‘Wimbledon do skate?’: São Paulo acompanha ritmo da modalidade e abocanha grandes eventos
4 Mar, 2026
Na mesma cidade em que o skate foi proibido em 1988, pelo então prefeito Jânio Quadros, o atual chefe municipal Ricardo Nunes (MDB) anuncia com orgulho a abertura do Mundial da modalidade, durante cerimônia na Prefeitura de São Paulo. No palco, a companhia de skatistas renomados como Letícia Bufoni, Pâmela Rosa, Pedro Barros e o japonês Yuto Horigome, além do presidente da World Skate (WS), o italiano Sabatino Aracu.“Que, no futuro, São Paulo seja para o skate o que Wimbledon é para o tênis. Que, ao falar de skate, digamos ‘São Paulo’”, disse o dirigente da entidade que regula as competições de skate no âmbito olímpico, durante coletiva de imprensa, em referência ao mais prestigioso torneio de tênis do mundo. A capital paulista, onde existem 170 pistas públicas, tem uma relação muito estreita com a modalidade e acompanhou o crescimento iniciado após a inclusão no programa olímpico. Eventos e grandes skatistas, de astros absolutos como Tony Hawk a nomes nichados do peso de Mike Vallely, desembarcam na metrópole desde a década de 1980. Skatista Luigi Cini treina no Parque Candido Portinari, sede do Mundial de Skate.Recentemente, contudo, mais dinheiro passou a girar no mundo do skate, e São Paulo soube unir a tradição das ruas aos negócios para atrair grandes eventos. Nos últimos três anos, a etapa derradeira da Street League Skateboarding (SLS) foi disputada no Ginásio do Ibirapuera - e todas terminaram com Rayssa Leal campeã.A partir desta quarta-feira, o Parque Cândido Portinari recebe, de forma simultânea, os Mundiais de Park e Street, as duas categorias olímpicas do skate, valendo pontos para o classificatório à Olimpíada de Los Angeles-2028. A última vez que o Mundial foi disputado em São Paulo foi em 2019.“O Brasil tem assumido um grande protagonismo no skate feminino e masculino, seja no Park ou Street, o que influencia as organizações a olharem mais para o Brasil e entenderem como o esporte tem crescido”, diz Letícia Bufoni, chefe da comissão técnica da WS. “Também não tem como não citar a energia que a torcida brasileira traz nos eventos, digamos que são bem calorosos e isso diz muito sobre o skate.”A cena da modalidade é forte em outros estados, por isso a capital paulista chega a dividir protagonismo com Rio, Florianópolis e Curitiba, mas ainda tem a preferência dos grandes eventos. “São Paulo acaba sendo mais esse polo por ter mais estrutura e histórico de receber eventos mundiais de diversos esportes. Mas isso não quer dizer que as demais cidades não tenham sua influência ou teriam um menor impacto”, avalia Bufoni.Cerimônia na Prefeitura reuniu o prefeito Ricardo Nunes e skatistas como Letícia Bufoni, Pâmela Rosa, Pedro Barros e Yuto Horigome.Os skatistas estrangeiros que vêm competir em São Paulo sentem a ligação entre a cidade e a cultura do skateboard. “O skate aqui me dá a sensação de carregar mais paixão, é mais criativo, como se fosse para minha alma. Eu amo ver os brasileiros andando de skate”, comenta o bicampeão olímpico Yuto Horigome ao Estadão. Para Yuto, as ruas paulistanas - e brasileiras de forma geral - trazem mais liberdade do que as ruas de Tóquio, outra metrópole onde o skate se tornou muito praticado e que tem uma cena consolidada. “No Japão, é mais difícil andar de skate na rua, vão te expulsar mais dos lugares. Você só consegue andar em pistas. São culturas diferentes, mas ambas são legais.”A capital paulista é um centro de muita tradição para o street, categoria em que os skatistas usam elementos urbanos como obstáculos. Da Marquise do Ibirapuera frequentada nos anos 1980 pelos pioneiros Ibiraboys, passando pela Praça Roosevelt e o Vale do Anhangabaú, a cidade é cheia de pontos considerados icônicos no universo do skate.Rayssa Leal foi tricampeã da SLS no Ginásio do Ibirapuera. São Paulo preserva identidade do skateO Mundial de Skate seria disputado em Washington, nos Estados Unidos, em setembro do ano passado, mas foi cancelado. Após o imprevisto, São Paulo surgiu como opção. A Confederação Brasileira de Skate (CBSk) e a Skate Total Urbe (STU), liga brasileira de que tem a pretensão de se globalizar, assumiram as rédeas da organização junto da World Skate.