Formar para transformar
4 Mar, 2026
O Dia Internacional da Mulher não pode ser apenas um marco simbólico. Ele impõe reflexão concreta sobre as estruturas que ainda reproduzem desigualdades. A Constituição brasileira consagra a igualdade de gênero como fundamento do Estado Democrático de Direito. No entanto, a distância entre norma e realidade segue evidente: violência doméstica persistente, disparidade salarial, sub-representação em espaços de poder e obstáculos no acesso à Justiça demonstram que a igualdade formal não basta. Nesse cenário, o ensino jurídico ocupa posição estratégica. Não se trata apenas de formar operadores do Direito tecnicamente preparados, mas de formar profissionais conscientes das assimetrias históricas que atravessam a sociedade. A sala de aula é espaço de construção de cultura institucional. É ali que se aprende – ou se ignora – a importância da perspectiva de gênero na interpretação das leis, na atuação ministerial, na magistratura e na advocacia. Incorporar essa perspectiva ao currículo não significa militância ideológica, mas compromisso constitucional. Significa estudar criticamente a aplicação da Lei Maria da Penha, compreender os impactos diferenciados de decisões judiciais sobre mulheres e reconhecer como padrões culturais influenciam práticas institucionais. Significa, ainda, promover ambientes acadêmicos inclusivos, com igualdade de oportunidades e estímulo à liderança feminina. A transformação estrutural exige formação qualificada. O Ministério Público, as universidades e as escolas jurídicas têm responsabilidade compartilhada na consolidação de uma cultura jurídica comprometida com a efetividade dos direitos fundamentais. Formar para transformar implica preparar profissionais capazes de identificar desigualdades, enfrentar discriminações e propor soluções institucionais consistentes. A igualdade de gênero não se alcança apenas com boas leis. Constrói-se com educação, consciência crítica e responsabilidade institucional. O ensino jurídico, quando alinhado a esse propósito, deixa de ser mera transmissão de conteúdo e torna-se instrumento efetivo de transformação social.