A tragédia que se repete

admin
3 Mar, 2026
É verdade que o campo minado da informação pública é um dos territórios imaginários mais disputados nos conflitos bélicos, desde o século passado. Hoje, a facilidade da transmissão em tempo real é vista como, no mínimo, uma faca de dois gumes, e a manipulação permitida pela tecnologia disponível faz da desinformação e das fake news um problema que deve ser levado em consideração pelos veículos de comunicação, tanto quanto pelos governos e os comandantes nos campos – e nos monitores – de batalha. O disparo de números, imagens chocantes e notícias que denunciam barbaridades cometidas, desempenha cada vez mais um papel relevante, na configuração de narrativas que, se não decidem, podem influenciar os rumos de uma guerra. Mas por mais que informações sejam desacreditadas, a realidade aparece nos escombros e nos corpos atingidos por balas e mísseis. A tal ponto que, depois de algum tempo, a confirmação da verdade força o reconhecimento de tragédias humanitárias, causadas pela força da violência das bombas sobre inocentes – mesmo que os alvos declarados sejam terroristas, líderes radicais ou ditadores que não se importam com o sofrimento de seu próprio povo. Os discursos oficiais tendem, no entanto, a tratar as mortes na população civil atacada como danos colaterais, apesar de lamentarem o caráter trágico dessas perdas – quando chegam a lamentar. A tragédia documentada dos palestinos na Faixa de Gaza pode se repetir, a exemplo de outras nas últimas décadas, agora no Irã. Sede de um governo tirânico acusado de formar e armar grupos terroristas que atuam no Oriente Médio e ameaçam os israelenses e os norte-americanos, o Irã teve o líder supremo assassinado. A reação dos iranianos envolve o uso de um poder de fogo incalculado, desestabiliza a região e leva tensão ao mundo inteiro, sobretudo à Europa, onde o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou a retomada do programa nuclear como prevenção ao risco acentuado pelas guerras que se sucedem nas proximidades do continente. A notícia sobre a destruição de uma escola por mísseis nos primeiros dias dos ataques realizados pelas forças de Netanyahu e Trump, que teria matado mais de uma centena de estudantes, entre os quais dezenas de crianças, ainda será investigada e confirmada – ou não. Mas o cenário é semelhante ao de Gaza. O governo de Israel, assim como fez com os palestinos, enviou avisos à população iraniana para que deixe certas áreas que devem ser bombardeadas. De igual forma, lançou alertas ao Líbano, ainda que o governo libanês tenha deixado claro não estar de qualquer lado no conflito, e não se confundir com os radicais do Hezbolah, que agem dentro do país e a partir de suas bases por lá. Seja na mira determinada por sanguinários radicais, seja dentro da margem da tragédia esperada por líderes a milhares de quilômetros de distância, ou por comandantes endurecidos pelo raciocínio bélico, o aniquilamento de cidades que viram ruínas, assim como as vidas que escapam da morte por um triz, denunciam a vulnerabilidade da imensa maioria das populações do mundo, diante das decisões que, muitas vezes, miram o lucro e o poder por cima do rastro de mortes.