Jason Mraz exalta Tom Jobim: ‘Eu o escuto agora. Talvez também me descubram em 50 anos’

admin
3 Mar, 2026
Jason Mraz é exatamente quem parece ser. Falando em um fundo com um teto colorido, a voz gentil e um ar “good vibes”, o dono do megahit I’m Yours conversou com o Estadão sem pressa e sem pressão uma semana antes de desembarcar no Brasil após 10 anos. Jason lançou seu último álbum em 2023, mas se ancora na nostalgia nos cinco shows que fará no País com sua Return to South America Tour . PUBLICIDADE O cantor se apresenta primeiro em Curitiba nesta terça, 3, e segue para São Paulo na quinta, 5. Ele ainda tem apresentações marcadas no Rio , em Belo Horizonte e em Porto Alegre nos dias 6, 8 e 10, respectivamente. “Essa turnê vai ter muito voo, muito deslocamento. Nunca ficamos muito tempo em um lugar só, e isso é um desafio. O show dura duas horas, mas temos que lidar com as outras 20 e poucas... Então, não sei o que o futuro reserva. Sempre vou amar estar no palco, mas não sei se estarei sempre em turnê”, diz ele, sincero sobre sua atual relação com os palcos. Jason explodiu no Brasil em 2008, época do lançamento de I’m Yours , música do álbum We Sing. We Dance. We Steal Things . A faixa fez parte da trilha sonora da novela A Favorita (2008), da Rede Globo, e logo virou parte do repertório de quem toca ukulele e das músicas de barzinho – onde a canção, volta e meia, ainda aparece. Publicidade O cantor também lançou outras músicas, no mesmo estilo “balada lenta”, que não chegaram ao mesmo patamar de I’m Yours , mas tiveram sucesso, como 93 Million Miles , de 2012, e Lucky , também de 2008. Já fazem mais de 10 anos, mas, curiosamente, “lucky” (“sortudo”, em tradução para o português) é uma palavra que Jason ainda repete diversas vezes na entrevista. “Tive muita sorte com a forma como I’m Yours foi celebrada e recebida no mundo todo”, diz ele. Agora, ele não pensa mais em compor o “hit do ano” – e sequer lança um álbum todos os anos. Mraz se divide entre o ativismo, especialmente para a educação artística e segurança alimentar, e a apreciação pela música , incluindo a brasileira. “Do mesmo jeito que eu escuto Antônio Carlos Jobim , talvez alguém também descubra minha música daqui a 50 anos”, afirma, honesto sobre as canções que lança hoje. É comum que, depois de um sucesso estrondoso, haja pressão para que o artista produza mais e mais – no caso de Mraz, mais e mais I’m Yours . Ao Estadão , porém, o cantor diz que não é o caso. “Continuo escrevendo e tocando de um jeito livre, alegre e generoso”, diz ele. “Uma música como I’m Yours é sobre generosidade, sobre doar seu tempo a alguém ou a algo. Meditar sobre isso enquanto escrevo me faz sentir que tenho um propósito. Continuo fazendo isso. Se a música vai ser um hit ou não, já não está nas minhas mãos.” Publicidade Rush esgota ingressos e anuncia data extra em SP; saiba quando e como comprar ‘Man on the Run’ narra a longa estrada de Paul McCartney pós-Beatles Cantor do Living Colour defende ativismo na música: ‘Quem não tem consciência será explorado’ Seu último disco, Mystical Magical Rhythmical Radical Ride , contou com 10 músicas que misturam baladas no estilo I’m Yours , mensagens otimistas e até reflexões sobre a conexão com a natureza. “Tudo que você precisa está no seu próprio quintal”, canta ele em Disco Sun , uma das letras mais excêntricas do álbum. Não é à toa que Mraz cante muito sobre o assunto: de seu sucesso para cá, ele virou um ativista e até opera um rancho com produtos orgânicos e agricultura regenerativa, a Mraz Family Farms. Na entrevista, ele até opina sobre a relação complexa do Brasil com o agronegócio. Para o cantor, “o desenvolvimento precisa ser feito em harmonia com a natureza, porque, sem o meio ambiente, não há humanidade”. “Na minha comunidade, onde antes era área de pasto e cultivo por centenas de anos, aos poucos estão surgindo casas, bairros e empresas”, conta. “Meu coração sofre pelas futuras gerações que podem não ter acesso a comida orgânica, direto da terra. Não consigo imaginar o que será da qualidade do ar com menos árvores, ou do nosso sistema de águas com mais empresas em rios e barragens.” Mraz opina sobre a natureza brasileira, mas, apesar de não vir ao País há 10 anos, construiu relações profundas por aqui. Em 2011, chegou a participar do Festival de Verão em Salvador e fez um dueto com um dos pilares da música brasileira, Milton Nascimento . No mesmo ano, fez outros shows no País e incluiu Tudo O Que Você Podia Ser , do Clube da Esquina, no setlist. Publicidade CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE Na época em que esteve aqui, ele conta ter ficado fascinado ao conhecer “uma mulher chamada Maria Gadú ”. “Não sei se a Maria ainda está por aí gravando e tocando, mas eu mergulhei fundo na música dela alguns anos atrás”, diz. Mraz também cita ouvir, no dia a dia, nomes como Tom Zé , Gilberto Gil e Caetano Veloso . “Tenho certeza de que, se eu colocar o álbum para tocar, eu consigo fingir que sei [cantar]”, brinca sobre as canções dos brasileiros. Agora, Mraz pretende se afastar um pouco daquele estilo voz e violão que o consagrou. Em 2024, ele anunciou que estava trabalhando em um álbum do gênero country bluegrass em homenagem à sua avó. Ao Estadão , o cantor revela que vai lançar o álbum ainda este ano. “Minha avó sempre quis esse álbum”, conta. Ele tem o disco planejado – mas nenhum planejamento sobre como será seu futuro na música daqui para frente. “Tenho umas mil músicas e preciso descobrir como fazer a curadoria, separá-las em álbuns e dar sentido a elas. Às vezes acabo com tantas músicas porque, como compositor, preciso praticar. De vez em quando, escrevo algo que sinto que vale a pena compartilhar em um nível maior. Eu acho que ainda vou continuar fazendo isso, mas não sei o que o futuro me guarda.”