“Neste ano, a gente teve um anúncio de calendário, então foi um alívio, uma evolução. Eu tenho que falar bastante com o pessoal da World Skate sobre essa necessidade”, comenta Eduardo Dias, presidente da CBSk. “Eu acho que, a partir desse momento, pode ser que o ano que vem a gente tenha mais antecedência ainda, porque é o fundamental para a gente, até como entidade, e para os atletas poderem se organizar. É muito caro esse evento. Quanto mais em cima da hora, mais caro fica.”Situações parecidas já aconteceram anteriormente. A edição do Mundial de 2022, que seria disputado no Rio, foi cancelada por causa de desacordos entre a WS e a STU, e remarcada para 2023, em Sharjah, nos Emirados Árabes, local de pouca identificação com o skate.Ao longo dos primeiros anos de administração do skate olímpico, a WS, originalmente uma entidade focada em esportes sobre patins, desagradou amplamente a comunidade dos skatistas, que não se viam representados. Hoje, com nomes como Bufoni entre os dirigentes, esse distanciamento diminuiu. R2 Skatepark, no Bom Retiro, tem grafite da skatista Letícia Bufoni.“Ainda não chegamos ao cenário ideal, mas entendemos que é um processo contínuo de construção. Contribuir ativamente na construção de formatos de competição e critérios de julgamento que realmente dialoguem com a essência, a cultura e a fluidez do skate. De toda forma, já é possível perceber uma evolução significativa na relação e tem sido algo muito importante para mim poder contribuir com essa evolução do skate como um todo”, comenta a paulistana de 32 anos.Ter o Mundial em São Paulo confere à corrida olímpica um pouco dessa essência tão cara aos skatistas. Foram muitos os desencontros desde que o esporte de rua foi inserido no universo da Olimpíada, mas adaptações foram realizadas e o formato atual agrada mais pessoas.“É muito positivo a gente poder fazer parte e trazer de volta uma etapa em colaboração com a World Skate, após 2019′′, comenta Dias. “Ainda mais como foi a última, toda aquela situação de cancelamento. Estar resgatando essa parceria com a World Skate, aproximando São Paulo, trazendo de volta para São Paulo, para nós não podia ter uma notícia melhor.”Time São Paulo nos X GamesSão Paulo também está inclusa em outro movimento que envolve gigantes do entretenimento e do skate. Os X Games, conhecidos como Olimpíadas dos esportes radicais, estão organizando uma nova liga, na qual os atletas representarão clubes de quatro cidades. A capital paulista é uma delas, ao lado de Tóquio, Los Angeles e Nova York. Lenda do skate mundial e vencedor de 30 medalhas do evento, Bob Burnquist será o gerente do X Games Club São Paulo. A responsabilidade dele é montar um time que represente a cidade, porém não necessariamente com skatistas paulistanos, sequer brasileiros. Isso será feito a partir de um draft, sistema de seleção de novos atletas comum aos esportes americanos como basquete e futebol americano.“São Paulo me moldou como skatista. Então, acho que você espera pelo menos a personalidade que a região exige, mas as pessoas podem vir de todo o mundo. é uma identidade, é um momento de fundamento. São os X Games, um evento gigante... escolheram São Paulo e eu sei que fiz parte disso”, disse Bob.Veja a programação do Mundial de Skate em São Paulo:QUARTA-FEIRA (04/03)8h30 às 20h45 – Eliminatórias Park masculino10h às 15h20 – Eliminatórias Street feminino12h30 às 13h15 – Treinos oficiais pré-classificados Park masculino13h20 às 14h05 – Treinos oficiais pré-classificados Park feminino15h25 às 16h10 – Treinos oficiais pré-classificados Street feminino16h15 às 17h – Treinos oficiais pré-classificados Street masculinQUINTA-FEIRA (05/03)8h30 às 18h50 – Eliminatórias Street masculino9h30 às 17h30 – Eliminatórias Park feminino11h50 às 12h35 – Treinos oficiais pré-classificados Street feminino12h40 às 13h25 – Treinos oficiais pré-classificados Street masculino17h40 às 18h25 – Treinos oficiais pré-classificados Park masculino18h30 às 19h15 – Treinos oficiais pré-classificados Park femininoSEXTA-FEIRA (06/03)9h às 13h35 – Quartas de final Street feminino9h às 14h35 – Quartas de final Park masculino13h40 às 14h25 – Treinos oficiais Paraskate Street14h40 às 15h25 – Treinos oficiais Paraskate Park14h40 às 19h15 – Quartas de final Street masculino15h30 às 21h05 – Quartas de final Park femininoSÁBADO (07/03)9h às 10h05 – Treinos oficiais Street feminino9h às 10h05 – Treinos oficiais Park masculino10h10 às 11h15 – Treinos oficiais Park feminino10h10 às 11h15 – Treinos oficiais Street masculino11h35 às 13h30 – Semifinal Street feminino13h30 às 14h15 – Final Paraskate Park14h25 às 16h30 – Semifinal Street masculino16h50 às 18h55 – Semifinal Park masculino19h20 às 21h25 – Semifinal Park femininoDOMINGO (08/03)9h30 às 10h – Treinos oficiais Street feminino10h05 às 10h35 – Treinos oficiais Street masculino11h15 às 12h20 – Final Street feminino12h40 às 13h45 – Final Street masculino14h15 às 15h – Treinos oficiais Park masculino14h35 às 15h25 – Final Paraskate Street15h05 às 15h50 – Treinos oficiais Park feminino16h10 às 17h05 – Final Park masculino17h30 às 18h25 – Final Park feminino18h40 às 19h – Cerimônia de premiação