Sobrinha de Yves Saint Laurent lança livro sobre vida do estilista

admin
3 Mar, 2026
"O Príncipe da Babilônia" é o primeiro romance de Marianne Vic a ser traduzido para o Brasil. Crédito: Colagem de Thais Barroco sobre fotos de Hannah Assouline/Fayard/Estação Liberdade/DivulgaçãoO mito de Yves Saint Laurent acaba de ganhar uma narradora improvável — e íntima. Em conversa com a Coluna, a sobrinha de Saint Laurent, Marianne Vic, falou sobre “O príncipe da Babilônia”, romance em que mergulha na história do tio para além da aura do gênio intocável. “Este livro visa restituir ao ícone da moda a humanidade que a fama lhe roubou. Acredito que o homem é mais interessante do que a máscara que lhe foi imposta. Por trás da sigla YSL está Yves, um menino que sorria desesperadamente para uma mãe incapaz de amá-lo.”Longe de buscar escândalo, Marianne diz que escreveu para compreender. “Não existe família sem segredos. Não acredito que segredos se beneficiem ao serem enterrados. Revelar é uma forma de curar algo que, às vezes, remonta a várias gerações.” O impulso também foi pessoal: “Havia a sensação de ainda ser reduzida, anos após a morte do meu tio, a personificar ‘a sobrinha de...’. Então, tentei escrever a verdadeira história de uma família sufocada pelas aparências.” Leitora de Jung, resume a própria motivação com a frase do psiquiatra: “Tudo o que não é trazido à consciência retorna na forma de destino.”No livro, o “príncipe” da moda surge humano. “O status de príncipe nunca garantiu estabilidade psicológica. Na verdade, muitas vezes é o oposto. Reis são isolados em seus palácios, assim como Yves foi entregue à solidão em seu esplêndido apartamento na rue de Babylone, que se tornou o mausoléu onde ele se enterrou vivo.” A autora celebra a chegada da obra ao Brasil, pela Editora Estação Liberdade: “Que alegria e orgulho! Amo este país há muito tempo.”Em "O Príncipe da Babilônia", Marianne Vic vai a fundo nos segredos de seu tio, Yves Saint Laurent. Crédito: Editora Estação Liberdade/DivulgaçãoConfira abaixo a entrevista completa com a autora Marianne Vic:Coluna Alice Ferraz: O leitor abordará este livro partindo da imagem pública de Yves Saint Laurent: um gênio da moda intocável. Mas qual Yves será apresentado ao longo da narrativa? Marianne Vic: Que imagem do homem permanecerá ao final do livro? Para pessoas famosas, sempre existe uma dicotomia entre sua imagem pública e seu eu privado. Fora de seu círculo íntimo, ninguém as conhece de verdade, certamente não o público. Este livro visa restituir ao ícone da moda a humanidade que a fama lhe roubou. Acredito que o homem é mais interessante do que a máscara que lhe foi imposta. Por trás da sigla YSL, está Yves, um menino que sorria desesperadamente para uma mãe incapaz de amá-lo, antes de se tornar um adolescente atormentado por seus desejos homossexuais. De seu sofrimento, ele criou algo fantástico, mas, no fundo, permaneceu aquela criança inconsolável, não apreciada pela única mulher em sua vida.C: Que segredo, oculto por trás das nuances de um ícone da moda como Yves Saint Laurent, te inspirou a escrever “O Príncipe da Babilônia”?M: Não existe família sem segredos. Não acredito que segredos se beneficiem ao serem enterrados. Pessoalmente, eu queria entender o mistério da nossa família disfuncional voltando às suas origens. Revelar é uma forma de curar algo que, às vezes, remonta a várias gerações.C: Neste livro, através de algumas de suas memórias, você conta a história do seu tio, Yves Saint Laurent. Por que agora? O que mudou que a fez sentir a necessidade urgente de contar a história dele de uma forma tão crua? Você a considera crua? M: Na verdade, ela é bem suavizada... Acima de tudo, há a violência da história que se volta contra aqueles que a sofrem, neste caso, a colonização