Índia e Brasil firmam acordo sobre terras raras, o novo poder dos BRICS

admin
2 Mar, 2026
Em 21 de fevereiro de 2026, o presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, assinaram em Nova Délhi um importante acordo para cooperação em terras raras. A ideia é explorar as reservas brasileiras, estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas – ou 25% do total mundial – junto com a expertise indiana em processamento.Esse acordo inclui partes militares, como ajuda técnica para submarinos Scorpène no estaleiro indiano Mazagon Dock. Ele coloca o Brasil no centro da disputa global por minerais essenciais, desafiando o controle chinês e mostrando uma mudança no mundo: do poder baseado em dinheiro para o controle de recursos críticos reais.A China controla 60-70% da produção mundial de terras raras e 90-92% do refino. Isso inclui 100% das terras raras pesadas usadas em ímãs para turbinas eólicas, motores de carros elétricos e mísseis. Em abril e outubro de 2025, o governo chinês limitou as exportações desses minerais. Depois, em negociações com o governo Trump, pausou parte das restrições até novembro de 2026. Ainda assim, para ter ideia do impacto, os preços na Europa subiram seis vezes – e até 45 vezes em picos – nos momentos mais duros das restrições, por falta de suprimento. Isso expôs problemas graves da União Europeia nas cadeias de energia limpa, tecnologia digital e defesa. Além disso, Pequim, que domina amplamente o mercado, está exigindo que as empresas estrangeiras interessadas em comprar esses minerais refinados proporcionem dados corporativos sensíveis, como condição previa para autorizar as licenças de venda. A União Europeia depende muito das importações chinesas para levar adiante seu super cacareado Pacto Verde Europeu e, logicamente, vê suas metas de cortar emissões em 55% até 2030 em risco, por falta de neodímio e disprósio utilizados em turbinas eólicas, motores de carros elétricos e baterias A Lei de Matérias-Primas Críticas (CRMA, de 2024, já havia fixado metas “verdes” para o bloco europeu alcançar até o ano 2030, sem depender de forma tão visceral da China:10% de extração na Europa, 40% de processamento e refino comunitário internos, 25% de reciclagem e, no máximo, 65% de suprimentos procedentes de um único país externo. Para impulsar essa autonomia estratégica, a União Europeia está financiando 47 projetos no valor de €3 bilhões através do chamado RESourceEU.O problema é que a União Europeia continua travada por brigas internas. A Alemanha, por exemplo, depende fortemente da China para chips e para terras raras usados em sua poderosa indústria automotiva (VW, BMW). Por isso, o governo alemão resiste às medidas de defesa comercial e ao uso de instrumentos “anti-coerção” propostos pela Comissão Europeia, com medo de que Pequim responda com retaliações que prejudiquem bilhões em exportações de carros.A França, ao contrário, adota uma postura mais dura: defende estoques estratégicos de minerais, tarifas retaliatórias de até 100% e projetos nucleares e de reciclagem de ímãs de terras raras com a empresa Orano, buscando liderar a soberania estratégica europeia nessas cadeias.Essa briga entre Berlim e Paris acaba enfraquecendo o Instrumento Anti-Coerção (ACI), que foi criado justamente para responder à pressão econômica de países como a China. Ao mesmo tempo, Bruxelas tenta reduzir a dependência chinesa negociando um Critical Minerals Agreement com os Estados Unidos e ampliando parcerias em minerais críticos com a propria Índia por meio de acordos bilaterais.Como se sabe, os BRICS deixaram em segundo plano, ao menos por enquanto, a ideia de criar uma moeda única, algo difícil hoje porque o dólar ainda manda no comércio mundial. Em vez disso, o grupo está concentrando força em recursos concretos – ouro, energia e minerais críticos – e o acordo Brasil‐Índia sobre terras raras é um exemplo claro desse movimento que analistas como Zoltán Pozsar chamam de “novo Bretton Woods” baseado em commodities.O acordo Brasil‐Índia aproveita as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, que estão no Brasil, e combina isso com investimentos indianos em refino e fabricação de produtos de alto valor. A parceria ajuda a diminuir a dependência da China em áreas como inteligência artificial, defesa naval e energias renováveis e, com a cooperação em manutenção de submarinos Scorpène no Mazagon Dock, também tira espaço de fornecedores europeus, em especial a França.Essa nova força de Brasil e Índia em minerais estratégicos aumenta a pressão sobre Washington. Trump se prepara para encontrar Xi Jinping em uma cúpula marcada para 31 de março de 2026, tentando arrancar da China garantias de fornecimento de terras raras em troca de aliviar tarifas, liberar vendas de chips avançados e ampliar compras agrícolas, como soja.Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tentam diminuir a dependência da China fechando acordos de minerais críticos com aliados como Japão e Austrália. Esses pactos ajudam a diversificar o suprimento, mas não eliminam a necessidade de algum entendimento com Pequim, inclusive em temas sensíveis como Taiwan, o que revela limites do poder norte‐americano. Enquanto isso, os BRICS ganham força concreta porque controlam minas e etapas-chave das cadeias de suprimento, o que reduz o peso relativo das ferramentas puramente financeiras usadas há décadas por Washington.Pela primeira vez, o Brasil começa a sair do papel de simples exportador de commodities para virar ator central em cadeias de alto valor agregado. Parcerias com a Índia atraem investimento estrangeiro direto para refino de terras raras, produção de ímãs permanentes e componentes para veículos elétricos, o que abre espaço para mais empregos qualificados, maior autonomia tecnológica e novas receitas ligadas à transição energética.Mas ainda há desafios importantes. O Brasil não tem fábricas para refinar terras raras, o que deixa o país sob pressão de Estados Unidos, China e União Europeia para se alinhar com um lado ou outro. Há risco de continuar exportando apenas minério bruto, sem desenvolver uma indústria própria, além de possíveis impactos ambientais da mineração, especialmente na Amazônia. Também faltam infraestrutura de qualidade e regras estáveis, o que torna ainda mais urgente um plano sólido de política industrial para gerar empregos e agregar valor dentro do país.O eixo Índia‐Brasil mostra uma virada de chave: o poder baseado apenas em finanças, sistemas como SWIFT e sanções perde espaço para o poder de quem controla fisicamente as terras raras e outros minerais estratégicos. Nessa nova disputa, os Estados Unidos tentam garantir autossuficiência com tarifas e acordos com aliados, a União Europeia busca recuperar terreno com a CRMA, e os BRICS reforçam uma coordenação Sul‐Sul mais multipolar.Para o Brasil, o desafio central é juntar regras ESG rigorosas, capacidade de refino dentro do país e uma diplomacia equilibrada, transformando suas reservas em base real de poder industrial e influência geopolítica.Hoje, com o nacionalismo de recursos mais forte, esse acordo Brasil-Índia torna os BRICS uma potência real de minerais. Países do Ocidente agora precisam renegociar regras das cadeias de suprimento que mandam no século XXI: quem processa terras raras domina a indústria, as armas e o clima.Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.