Guerra no Oriente Médio paralisa exportações, voos, fábricas e restaurantes na Índia

admin
13 Mar, 2026
O conflito de Estados Unidos e Israel com o Irã está paralisando fábricas, companhias aéreas e restaurantes da Índia, além de impedir a exportações do famoso arroz basmati. Interrupções do transporte marítimo e aumento do valor do petróleo estão entre as principais consequências da guerra, com as quais os negociantes indianos precisam lidar. O conflito, que já dura 13 dias, praticamente paralisou a navegação pelo crucial Estreito de Ormuz, elevando os custos de transporte. A Índia está entre os países asiáticos mais vulneráveis caso o conflito e o bloqueio marítimo se prolonguem. Cerca de 50% de suas importações de petróleo bruto transitam pelo estreito e, em 2025, 89% do fornecimento de gás liquefeito de petróleo (GLP) do país passou por essa importante via navegável, segundo dados da Kpler. Na noite de segunda-feira, a Índia decretou medidas de emergência para garantir que residências e veículos, que frequentemente utilizam gás natural comprimido no país, tenham prioridade no fornecimento de gás natural, de acordo com a disponibilidade. "O problema não é apenas o preço, agora é um problema de abastecimento", disse Madhavi Arora, economista-chefe da Emkay Global. A escassez de gás ameaça paralisar a indústria cerâmica da Índia em Gujarat, estado natal do primeiro-ministro Narendra Modi. Cerca de 90% da produção cerâmica indiana está concentrada na cidade de Morbi. Das aproximadamente 700 fábricas na cidade, cerca de 400 a 450 utilizam propano para alimentar os fornos de cerâmica. Dessas, até cem fábricas fecharam, disse Manoj Arvadiya, presidente da Associação de Cerâmica de Morbi. "Se o fornecimento de propano não for restabelecido em 10 dias, todas as nossas fábricas poderão fechar", acrescentou. A escassez de gás também levou ao fechamento temporário de restaurantes nas principais cidades e gerou alertas de associações hoteleiras. Cerca de 20% dos restaurantes e hotéis em Mumbai fecharam temporariamente, e cerca de 50% podem fechar em poucos dias se a crise no fornecimento de GLP persistir, afirmou Vijay Shetty, presidente da Associação Indiana de Hotéis e Restaurantes. "Em todo o estado de Maharashtra, há uma grave escassez", disse ele. Nas redes sociais, usuários comentam sobre a redução das opções nos cardápios, já que os restaurantes racionam combustível, diminuem o horário de funcionamento e utilizam fogões de indução. A Associação Nacional de Restaurantes da Índia estima que um único dia sem fornecimento de GLP custará ao setor até 13 bilhões de rúpias (US$ 141 milhões) por dia. Enquanto isso, os fabricantes têxteis foram afetados pelo aumento dos custos de frete e petróleo bruto. Para as exportações destinadas à Europa, os custos de frete aumentaram 40%, passando de cerca de US$ 2.200 a US$ 2.300 por contêiner para mais de US$ 3 mil, disse Ashwin Chandran, presidente da Confederação da Indústria Têxtil Indiana. Houve também um aumento de 30% nos preços do poliéster devido à forte alta do petróleo bruto, acrescentou ele. "O uso do poliéster foi severamente impactado porque, para contratos existentes de curto prazo, repassar o aumento de preço pode não ser possível", disse Chandran. Os preços do petróleo Brent oscilaram bastante nos últimos três dias, subindo para quase US$ 120 o barril na segunda-feira, caindo para cerca de US$ 83,50 na terça-feira e depois subindo novamente para cerca de US$ 100 na quinta-feira, enquanto o governo Trump e o Irã enviam mensagens contraditórias sobre o rumo do conflito. Os preços ainda estão mais de 66% acima do valor inicial do ano. Para indústrias como a de tintas e pneus, que utilizam derivados de petróleo, preços mais altos podem pressionar as margens de lucro, alertou a ICICI Research em um relatório recente. O conflito também está afetando os mercados de exportação. O Oriente Médio recebe cerca de 14% das exportações da Índia, de acordo com um relatório da agência de informações de investimento Icra. Essa dependência é muito maior do que a dos países do Sudeste Asiático, onde as exportações para o Oriente Médio representam cerca de 5% a 10% do total, afirmou Arora, da Emkay Global. Entre as maiores exportações indianas está o arroz basmati. A Índia envia 6 milhões de toneladas por ano, das quais cerca de 75% são destinadas aos países do Golfo, disse Satish Goel, presidente da Associação de Exportadores de Arroz de Toda a Índia. Cerca de 400 mil toneladas de arroz exportado estão retidas no mar ou acumuladas nos portos indianos, disse Goel, sendo que cada tonelada vale cerca de US$ 1 mil. Devido ao fechamento do espaço aéreo em decorrência dos conflitos no Irã e arredores, centenas de voos estão fazendo rotas mais longas, o que leva a aumentos nos custos de combustível, segundo a Icra. As companhias aéreas indianas cancelaram mais de 1.700 voos até 5 de março, cerca de 46% de seus voos internacionais, acrescentou o relatório. A Air India anunciou na terça-feira que irá impor sobretaxas de combustível em rotas domésticas e internacionais devido a um "aumento acentuado" no preço do querosene de aviação, acrescentando que, sem as taxas, alguns voos terão que ser cancelados, pois não conseguirão cobrir os custos operacionais. Os efeitos em cascata da guerra ocorrem em um momento delicado para os mercados indianos. Investidores estrangeiros foram vendedores líquidos de ações indianas no valor de mais de 830 bilhões de rúpias este ano, primeiro devido à incerteza em torno de um acordo comercial entre os Estados Unidos e a Índia e agora por causa do conflito no Oriente Médio.