Piero Lissoni: arquitetura e design que resistem ao tempo
8 Mar, 2026
Piero Lissoni destacou o brasileiro Oscar Niemeyer como uma de suas referências estéticas da arquitetura brasileira. Crédito: Colagem de Thais Barroco sobre fotos de Veronica Gaido/DivulgaçãoEm um momento de inflexão, em que o design contemporâneo se orienta pela velocidade das imagens e pela lógica das redes sociais para encontrar seu espaço comercial, o italiano Piero Lissoni parece trabalhar em um tempo diferente — mas captar a essência que o momento pede.Ao longo de mais de quatro décadas, Lissoni assinou hotéis, residências, interiores e objetos que compartilham uma característica comum : rigor formal e atenção obsessiva ao detalhe. O trabalho, coroado com o prêmio Compasso d’Oro — considerado o Nobel do design industrial —, celebra também números importantes, com produtos vendidos em escala global por meio de redes de varejo de alto padrão.Nascido em Seregno, na região de Milão, em 1956, formou-se no Politecnico di Milano e, desde os anos 1980, dirige o estúdio Lissoni & Partners, hoje com escritórios em Milão e Nova York. Lissoni trabalha também em colaboração com marcas como Kartell, Boffi, Living Divani, Lema, B&B Italia e Alpi — referências globais em design e mobiliário de luxo.Sua trajetória atravessa arquitetura, design de produto, direção criativa de marcas e projetos culturais em diferentes países. Em viagem ao Brasil para o lançamento de um empreendimento com a Tegra, Piero encontrou a coluna para um café no icônico Edifício Copan, no centro de São Paulo, um “lugar feito por uma das minhas maiores referências brasileiras, Oscar Niemeyer”, confessa.Para Piero, o que orienta o processo criativo é o repertório cultural acumulado ao longo da vida. “A cultura, para mim, é o verdadeiro motor do nosso trabalho.”Essa relação com a cultura aparece também na forma como ele descreve as referências que orientam seu pensamento. Em vez de escolher entre tradição e modernidade, Lissoni prefere colocá-las em diálogo constante. Na sua visão, o trabalho do arquiteto nasce justamente da capacidade de reconhecer valor em objetos e ideias produzidos em épocas e contextos muito diferentes. “Podemos admirar um objeto produzido em Veneza no início do século XX e, ao mesmo tempo, um trono feito em Gana há duzentos anos.”A própria formação europeia ajuda a explicar esse olhar. Crescer em cidades atravessadas por séculos de história significa conviver naturalmente com diferentes camadas culturais, algo que acaba influenciando a maneira de pensar a arquitetura. Lissoni costuma descrever essa experiência como uma espécie de metáfora da vida intelectual no continente. “Quando você cresce na Europa, precisa aprender muitas línguas para sobreviver e se relacionar — espanhol, francês, alemão, inglês, italiano. Estou acostumado, como arquiteto e como pessoa, a viver em um mundo cheio de multiplicidades, que atravessa uma história muito antiga e chega até uma história muito moderna.”A arquitetura brasileira surge rapidamente na conversa, acompanhada de uma lista de nomes que, em sua visão, consolidaram uma tradição moderna singular. Para Lissoni, o país produziu uma linhagem arquitetônica que se tornou referência internacional. “Para um europeu, quando se pensa no Brasil vem imediatamente à mente uma história arquitetônica incrível: Oscar Niemeyer, Mendes da Rocha, Isay Weinfeld, Marcio Kogan. Há uma geração extraordinária de arquitetos que aparece de forma consistente na história. Isso, para mim, é cultura.”Se a cultura molda o pensamento, a tecnologia é o instrumento que permite transformar ideias em realidade. Lissoni insiste que a arquitetura contemporânea exige dominar essas duas dimensões simultaneamente. O repertório humanista fornece a visão; os recursos técnicos tornam possível concretizá-la. “Como italiano — e, de modo geral, como europeu — penso naturalmente em termos de humanismo. Mas o homem do século XXI também tem uma grande paixão pela tecnologia. A tecnologia é o que me permite realizar as ideias que imagino.”No estúdio, esse princípio se traduz em um processo que combina reflexão conceitual e precisão técnica. Para ele, pensamento e execução pertencem a campos diferentes, mas complementares. “O pensamento é humanista, mas a execução é científica. As máquinas permitem alcançar níveis de precisão que nenhum ser humano conseguiria replicar sozinho.”Essa presença crescente da tecnologia, no entanto, não significa aderir à lógica da velocidade que domina grande parte do design contemporâneo. Lissoni observa com cautela a produção de objetos pensados sobretudo para circular nas redes sociais. Em vez disso, prefere falar em permanência. “Quando desenho um produto ou um edifício, não penso em algo que seja apenas ‘instagramável’. Prefiro projetar coisas que possam durar no tempo — não porque eu as desenhei melhor, mas porque são bem construídas.”O cotidiano também desempenha um papel importante nesse processo criativo. Museus, livros e caminhadas pela cidade entram naturalmente no repertório que alimenta novos projetos. Lissoni gosta de lembrar que a arquitetura raramente nasce de um gesto isolado. “Eu não vivo sozinho. O estúdio em Milão é uma comunidade. Minha vida é muito pública. Quando desenho, nunca estou completamente sozinho.”A dimensão coletiva traz também um sentido ampliado de responsabilidade. Projetar edifícios e espaços urbanos significa lidar com impactos concretos na vida das pessoas. O arquiteto insiste que cada decisão tomada em um projeto afeta não apenas quem o desenha, mas também quem o constrói e quem irá habitá-lo. “Tenho responsabilidade com minha equipe, com as pessoas que vão viver nos lugares que projeto e com aqueles que constroem aquilo que desenho.”Quando a conversa se desloca para as grandes cidades contemporâneas, o tom se torna mais reflexivo. Metrópoles gigantes como São Paulo representam, na visão de Lissoni, um dos principais desafios da arquitetura atual. “As megalópoles serão, gostemos ou não, o futuro”, afirma, lembrando que a concentração populacional responde a dinâmicas econômicas e sociais difíceis de reverter.Diante desse cenário, imaginar cidades ideais parece menos útil do que trabalhar com as imperfeições existentes. Para ele, o papel da arquitetura é melhorar gradualmente o ambiente construído, mesmo sabendo que a cidade perfeita nunca existirá. “Não podemos contar um conto de fadas dizendo que todos viveremos em um mundo perfeito. O desafio é conseguir melhorar um mundo que é inevitavelmente imperfeito.”A reflexão termina com uma autocrítica pouco comum dentro da própria profissão. Lissoni reconhece que muitas das distorções urbanas das grandes cidades também nasceram de decisões arquitetônicas equivocadas. “Nós, arquitetos, também somos responsáveis por muitas das piores coisas que foram construídas nas cidades. Fizemos lugares feios e continuamos fazendo cidades feias. Existe um preço a pagar por isso — e precisamos melhorar.”