Almodóvar prova que é cineasta incontornável com retrospectiva em SP
3 Mar, 2026
Acontece com os cineastas considerados autorais. A cada lançamento de um de seus filmes, há um convite implícito para revisitarmos os anteriores, analisando de que maneira o todo é modificado pela nova demonstração de autoria. No caso do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, tivemos recentemente o lançamento de " O Quarto ao Lado ", que alguns críticos consideram sua obra-prima. Como esse filme extraordinário sobre o direito de abreviação da própria vida modifica nosso entendimento de suas obsessões? O espectador paulistano terá a oportunidade de descobrir ou rever a obra do diretor mais famoso da Espanha na Retrospectiva Pedro Almodóvar , que a Cinemateca Brasileira promove em parceria com a Embaixada da Espanha e o Instituto Cervantes. A seleção contempla 20 dos 23 longas do diretor. A única ausência sensível é a de " Mães Paralelas ", um belo e incompreendido melodrama filmado como um suspense político. " Julieta ", outro ausente, não faz muita falta, e a terceira ausência, " Amores Passageiros ", é provavelmente seu pior momento no cinema . A excelência cinematográfica de "O Quarto ao Lado", que poderá ser confirmada na sessão inaugural da retrospectiva, na tela externa, começou a ser burilada quando Almodóvar assumiu o melodrama, em " A Flor do Meu Segredo ", e principalmente em " Tudo Sobre Minha Mãe " e " Fale com Ela ", dois de seus melhores trabalhos. Nesses filmes, o lado melodramático convive muito bem com os excessos que o diretor já dosava com sabedoria, numa espécie de viagem maneirista que apela tanto à razão quanto ao coração. Pode ser chamada de maturidade a entrada no melodrama, mas alguns a entendem como um arrefecimento de sua verve mais provocadora, presente nos primeiros longas, sobretudo em " Maus Hábitos ", onde a herança de Luis Buñuel é notável. Havia uma vontade gratuita de provocar em obras iniciais como "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão", " Labirinto de Paixões " e " O que Eu Fiz para Merecer Isto? ", que mostram fagulhas do grande autor que nasceria no futuro e valem mais pela fúria dos anos de juventude. Esse lado provocador é constante em sua filmografia, e teve uma espécie de auge na dupla de ótimos filmes de meados dos anos 1980, " Matador " e " A Lei do Desejo ", nos quais as pulsões de sexo e morte se enquadram em suspenses tortuosos que devem algo ao cinema de Hitchcock. " Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos " é o resultado mais comercial da busca pelo diálogo com um público maior. Uma comédia que mostra a influência de Billy Wilder no cineasta madrilenho. Em seguida veio " Ata-me ", último de uma fase que pôs Almodóvar nos holofotes do cinema mundial, revelando Antonio Banderas e Victoria Abril a um público ainda maior. Um homem perturbado aprisiona uma atriz por quem se apaixonou perdidamente. Todo o cinema de Almodóvar, o pior e o melhor, está nesse filme. O balanço final é favorável pelo talento do diretor. Depois, a crise, com dois filmes bem controversos, tanto do ponto de vista artístico quanto pela polêmica —" De Salto Alto " e " Kika ". Este último, principalmente pela cena de estupro, é o grande responsável por uma certa rejeição ao cineasta nos últimos anos. Era necessário corrigir a rota. E a correção viria com a abertura ao melodrama de " A Flor do Meu Segredo ", a partir do qual Almodóvar faz a curva que o faz perder alguns fãs da época mais subversiva e se tornar uma espécie de cineasta da cinefilia contemporânea, sem deixar de lado uma certa subversão domesticada. Os admiradores da primeira fase lhe dão as costas. O gosto médio havia acolhido o cineasta, com algum desconforto. Seja como for, a fase melodramática revelou um cineasta de primeira, com uma qualidade de encenação indiscutível que o público poderá conferir sobretudo em "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela". Todos os filmes de Almodóvar poderiam se chamar "A Lei do Desejo". Mas é em " Carne Trêmula " que o balanço entre suspense e erotismo volta a alcançar o patamar do filme de título matricial. Um policial, uma mulher violentada e um presidiário, numa trama que dialoga com o neo-noir americano dos anos 1980. Mas em matéria de suspense à Hitchcock, nenhum filme de Almodóvar supera o labiríntico " A Pele que Habito ", que também dialoga, tematicamente, com o clássico francês "Os Olhos sem Rosto", de Georges Franju. Mesmo com essas referências pesadas da história do cinema, "A Pele que Habito" não empalidece. A questão das operações plásticas é inserida num suspense levado com mãos de mestre. E o caldeirão referencial nele é mais forte. Almodóvar ama o cinema de Buñuel, que era amado por Hitchcock. Talvez este seja o filme que mais se aproxime de uma poética comum aos três cineastas. Boa parte dos personagens de Almodóvar estão envolvidos de algum modo com a criação artística. Escritores, atores, músicos, cineastas, até mesmo o cirurgião plástico de "A Pele que Habito" reivindica seu lugar entre os criadores. É justamente numa trilogia tortuosa que parece estar o centro da obsessão temática de Almodóvar. São três personagens que são ou se tornam cineastas em "A Lei do Desejo", o melhor dos três, " Má Educação ", o pior, e " Dor e Glória ", o mais maduro. Nesses três filmes pode estar a chave para o maior entendimento de todo o percurso do cineasta em mais de 50 anos. A chave para entender seus descaminhos e suas correções de rota estratégicas e perspicazes. Talvez sejam seus filmes mais pessoais e reveladores. Mais descolado do que dizer "fui à Cinemateca ver um Almodóvar" é acompanhar de perto a retrospectiva e perceber a evolução de um dos cineastas incontornáveis das últimas décadas.