Com preços exorbitantes, Semana de Moda vira destino ideal para bilionários

admin
3 Mar, 2026
Chega um momento durante a semana de moda, enquanto você observa uma multidão de fotógrafos lutando para capturar fotos de alguém muito magro usando um traje muito datado, ou assiste Priscilla Chan — ao lado de seu marido, o fundador da Meta Mark Zuckerberg — entrando no desfile da Prada usando o casaco de pelo de carneiro Prada de €11.500 (aproximadamente R$ 70,420 mil) que você fantasiou possuir se um dia se tornasse multimilionário de alguma forma fabulosamente ética, quando você se pergunta: para quem é tudo isso?A moda nunca esteve tão onipresente ou menos acessível. Ela se tornou tão penetrante quanto a música pop ao transmitir seus desfiles ao vivo e transformar a corrida para vestir celebridades em um esporte. Leia Mais 10 brasileiras que estão roubando a cena na temporada de moda internacional Maria Fernanda Cândido investe em look all white na Semana de Moda de Milão Filha de Musk desfila pela Gucci na Semana de Moda em Milão Ao adaptar sua produção para plataformas como TikTok e Instagram, cuja vice-presidente de moda, Eva Chen, é de certa forma tão poderosa quanto Anna Wintour na Vogue, a indústria cultivou múltiplas gerações de conhecedores de moda ansiosos para opinar sobre cada movimento das marcas. O desfile brega-ou-brilhante da Gucci, por exemplo, gerou dias de debate.Ao mesmo tempo, os preços dispararam: uma bolsa Chanel passou de $5.800 (R$ 30,600 mil) em 2019 para $10.800 (R$ 57,125 mil) em 2024. A coleção Primavera 2025 da Versace, que foi abraçada como uma alternativa bem-vinda à dominação do luxo discreto, inclui vestidos com preços de dezenas de milhares de dólares.Os produtos que todos esses esforços de marketing digital supostamente promovem são inacessíveis para a maioria das pessoas que falam sobre eles. A ideia é que a Geração Z que compartilha opiniões sobre moda comprará um perfume ou rímel do estilista. Mas os jovens de hoje são espertos demais para se contentar com produtos tão obviamente comerciais.Isso lançou uma sensação de inquietação sobre esta temporada de desfiles: o que estamos analisando, e por quê? Propostas uniformes para o um por cento que pode se importar pouco com as nuances da filosofia das passarelas, ou cultura pop para ser dissecada através do discurso das redes sociais por comunidades com pouco interesse no sucesso mercadológico de uma marca?Essas indagações entraram em foco no desfile da Prada na quinta-feira (24) quando Zuckerberg e Chan entraram no evento, uma aparição provavelmente ligada aos rumores de que a Meta colaborará com a Prada em uma oferta de óculos inteligentes.A coleção em si foi um manifesto feminino clássico da Prada: apenas 15 modelos desfilaram na passarela quatro vezes cada uma para um total de 60 looks, cada uma misturando e combinando seus conjuntos anteriores com algumas peças adicionadas ou removidas.Foi uma declaração sobre a velocidade da mulher moderna – a forma como as mulheres atravessam tanto as minúcias de seus dias quanto o curso da história, mudando e se reinventando com apenas algumas ferramentas como bloomers e saias de miçangas kitsch; botas extravagantes de plumas e meias brilhantes. Quando tantas conversas sobre a feminilidade hoje se concentram em passar lentamente produtos no rosto e picar o corpo para prolongar a juventude ou parar o tempo completamente, foi uma tese de passarela travessa, mas mordaz.Mas para muitos, Zuckerberg e Chan foram uma distração perturbadora: o que esses bilionários estão fazendo no evento bianual de moda de luxo? A verdade é que os bilionários têm mais dinheiro do que jamais tiveram antes – segundo a Forbes, o patrimônio líquido de Zuckerberg saltou de $72 bilhões (R$ 380,2 bilhões) para $177 bilhões (R$ 934,7 bilhões) no tempo que levou para aquela bolsa Chanel quase dobrar de preço. View this post on InstagramEm um certo ponto, você realmente precisa procurar outras coisas para gastar dinheiro, como Jeff Bezos e Lauren Sanchez Bezos, frequentadores assíduos da primeira fila das semanas de alta costura, nos mostraram no início deste ano. Gostemos ou não, a moda está se tornando o novo playground dos tecnocratas americanos, que são tão suscetíveis aos encantos da Prada quanto qualquer outra pessoa.Miuccia Prada, ela própria uma bilionária, não tem ilusões de que a passarela seja um espaço para manifestações políticas. “Tento fazer tudo político, exceto o político óbvio, porque eu seria criticada – uma estilista rica não pode fazer política porque não é certo. Estamos desenhando para pessoas ricas. Estamos falando sobre roupas caras, vestindo pessoas ricas. Vocês precisam estar cientes disso”, afirmou ela nos bastidores.Talvez a tensão entre as grandes ideias da moda e seus consumidores, às vezes alheios, seja o que a torna tão fascinante – não um problema a ser resolvido, mas uma contradição a ser abraçada.O estilista que conhece isso melhor do que ninguém é Glenn Martens, de 42 anos, que comanda criativamente a Diesel e a Maison Margiela. “A moda se globalizou muito mais, especialmente com as redes sociais”, declarou ele.