Quem é o chef premiado que pediu demissão após denúncias de agressões e humilhações
12 Mar, 2026
247 - O chef dinamarquês René Redzepi, um dos nomes mais influentes da gastronomia contemporânea, anunciou que deixará o comando do restaurante Noma após denúncias de agressões e humilhações contra funcionários. A decisão foi divulgada nesta quarta-feira (11), depois da repercussão de uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times, que reuniu relatos de ex-integrantes da equipe do restaurante. Segundo a reportagem, cerca de 35 ex-funcionários que trabalharam no Noma entre 2009 e 2017 relataram episódios de agressões físicas, constrangimentos públicos e jornadas de trabalho exaustivas dentro da cozinha do estabelecimento. Redzepi esteve à frente do restaurante por 23 anos e é considerado um dos principais responsáveis por transformar o Noma em um dos restaurantes mais premiados e respeitados do mundo. Fundado em Copenhague, o Noma acumula três estrelas do guia Michelin e se tornou referência internacional por sua abordagem inovadora da culinária nórdica, com uso de ingredientes locais, sazonais e frequentemente coletados diretamente na natureza. Após a divulgação das denúncias, Redzepi publicou uma nota em suas redes sociais na qual reconhece erros do passado e pede desculpas à equipe do restaurante. O chef afirmou que vem tentando mudar sua postura como líder ao longo dos anos, mas admitiu que isso não apaga o que ocorreu anteriormente.“Tenho trabalhado para ser um líder melhor e o Noma deu grandes passos para transformar sua cultura ao longo de muitos anos. Reconheço que essas mudanças não reparam o passado. Um pedido de desculpas não é suficiente; assumo a responsabilidade por minhas próprias ações”. No comunicado, o chef também confirmou que decidiu se afastar da liderança do restaurante após mais de duas décadas à frente do projeto.“Após mais de duas décadas construindo e liderando este restaurante, decidi me afastar e permitir que nossos líderes extraordinários guiem agora o restaurante em seu próximo capítulo”. Além da saída do Noma, Redzepi anunciou que também renunciou ao cargo de conselheiro da MAD, iniciativa global fundada por ele em 2011 para discutir desafios da indústria da hospitalidade. A reportagem que revelou as denúncias descreve um ambiente de trabalho marcado por tensão e disciplina rígida. Um dos ex-funcionários afirmou que episódios de agressão física eram recorrentes quando o chef perdia a paciência. “Ele batia, cutucava e empurrava funcionários por erros pequenos e às vezes chegava a socar alguém quando perdia a paciência”. Os relatos também apontam jornadas de trabalho extremamente longas, frequentemente ultrapassando 12 ou até 16 horas por dia durante períodos de maior movimento do restaurante. Outro ponto levantado pelos ex-trabalhadores diz respeito à presença de estagiários estrangeiros na equipe. Segundo os depoimentos, muitos deles realizavam tarefas intensas na cozinha sem receber remuneração adequada, o que levantou críticas sobre as práticas de trabalho no setor da alta gastronomia. A repercussão das denúncias provocou consequências imediatas para eventos ligados ao restaurante. Dois patrocinadores decidiram retirar o apoio a uma temporada de jantares especiais que o Noma realizaria em Los Angeles, nos Estados Unidos. A American Express e a startup de hospitalidade Blackbird anunciaram que deixaram de patrocinar a série de jantares temporários — conhecidos como “pop-ups” — que estavam programados para ocorrer na cidade. Os ingressos para os eventos custavam cerca de US$ 1,5 mil por pessoa e estavam completamente esgotados. As empresas informaram que os clientes serão reembolsados e que os valores arrecadados serão destinados a organizações que defendem os direitos de trabalhadores do setor de restaurantes. O fundador da Blackbird, Ben Leventhal, criticou duramente as práticas relatadas e afirmou que a empresa não poderia ignorar o episódio.“As práticas passadas de René, segundo ele próprio admitiu, eram inaceitáveis e abomináveis”. “Não podemos simplesmente nos apoiar no tempo decorrido e em alegações de reabilitação quando essas coisas ressurgem.”A plataforma de reservas Resy também informou que decidiu se afastar do patrocínio do evento e que pretende redirecionar os recursos para iniciativas que apoiem profissionais da indústria gastronômica na região. Em comunicado, a empresa afirmou que a prioridade é proteger os trabalhadores do setor e minimizar impactos para fornecedores e profissionais envolvidos no projeto. “Nossa prioridade é apoiar a comunidade gastronômica e não permitir que essa decisão prejudique as muitas pessoas que trabalharam arduamente para dar vida a este projeto, desde agricultores locais até fornecedores e outros profissionais envolvidos”. Apesar da saída do chef, Redzepi afirmou em sua declaração que o restaurante continuará operando e destacou a força da equipe atual do Noma.Para ele, o projeto gastronômico construído ao longo de mais de duas décadas vai além de uma liderança individual e continuará desenvolvendo novas ideias e experiências culinárias no futuro.