Copa do Mundo começa em 100 dias e testa neutralidade da Fifa após ataque dos EUA ao Irã
3 Mar, 2026
Lula segura e beija a taça da Copa do Mundo ao lado de Cafu Taça do Mundial segue seu tour pelo Brasil e passou pela capital federal antes de rumar para a América do Norte. Crédito: Reprodução/ CanalGov O campeonato de futebol mais importante do mundo começa em exatos 100 dias. A Copa do Mundo de 2026 larga em 11 de junho, no México , palco do jogo inaugural entre os anfitriões e a África do Sul , no lendário Estádio Azteca. Marcada por ineditismos, a primeira Copa disputada em três sedes - Canadá , EUA e México - e com 48 seleções e 104 partidas, deve iniciar com problemas geopolíticos. A 100 dias para o torneio, os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã elevaram a tensão e lançaram sombra sobre o Mundial. Estadão Esportes lança canal no YouTube. Inscreva-se e veja o melhor da opinião, bastidores e entrevistas Fifa faz ‘reunião de crise’ para discutir Copa do Mundo após ataque dos EUA ao Irã Ataques ao Irã elevam tensão entre política e futebol a três meses da Copa do Mundo PUBLICIDADE A ofensiva americana contrasta com a união que diz promover a Fifa e aumenta as incertezas sobre a instabilidade geopolítica global às vésperas do torneio. A seleção do Irã está classificada para o Mundial, mas sua participação passou a ser incerta , conforme sinalizou Mehdi Taj, presidente da Federação Iraniana de Futebol. “É improvável que possamos olhar para a Copa do Mundo com esperança, mas são os dirigentes do esporte que devem decidir sobre isso”, disse o dirigente. Publicidade Desde que retornou à Casa Branca, Trump passou a liderar retórica agressiva contra imigrantes e promoveu divisões políticas e tensões com aliados. País que receberá a maior parte dos jogos da Copa, com 11 das 16 cidades-sede, os Estados Unidos, sob Trump, lançou uma guerra tarifária contra o mundo inteiro, incluindo seus vizinhos; afirmou que o Canadá deveria se tornar o 51o estado dos EUA e ameaçou intervir militarmente caso o México não intensificasse a luta contra o narcotráfico. Ivan Martinho, professor de Marketing Esportivo da ESPM, aponta que, historicamente, o esporte - e o futebol está incluso nessa lógica - tenta se manter como território neutro em conflitos dessa natureza, mas, na prática, ele é atravessado pela política internacional. “Dependendo da evolução do cenário, podem surgir pressões por sanções, restrições de viagem ou manifestações simbólicas, o que amplia o debate para além do campo e coloca a governança esportiva diante de decisões sensíveis”, analisa. Publicidade A Fifa mantém oficialmente uma política de neutralidade, seguindo o que preconiza seu estatuto, com a ideia de separar o futebol de conflitos geopolíticos. No entanto, essa suposta posição neutra é frequentemente contestada, como aconteceu quando Gianni Infantino resolveu criar o Prêmio da Paz e o entregar durante o sorteio da Copa, em Washington, ao presidente americano Donald Trump, seu aliado imprescindível . Dois dos três países-sede estão envolvidos em tensões que pressionam o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e deixam torcedores apreensivos. Além dos EUA, o México é outra nação com conflitos, embora diferentes. O México enfrenta uma onda de violência pela morte de seu maior chefe do narcotráfico, Nemesio Oseguera, que resultou em dezenas de mortos, veículos incendiados, comércios fechados, bloqueios de estradas e um clima de terror paralisaram boa parte do país na semana passada. Apesar da escalada de violência em Guadalajara, uma das três sedes mundialistas no México, e da intranquilidade gerada por Trump, Infantino tem repetido que a Copa vai transcorrer com naturalidade. “Muito tranquilo, tudo muito bem. Vai ser tudo espetacular”, assegurou o chefe do futebol mundial na semana passada. Publicidade O secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, limitou-se a dizer que acompanha “o desenvolvimentos em torno de todas as questões ao redor do mundo”. Em meados de janeiro, o governo americano anunciou a suspensão de vistos para imigrantes de 75 países como parte de sua luta contra a imigração ilegal. Quatro das nações afetadas participarão da Copa do Mundo: Irã, Haiti, Senegal e Costa do Marfim. Segundo Minky Worden, diretora de Iniciativas Globais da ONG Human Rights Watch, “a Fifa não pode garantir que qualquer turista estará seguro nos Estados Unidos, a menos que obtenha garantias do governo Trump de que as pessoas não serão presas, detidas e deportadas durante a visita”. “Já não é certo dizer que o mundo inteiro é bem-vindo a esta Copa do Mundo”, afirmou Worden. Os torcedores “compraram ingressos para uma grande festa para celebrar sua seleção. Será que eles se sentirão seguros ou vão se divertir se tiverem que levar seus passaportes para este evento?” Publicidade “Corremos o risco de perder o verdadeiro espírito do futebol. Não devemos criar muitos obstáculos que impeçam as pessoas de se soltarem”, afirma Julien Adonis Kouadio, presidente do comitê oficial de torcedores da Costa do Marfim. Tim Elcombe, professor da Universidade Wilfrid Laurier, no Canadá, especializado na relação entre esporte, política e assuntos internacionais, acredita que os Estados Unidos estão agindo de forma diferente da Rússia em 2018, ou do Catar em 2022, que tentaram se apresentar como locais muito acolhedores e normais. Mas o governo americano “não está preocupado com o que outras nações pensam”, diz Elcombe. “Não está praticando ‘sportswashing’ (usar o esporte para limpar sua imagem). Está usando o torneio como uma ferramenta para demonstrar o poder e o excepcionalismo americano.” A despeito dos muitos problemas, o Mundial deve ter estádios lotados, já que a venda dos ingressos tem sido bem-sucedida . Publicidade A Fifa recebeu mais de 500 milhões de pedidos de ingresso para a Copa do Mundo deste ano, informou a entidade em janeiro. O número de solicitações foi alcançado apesar da polêmica envolvendo o preço das entradas, que chegam a custar até US$ 8.680 cada. Segundo a organização Football Supporters Europe (FSE), os preços dos ingressos deste ano são quase cinco vezes maiores do que os da Copa do Mundo do Catar de 2022. Em resposta às críticas, a Fifa lançou em dezembro uma categoria de entradas de baixo custo, com preço de US$ 60 (cerca de R$ 270,00). A entidade máxima do futebol mundial comunicou que recebeu pedidos de torcedores de todas as suas 211 associações e territórios membros. O Brasil está entre os países com mais torcedores que solicitaram ingressos. / COM INFORMAÇÕES DA AFP