“Todo mundo pode se tornar um crítico. Todo mundo tem algo a dizer. Então está bastante democratizado, de uma forma boa”, disse ele alguns minutos antes de um desfile da Diesel repleto de peças tumultuadamente distorcidas e tricôs de vovó recortados e remixados.Mas isso tem seu lado negativo: “Eu sei muito bem que com a moda, talvez as pessoas que não têm o background ou os anos de estudo de Yamamoto ou qualquer outro, elas não se importarão muito, porque, na verdade, só querem sucessos instantâneos.”Isso não chega exatamente a tirar seu sono: “Para a Diesel, na verdade, eu abraço isso, porque é uma marca lifestyle em sua essência. Esta é realmente uma marca para as pessoas. Parte do nosso trabalho é sempre trazê-las para o barco”, completou.Deslie da marca Diesel na Semana de Moda de Milão 2026 • Insatgram/DieselAlguns designers encontram sucesso ignorando completamente as redes sociais. O desfile de estreia da designer Maria Grazia Chiuri na Fendi olhou diretamente nos olhos dos clientes e disse: “Abra sua carteira”.Seus nove anos como diretora de moda feminina da Dior nunca foram um sucesso com os críticos, e se tornaram um saco de pancadas nas mídias sociais. Sua coleção de ideias suavemente remixadas de seus anos anteriores – ternos medianos, vestidos de renda preta bonitos mas pouco impressionantes – mostrou que ela sabe exatamente o que precisa dizer com um desfile de moda: bolsas da Fendi, especialmente a famosa Baguette, nunca pareceram tão incrivelmente atraentes.Realizar um desfile de passarela espetacular com a intenção de vender acessórios é uma ideia antiquada e nem todo diretor criativo está destinado a isso. Para marcas de médio porte como Jil Sander ou Marni, as roupas são o foco, e os designers de ambas as marcas – Simone Bellotti e Meryll Rogge, respectivamente – estão interessados em vestir um cliente real, com pouca consideração por deslumbrar as redes sociais ou criar acessórios que influenciam tendências.Falando nos bastidores após seu desfile, Bellotti questionou se as ideias de suas roupas estavam claras para as pessoas que apenas olhavam online, mas radicalmente, em nossos tempos que nem William Gibson poderia ter escrito, isso não importa muito.Ele começou com a pergunta: “Algo supérfluo pode se tornar essencial?”. Ao mesmo tempo em que está criando peças, como um casaco de corte preciso com uma suave aba de tecido descendo pela coluna, um vestido em azul Yves Klein mesclado com uma fenda alta presa duas vezes ao longo da perna, e ternos justos mas não skinny, que você vê pessoalmente, compra e passa os próximos dez anos sentindo-se encantado em usar.Rogge, em sua estreia pela Marni, a marca italiana conhecida por sua elegância excêntrica, teve uma abordagem similar: roupas criativas para mulheres e homens que querem parecer adultos. “Nós realmente olhamos para o final dos anos 90 e início dos anos 2000, mas não de uma forma Y2K. Tipo Winona Ryder”.A julgar pelas cadeiras da Bottega Veneta de Louse Trotter, esta é uma marca que sabe exatamente com quem está falando. Projetadas pelo excêntrico designer de móveis Max Lamb, as cadeiras monasticamente estreitas e profundamente desconfortáveis são o tipo de peças que preenchem coberturas e palácios ao redor do mundo. Elas complementaram bem as roupas: peças externas e alfaiataria Brobdingnagianas, sobrecarregadas com acabamentos intrecciato e couros plissados, o que resultou em um desfile de peças tipo tapete de banho com chapéus combinando.Havia de fato algo encantador sobre esses looks explosivos tipo Muppet, mas será que a mulher que pode pagar pela Bottega Veneta realmente fica se jogando em Art Basel, jantares e reuniões de negócios com roupas tão enormes? Ela sabe que aquela cadeira chique e desconfortável é apenas para se exibir – quando está em casa, ela fica relaxando no sofá.A Semana de Moda de Milão encerrou com Armani, agora sem seu fundador falecido e sob os cuidados da sobrinha de Giorgio Armani, Silvana Armani. O conservadorismo burguês da marca está mais óbvio do que estava na época sob o diretor criativo original, mas isso não importa, porque são roupas neutras práticas, com toques deslumbrantes como um casaco peludo listrado em bordô e cinza sobre calças acolchoadas cor de vinho e uma jaqueta com contas, que fazem todos, do multimilionário inseguro ao estudante universitário comprando calças Armani do TheRealReal por $110 (R$ 580), sentirem como se possuíssem um jato particular.Valentino: o que muda na grife de luxo após a morte do fundador