuária e trabalhar em uma fazenda antes de se mudar para a capital para estudar Engenharia Física na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Dali em diante seguiu carreira acadêmica, com doutorado no Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Glasgow, na Escócia, e dois pós-doutorados, um deles na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ele conta que bateu na porta da Nasa várias vezes até ser contratado e participar da construção de robôs exploradores enviados a Marte, como Curiosity e Perseverance.Gontijo é um dos participantes do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival com foco em inovação, tecnologia e negócios que o Estadão vai promover em maio em São Paulo, em parceria com a Base Eventos. A previsão é de que a nova conferência atraia 90 mil visitantes, com programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais.O evento terá formato similar ao da Rio Innovation Week e vai ocupar espaços simbólicos da cidade: a Mercado Livre Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Até este domingo, 1.o de março, o preço com desconto do passaporte para os três dias do evento será de R$ 594 (compras aqui). Após essa data, começará a venda de lotes regulares.Em entrevista ao Estadão, o engenheiro da Nasa falou sobre o potencial de São Paulo e do Brasil na aplicação de soluções tecnológicas de ponta a problemas locais, defendeu o valor do risco e do aprendizado com o erro para a inovação e que os cientistas brasileiros “não ficam a dever nada a ninguém, brilham em qualquer lugar que vão”.Veja os principais pontos da entrevista feita por videoconferência, a partir da residência do cientista na Califórnia:Desenvolver tecnologias usadas para explorar Marte, um planeta desconhecido, envolve não só capacidade técnica, mas também uma grande dose de invenção e inovação. Quais são as condições para conseguir realizar pesquisas desse tipo, para chegar aonde a humanidade nunca foi antes? O projeto, por exemplo, de um rover, um desses veículos que a gente manda para Marte, leva 10 anos do ponto em que ele já foi aprovado pela Nasa, em que o dinheiro já foi colocado, até o pouso em Marte. São projetos longos, que envolvem financiamento consistente que tem que estar lá a longo prazo, senão o projeto para.Eu gosto de falar nas minhas palestras que a mecânica celeste não espera por ninguém. A gente tem que estar pronto para lançar, tem mais ou menos um período de lançamento de um mês, que acontece uma vez a cada 26 meses. Uma equipe técnica de alta qualidade é muito importante, porque nós temos que estar prontos para fazer o lançamento na hora certa. A Nasa se vale há anos de parcerias público-privadas para desenvolver suas pesquisas. Como esse modelo ajuda a avançar em áreas que precisam de muito investimento, como a pesquisa espacial?Existe muita parceria com empresas e também com outros países. Por exemplo, uma grande parte da área de foguetes e de lançamento já foi terceirizada, é feita por empresas. A maioria dos lançamentos da Nasa é feita por empresas. Existem também muitas parcerias com outros países. Por exemplo, na missão do Mars 2020, que levou o veículo Perseverance para Marte, teve parceria com a França, com a Espanha, com a Noruega e com a Dinamarca.Isso diminui muito os custos, distribui o risco e traz também engenheiros e cientistas de excelente qualidade para o projeto, o que ajuda muito.Com o crescimento de empresas como SpaceX e Blue Origin, como você vê o papel da agência governamental e sua sinergia com a inovação privada no futuro?Eu não tenho conhecimento ou autoridade para falar sobre o que a Nasa vai fazer no futuro, mas, como físico e engenheiro, eu e meus colegas achamos ótimo que tenham empresas interessadas, investindo e colocando dinheiro nisso. Por duas razões: a primeira é porque isso quer dizer empregos, vai empregar mais engenheiros e isso é ótimo. E a outra é que o progresso é muito mais rápido se tem mais dinheiro, mais gente investindo nisso. Você e sua equipe no JPL tiveram um papel importante em missões bem-sucedidas para Marte, mas houve também as que falharam. Qual a importância dessas falhas para as inovações tecnológicas que vieram depois?Sim, infelizmente, duas missões da Nasa, do JPL, onde eu trabalho, falharam em 1999, com a diferença de um mês uma da outra. Elas se espatifaram na superfície de Marte. Isso foi um trauma, principalmente por terem sido duas missões seguidas.Quando uma coisa dessa acontece, montam grupos de engenheiros, vão fazer uma investigação toda do processo, sobre o que aconteceu, o que deu errado. Quando entrei para o JPL e começamos a construir o radar para o pouso do veículo Curiosity, esse radar foi feito de uma forma completamente diferente, muito mais sofisticado e com “um milhão de pessoas” em cima olhando e fazendo a conferência de absolutamente tudo para que não acontecesse um novo problema.E deu tudo certo, dessa vez o pouso foi perfeito. Então, problemas acontecem, sempre tem risco, essas falhas vão acontecer de vez em quando, mas a gente tem que aprender com elas. Você nunca deixa a falha acontecer e continua sem investigar o que aconteceu.Essa mentalidade pode se aplicar a outras indústrias, outros setores da pesquisa? Com certeza. Primeiro, é aceitar riscos, ser mais audacioso. As empresas aceitarem que qualquer investimento vai ter risco e vai ter um custo. Quem não aceita risco, já sabe qual vai ser o resultado: não vai acontecer nada.