Contemplando as massas: as manifestações de 01/03

admin
1 Mar, 2026
Contemplar as massas. Parece que estou diante do fogão observando o espaguete e cuidando para ele não ficar mole demais. Mas não. Por mais que me dê vontade e fome, estou falando é de outra massa. A massa rebelde de Ortega y Gasset e que foi às ruas neste domingo, 1o de março, em ato convocado pelo deputado Nikolas Ferreira. ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP! Os números são incertos. Sempre incertos. Quem apoia a causa do Fora Lula, Fora Toffoli, Fora Moraes (o/) enxerga multidões; quem é contra, enxerga meia dúzia de gatos pingados. Uns celebram o despertar de um povo; outros zombam cinicamente da letargia. Aqui da minha rede, contudo, contemplo e, em contemplando, me contento. Muita ou pouca, há gente. Isto é fato. Elas se vestem de verde e amarelo. Ainda. E saem de casa, ainda. Para ainda gritar slogans e principalmente se fazer presente. Umas levam crianças que daqui a vinte anos dirão: eu estive lá. (Mas não me lembro de muita coisa). Ou ficarão quietas ou negarão até o fim dos tempos que um dia fizeram parte disso. Nunca se sabe. Me admira, sem qualquer resquício de sarcasmo, a esperança insistente daquelas pessoas. Principalmente dos mais velhos, que por tantas decepções passaram e com tantos líderes se frustraram. E, no entanto, estão lá. Se sentindo vivos. Parte da história. Cada um a seu modo, e às vezes com argumentos não muito elaborados, embasados mais na paixão do que na razão, eles lutam pelo futuro de filhos e netos que não estão nem aí. Há beleza nisso. Uma beleza meio kitsch , de uma fé meio deslocada, mas ainda assim a beleza da esperança, do pertencimento e da justiça. Ou algo parecido com justiça. Assim como há a beleza nas imagens aéreas dos drones que sobrevoam as massas: os indivíduos abdicando momentaneamente de seus interesses egoístas para fazer parte de algo maior. Nem que este “algo maior” seja uma ideia difusa de país e uma foto na capa de um jornal que os chamará de golpistas, quando não de fascistas. Tem razão, o Josef Pieper de minhas leituras recentes. É na contemplação que reside a felicidade e a multidão às vezes, bem às vezes, quando a gente está com o coração leve e transbordando um otimismo sereno, permite que contemplemos o grupo político pelo que ele de fato é: uma massa sem rosto, composta por indivíduos voluntariamente despojados de tudo aquilo que os torna únicos e reunidos num movimento estático de celebração indignada. Uma indignação que só não vou chamar de estéril porque, primeiro, talvez não seja mesmo. Tomara . Depois, porque me rendeu esta crônica domingueira.