francesa na Argélia. Yves e nossa família sofreram os danos colaterais. Por que agora? Por que não? Tudo começou com o incômodo, a sensação de ainda ser reduzida, anos após a morte dele, a personificar “a sobrinha de...” em certas circunstâncias superficiais para pessoas que pensam que estão me homenageando, quando na verdade é uma história familiar trágica da qual todos os membros sofreram. Então, tentei escrever a verdadeira história de uma família sufocada pelas aparências.C: Este não é o primeiro romance em que você revela histórias familiares. O que te motiva a contar essas histórias? Você já teve problemas com algum familiar por causa dos seus livros? M: Há muito tempo me interesso por psicogenealogia. Cada um de nós é produto de uma árvore genealógica, e seria sábio conhecer suas origens para nos libertarmos dela e vivermos NOSSA PRÓPRIA vida, não apenas aquela que herdamos. Há uma citação de Carl Gustav Jung: “Tudo o que não é trazido à consciência retorna na forma de destino”. Pessoalmente, tentei escapar desse efeito bumerangue através da escrita. Tornei-me o explorador da família! E não tive nenhum problema com minha família; pelo contrário, os insights obtidos beneficiaram a todos.C: Ao usar o termo “príncipe” no título, você alude ao status social de Yves. Em contraste, ao longo do livro, você narra os momentos de solidão, turbulência, autodestruição e decadência desse ícone. Como você conseguiu equilibrar todos esses elementos?M: O status de príncipe nunca garantiu estabilidade psicológica. Na verdade, muitas vezes é o oposto. Reis são isolados em seus palácios, assim como Yves foi entregue à solidão em seu esplêndido apartamento parisiense na rue de Babylone, que se tornou o mausoléu onde ele se enterrou vivo em meio aos seus tesouros. Apesar de ser o Príncipe da Moda, isso não o impediu de se autodestruir, lenta mas seguramente. A autodestruição, seja qual for a forma que assuma, é sintoma de uma ferida profunda. Eu retraço a história dessa ferida original. A narrativa se estruturou naturalmente em torno dessa busca, mas não cronologicamente.C: Além de segredos de família, temas como a burguesia francesa, a influência da infância na personalidade e as relações humanas estão entre os outros temas presentes em suas obras. Como você desenvolveu esses temas ao longo do livro?M: É impossível retratar um ser humano sem tentar descrever o contexto histórico, social e econômico em que nasceu. Trata-se de ambientar a cena antes da chegada dos personagens. Um determinismo poderoso governa nossas trajetórias. Ter nascido antes da Segunda Guerra Mundial em uma colônia francesa deixou uma marca indelével em Yves e em seus ancestrais.C: Além dos temas, outro aspecto marcante do seu trabalho é o seu estilo de escrita. É uma mistura de realismo, refletido nos temas que você explora, com elementos narrativos mais literários, como a imersão do leitor no ambiente descrito. Como você desenvolveu esse estilo?M: Aconteceu naturalmente. Gosto de misturar aquilo que me apaixona: história, psicanálise, sociologia, filosofia... e poesia! Na verdade, não penso conscientemente em desenvolver um estilo. Há passagens imbuídas de lucidez porque se adequam à narrativa, outras mais líricas. Não me sinto limitada por nenhuma regra; escrever é, para mim, um espaço de liberdade.C: “O Príncipe da Babilônia” foi seu primeiro romance traduzido para o português. Como é ver uma obra publicada aqui pela primeira vez?M: Que alegria e orgulho! Amo este país há muito tempo; já o visitei diversas vezes e fiz muitos amigos. Coleciono obras de certos artistas brasileiros e admiro muito o cenário artístico e seu dinamismo. Posso passar horas diante de uma pintura de Antonio Obá. E também adoro o cinema brasileiro (sou fã incondicional de Fernando Meirelles)!