É preciso aceitar e gerenciar esses riscos. Em todo projeto nosso, temos que apresentar os riscos. Se perguntarem quais são os riscos e você disser que não tem nenhum, vão rir na sua cara.Vão dizer que, ou você não entende o que está fazendo, não descobriu os riscos ainda do seu projeto, ou está tentando uma coisa que é tão simples, tão trivial, que não vale a pena. Então, procuramos uma coisa que seja mais audaciosa, que a gente vai para frente. Isso é claro, pode ser usado em qualquer empresa, na área de educação ou em qualquer outra, e mesmo nos projetos pessoais. Esse incentivo ao risco, por acharem que um projeto não era arrojado suficiente, isso acontece na Nasa?Sim, sim, o tempo inteiro. A gente tem sempre que propor coisas que vão levar ao progresso da ciência, produzir grandes resultados e isso sempre vai ter risco. O risco é aceito e visto como uma coisa boa na verdade. Em uma entrevista para o Estadão em 2018, você disse que os cientistas precisavam tornar a ciência emocionante para as pessoas, “como um gol em final de Copa”, porque um país precisa de muita ciência e tecnologia para avançar. Como fazer isso? Qual a importância de aproximar pessoas comuns das descobertas científicas e avanços tecnológicos?Acho que cada um que trabalha com ciência ou que está interessado em ciência e tecnologia tem que usar qualquer oportunidade que tiver para falar, para mostrar o entusiasmo da ciência e aonde essas coisas podem levar. Não tem uma solução única para fazer isso, mas a gente tem que dar mais espaço à ciência e à tecnologia e fazer com que elas sejam presentes na vida das pessoas.Isso é importante por dois motivos. O primeiro é que o contribuinte é quem está pagando a ciência e a tecnologia que estão sendo desenvolvidas por órgãos governamentais. Por isso, eles merecem e devem ser informados do que está acontecendo com esse dinheiro, com esse avanço tecnológico.E a segunda coisa, é que quanto mais a gente expõe a ciência, mais a gente entusiasma aquelas crianças e aqueles jovens, que os olhos vão até brilhar e vão querer fazer também aquele tipo de coisa. Isso leva as pessoas a entrarem para uma carreira científica, tecnológica ou de engenharia e isso muda um país. Como você avalia o potencial tecnológico e científico do Brasil hoje? O que falta para transformarmos nosso conhecimento acadêmico em inovação de mercado?Somar o conhecimento acadêmico em produtos, em riqueza para o país e para a população não é um problema só do Brasil, mas mundial. Alguns países fazem melhor essa transformação do que outros, e o Brasil tem feito muita coisa boa, tem um potencial enorme. Tem tanta coisa acontecendo no Brasil que mostra a qualidade da nossa ciência, da nossa engenharia. Toda vez que eu vou a São Paulo, eu vejo coisas sobre a Embrapa ou sobre a Embraer, que são orgulhos do Brasil. Acho muito bacana quando viajo aqui nos Estados Unidos em um avião brasileiro, eu sempre conto para o passageiro do lado. São duas empresas brasileiras, uma governamental e uma privada, em que o mundo inteiro presta atenção. E tem várias outras empresas brasileiras também fazendo muita coisa. O conhecimento produzido nas universidades brasileiras e os engenheiros e cientistas brasileiros não ficam a dever nada a ninguém, brilham em qualquer lugar que vão. Do que a gente precisa? Constância de investimento e de vontade de pegar esse conhecimento da universidade e transformar em produto. Isso tem acontecido, mas nosso potencial é muito maior, não está sendo todo explorado. A gente pode fazer muito mais do que o que já tem sido feito. Qual é o potencial de SP para criar o ecossistema de inovação necessários para o avanço científico e tecnológico do Brasil?São Paulo, de certa forma, é a Califórnia brasileira, no aspecto da inovação e do desenvolvimento científico e tecnológico. Toda vez que eu vou a São José dos Campos, São Carlos ou Campinas, fico entusiasmado com as coisas que estão acontecendo lá. Por exemplo, o instrumento Supercam do veículo Curiosity tem técnicas óticas para estudar as rochas em Marte. A gente dispara pulsos de laser contra as rochas de Marte e, com isso, pode identificar os elementos químicos que formam a rocha. Bom, se dá para analisar a rocha em Marte, dá para analisar solo na Terra também.Lá em São Carlos, foi criada uma startup em parceria com a Embrapa, onde estão usando a mesma técnica, chamada LIBS (Laser-Induced Breakdown Spectroscopy), para fazer análise de solo para o agronegócio brasileiro e para pegada de carbono. Achei isso genial.Estive também no Instituto de Física da USP em São Carlos recentemente e, passando na porta de um laboratório, um rapaz me chamou. Disse que assistiu a uma palestra minha anos atrás, quando era estudante, estava terminando o doutorado e quis me mostrar um protótipo.Ele construiu um instrumento usando outra técnica que também foi para Marte, de espectroscopia Raman, para análise de café, detectar se é arábica, robusta e a qualidade, se vai ser um café premium ou não. São coisas acontecendo aí no Brasil, para resolver problemas brasileiros. A gente tem que olhar os problemas que estão acontecendo na sociedade, nos nossos negócios, nas nossas empresas e ver na universidade quem é que está fazendo coisa parecida e criar essa ponte. Isso tem sido feito em São Paulo com bastante sucesso e eu espero que cresça cada vez mais, em São Paulo e no País inteiro.