Rock virou música de velho. E a culpa é do próprio roqueiro que se recusa a escutar algo novo
2 Mar, 2026
AC/DC desafia décadas de traumas e glórias com show de sangue, suor e lágrimas em SP Angus Young e Brian Johnson comandaram nesta terça-feira, 24, a primeira das três apresentações da banda australiana no Estádio do Morumbis pela turnê ‘Pwr Up’. Crédito: Gabriel Zorzetto | Taba Benedicto | TV Estadão Adriana de Barros, uma jornalista amiga minha, me conta o diálogo divertido que presenciou entre duas moças no banheiro feminino do Morumbis, logo após a histórica apresentação do grupo australiano de rock AC/DC. “Nossa, só tinha velho neste show”, diz a primeira. “Mas o que você queria? É show de rock, só velho vai a show de rock”, explica a segunda. Por mais doloroso que seja para mim – ainda que prefira o termo “vintage” a “velho”–, tendo a concordar com a visão cruel das jovens a esse tipo de espetáculo. Concertos de rock, com raríssimas exceções, são ajuntamentos de senhores de barba e/ou cabelos brancos, que consomem hectolitros de cerveja e usam os braços para simular os solos de guitarra mais complicados (movimento conhecido como “air guitar”). Os assuntos das conversas variam entre a edição do Rock in Rio de 1985, que trouxe uma noite dedicada ao metal pesado, às performances icônicas de Queen, Iron Maiden, Kiss, Guns N’Roses e Metallica no país. PUBLICIDADE Culpa do velho roqueiro? Talvez. Mas faz pelo menos três décadas que o rock pesado perdeu o protagonismo na mídia e no showbiz – foram substituídos por astros do hip hop e agora pelos popstars do reggaeton (no Brasil, claro, a parada se divide entre o funk e a música sertaneja). Por conta da escassez de novos ídolos, os festivais dedicados ao gênero trazem sempre as mesmas atrações. Afinal, só um grupo e um cantor veteranos possuem um baú de hits para lotar estádios e arenas – ainda que não ostentem a vitalidade de tempos atrás. Publicidade O problema é que a lista diminui ano após ano: os dinossauros da pauleira se aposentam ou cancelam shows por causa do peso da idade e encontrar substitutos à altura virou o 13o trabalho de Hércules. Por exemplo, em novembro do ano passado, o Bangers Open Air, festival dedicado a diversas vertentes do heavy metal, anunciou como atração principal o Twisted Sister, ícone do som pesado e espalhafatoso dos anos 1980. A vinda deles, contudo, foi abortada por conta dos problemas de saúde do vocalista Dee Snider (nos bastidores, a banda foi criticada porque vendeu as datas da turnê sem ter feito um único ensaio para checar a energia de seus integrantes). Em seu lugar entrou o grupo alemão Arch Enemy, cujo som pesado está longe da natureza divertida e maquiada do Twisted Sister. As atrações atuais do universo pauleira podem até fazer sucesso, mas seu público não é constituído por roqueiros velhos de guerra. Grupos como Avenged Sevenfold e System of a Down, para ficarmos entre as mais recentes sensações de bilheteria no país, possuem uma estética musical e lírica que não conversam com o roqueiro mais raiz. Eles trazem letras interiorizadas e politizadas, muito diferentes do hedonismo, dos contos épicos e das histórias de terror dos headbangers de tempos atrás. O flerte dos novos conjuntos com o hip hop e a música eletrônica também são um pecado para quem prometeu amor eterno a baixo, bateria e paredes de guitarra (e aqui teclados servem no máximo como coadjuvantes). A culpa do “roquista” por essa situação está na falta de interesse de uma boa parcela desse espectador pelo novo. Certa vez, um promotor de shows comentou comigo que existem ótimas e jovens atrações do gênero pesado que são escaladas para fechar alguns dos principais festivais de metal mundo afora, mas que aqui não conseguiriam lotar uma casa de mil espectadores. Porque o público nacional, tão ortodoxo quanto receita de Biotônico Fontoura, prefere os mesmos de sempre – daí o motivo de Guns N’Roses, Scorpions e Judas Priest, combos históricos mas aquém de seus momentos de glória, estarem sempre carimbando seus passaportes para visitar a fauna e flora nacionais. O processo de renovação, nesse caso, é praticamente nulo. Quem não se contenta com as guitarras envelhecidas se bandeia para os lados da música pop. Uma categoria, diga-se, que encontra um público atento e participativo. Do K-pop ao reggaeton, da dance music à country music em conluio com o hip hop, todos encontraram em nosso país uma plateia fiel e participativa. E ainda que seja mais um desejo desse colunista do que a vida real, qualquer espectador desses concertos pode descobrir de onde cada um desses atos se inspirou para bolar seu estilo. Os astros coreanos emulam as coreografias e as batidas de Michael Jackson; já Dua Lipa e Harry Styles são influenciados pela disco music e new wave dos anos 1970 e 1980; a disco, o soul e o funk da década de 1970 é a força por trás das composições de Bruno Mars; Taylor Swift traz em sua receita as melodias agridoces de James Taylor (o nome dela é uma homenagem ao compositor) e Bad Bunny, astro do reggaeton, tempera suas batidas eletrônicas com a música folclórica de sua Porto Rico natal. Escutar esses astros é se abrir para sonoridades que ajudaram a construir o pop atual. Preso ao passado por conta da memória afetiva, o metaleiro raiz perde uma chance de ouro de ser apresentado a novas atrações do som pesado. Bandas como Castle Rat, liderada pela vocalista e guitarrista Riley Pinkerton, que se define como uma “banda de heavy metal de fantasia medieval” (o som deles é melhor do que essa descrição, acredite); o Deafheaven, que une rock pesado ao universo do som alternativo; The Night Flight Orchestra, que une guitarras distorcidas ao pop radiofônico americano dos anos 1980, ou mesmo o Ghost, banda de alta popularidade por aqui mas cujo último lançamento, Skeletá, urge plateias maiores. Todos são antídotos eficazes contra o epíteto “coisa de velho” com o qual o gênero tem sido tachado. Publicidade Em tempo: este cronista gosta de novidades, mas se emocionou como poucos com o show do AC/DC, assistiu hipnotizado ao grupo de funk/rock/jazz Living Colour na sexta-feira passada e garantiu ingressos para a turnê que o trio canadense Rush fará em 2027 por aqui. O som pode ser “de velho”, mas a qualidade desses artistas resiste a qualquer choque de gerações.