Quando uma guerra é justa? O que a doutrina católica diz sobre a ofensiva contra o Irã
2 Mar, 2026
Na madrugada de sábado (28), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o início do que descreveu como “grandes operações de combate no Irã”. Em um comunicado oficial, Trump detalhou o que classificou como décadas de ações hostis por parte do governo iraniano, somadas a tentativas recentes e, segundo ele, frustradas de se alcançar um acordo diplomático. De acordo com o presidente americano, a recusa do Irã em interromper a busca por armas nucleares representa uma ameaça direta à segurança nacional dos EUA e à estabilidade do Ocidente. O anúncio provocou repercussão imediata: a embaixada americana em Israel emitiu uma ordem de confinamento (ou shelter-in-place , protocolo que orienta cidadãos a permanecerem abrigados por razões de segurança ) e companhias aéreas cancelaram voos em diversos países da região. Para além das consequências militares e diplomáticas imediatas, a decisão levanta questões morais profundas. Estratégias de guerra exigem planejamento minucioso, e os integrantes das Forças Armadas devem receber todo o apoio necessário. Ainda assim, como demonstra a História, decisões dessa magnitude costumam ser pesadas também na balança da moralidade objetiva. Governantes têm o dever de proteger os direitos que, na tradição cristã, são entendidos como concedidos por Deus ao povo. Embora haja inúmeras perguntas de ordem prática e estratégica a serem feitas, refletir sobre o que define uma “guerra justa” é, certamente, uma das mais decisivas. A chamada “Teoria da Guerra Justa” foi formulada nos primeiros séculos do cristianismo por Santo Agostinho e desenvolvida de modo sistemático, na Idade Média, por São Tomás de Aquino. Em sua obra mais conhecida, a Summa Theologiae (Suma Teológica), Aquino estabelece três critérios básicos para que uma guerra possa ser considerada moralmente justa. Autoridade soberana A guerra deve ser declarada por quem detém autoridade legítima. No caso em questão, esse requisito estaria formalmente cumprido, uma vez que a ordem partiu do presidente dos EUA, autoridade máxima do Poder Executivo do país. Causa justa É necessária uma razão legítima. É nesse ponto que surgem as maiores controvérsias. Trump sustenta que a ofensiva contra o Irã se justifica pela recusa explícita do regime em cessar seu programa nuclear. O discurso oficial americano menciona ainda declarações hostis do governo iraniano contra os EUA e seus aliados. A ação é apresentada pela Casa Branca como preventiva e como consequência de sucessivas oportunidades oferecidas ao Irã para rever sua política nuclear e seu alegado apoio a grupos considerados terroristas por Washington. Intenção reta O terceiro critério exige que quem declara a guerra o faça com “intenção reta”, ou seja, buscando promover o bem ou evitar um mal maior. Trump afirmou que o objetivo da operação é impedir que o que descreveu como uma “ditadura radical” ameace interesses estratégicos americanos e a segurança internacional. Sob essa ótica, a intenção declarada seria proteger sua nação — e, por extensão, aliados — de danos futuros. A visão da doutrina Com base apenas nesses três critérios clássicos, pode-se sustentar que o conflito atende à definição tradicional de guerra justa. Contudo, o ensinamento oficial da Igreja Católica aprofunda essa análise. A doutrina católica afirma que as nações têm o direito de legítima defesa diante de um agressor injusto. A Igreja, portanto, não adota o pacifismo absoluto. Existem, no entanto, condições adicionais. A guerra deve ser o último recurso, após o esgotamento comprovado de todas as vias diplomáticas. Em declarações públicas, Trump afirmou: “Nós tentamos. Eles queriam, depois não queriam. Não sabiam o que estava acontecendo; queriam apenas praticar o mal. O Irã recusou, como tem feito por décadas, rejeitando todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares”. O presidente americano garante que todas as alternativas pacíficas foram tentadas. Porém, como cidadãos sem acesso a informações confidenciais ou aos bastidores da diplomacia entre Washington e Teerã, não dispomos de todos os elementos para uma avaliação definitiva. Críticos da decisão argumentam que o recurso às armas foi precipitado e que ainda haveria espaço para negociação. Já seus apoiadores afirmam que a postura iraniana não deixou alternativa viável, interpretando a ação militar como firme e preventiva. A doutrina também estabelece que, mesmo em uma guerra considerada justa, o dano causado deve ser proporcional ao mal que se pretende evitar, e deve haver probabilidade razoável de sucesso. Além disso, ataques deliberados contra civis são moralmente inadmissíveis em qualquer circunstância. Os critérios de proporcionalidade e de chance real de êxito só poderão ser avaliados com maior clareza nas próximas semanas. Permanecem, portanto, interrogações legítimas. Há quem defenda que a obstinação ideológica do regime iraniano seja intransponível e que qualquer tentativa de mudança em sua postura em relação ao Ocidente esteja fadada ao fracasso. Resta a pergunta: visões de mundo radicalizadas podem ser derrotadas apenas pela força? A guerra já está em curso, e a capacidade de influência do cidadão comum sobre decisões geopolíticas é limitada. Ainda assim, a tradição cristã recorda que a justiça começa na vida cotidiana — na forma como agimos em nossas famílias, comunidades e na esfera pública. O mal, segundo essa perspectiva, só é vencido quando os corações se convertem ao que é verdadeiro e bom. ©2026 The Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês: Is This a Just War?