Como a tecnologia da vacina de covid pode ajudar a recuperar corações enfartados
13 Mar, 2026
As vacinas eficientes contra a covid , como a da Pfizer e da Moderna, consistem em moléculas de mRNA encapsuladas que são injetadas no músculo de nosso braço. Esse mRNA modificado, assim que entra em uma célula muscular, produz uma proteína do vírus. Nosso sistema imune identifica a proteína e produz anticorpos. Quando o vírus nos invade, meses ou anos mais tarde, já temos anticorpos prontos para o combate. Estamos imunizados. PUBLICIDADE A novidade dessas vacinas é que a molécula injetada é um mRNA que é usado pelas nossas células para produzir a proteína do vírus. As vacinas antigas consistem em proteínas virais purificadas ou vírus inativos. Pois bem, agora um grupo de cientistas desenvolveu um mRNA modificado que, injetado no músculo, produz uma proteína que ajuda na recuperação de corações enfartados. Já funciona em camundongos e porcos, mas não foi testado em humanos. Assim, ainda estamos longe de ter esse medicamento nos hospitais. O enfarte do miocárdio ocorre quando as células do músculo cardíaco sofrem e depois morrem por falta de oxigênio. E a falta de oxigênio é causada por um bloqueio nas artérias coronárias que irrigam o músculo cardíaco. Esse bloqueio geralmente ocorre porque um trombo (um grumo de sangue coagulado) se forma na artéria, se solta, e obstrui o vaso sanguíneo. A gravidade depende de onde está o entupimento. Imagine um prédio. Se o cano da entrada de água for entupido, todo o prédio fica sem água. O estrago é grande. Mas, se o cano entupido for o que leva água para somente um chuveiro, o dano é pequeno. Publicidade Da mesma forma que a tubulação distribui água pelo prédio, as artérias coronárias e suas ramificações distribuem sangue (com oxigênio e alimentos) por todo o coração. E, como no caso do prédio, dependendo de onde for o entupimento pelo coágulo, a parte do coração afetada pode ser pequena ou grande. Se for enorme, é morte instantânea. Se for pequena, somente uma parte do coração é afetada e continuamos vivos. Afinal, um chuveiro bloqueado em todo o prédio incomoda, mas não é um problema enorme. Assim que as células morrem, outras células começam a se dividir. São células que vão dar origem a músculo cardíaco e células que formam uma espécie de cicatriz. E essa cicatriz atrapalha o bom funcionamento do coração. Quanto mais rapidamente a circulação for restabelecida, menor a cicatriz e menores as sequelas do enfarte. Já faz anos que foi descoberto que um hormônio produzido no coração, o fator natriurético atrial (FNA), se injetado no local do enfarte, ajuda na recuperação do tecido cardíaco e diminui a cicatriz. Mas ele tem que ser injetado rapidamente, o que funciona em animais de laboratório, mas é impossível de fazer em um pronto socorro. Imagine abrir o peito do enfartado. Foi para resolver essa dificuldade que os cientistas se inspiraram na vacina da covid. O que eles fizeram foi criar uma molécula de mRNA que se replica no interior das células musculares esqueléticas, aquelas que temos no ombro ou nos glúteos. Essa molécula de mRNA induz essas células a produzirem o precursor do fator natriurético atrial (FNA) do mesmo modo que o mRNA da vacina de covid induz a produção da proteína do vírus. Esse mRNA é encapsulado e pode ser injetado no animal como uma vacina. Assim que o mRNA entra na célula, ele se replica diversas vezes e o precursor do FNA é produzido, cai na circulação sanguínea chegando rapidamente no coração, onde é convertido no FNA maduro que age sobre as células cardíacas. Essa produção é transitória e dura até quatro semanas. Para testar se a ideia funciona, enfartes foram induzidos em camundongos e porcos. Metade desses animais foi injetada com o mRNA encapsulado e outra metade somente com o material da cápsula. Publicidade Quando a recuperação desses dois grupos de animais foi comparada, os tratados com o mRNA do FNA apresentaram um maior crescimento das células cardíacas e uma cicatriz menor, o que resultou em um coração com melhor desempenho. E os efeitos colaterais do tratamento foram mínimos. Mas, tudo isso foi feito em camundongos e porcos e agora vai ser testado em seres humanos. Se funcionar, os enfartados vão simplesmente receber uma injeção no braço quando forem atendidos e sua recuperação vai ser mais rápida e deixar menos sequelas. Não reverte nem evita, mas será um grande progresso. PUBLICIDADE Esse é um entre dezenas de tratamentos para as mais diversas doenças que estão sendo desenvolvidos a partir das descobertas que levaram ao desenvolvimento das vacinas de covid. Seus inventores merecem o Prêmio Nobel que receberam . Mais informações: Single intramuscular injection of self-amplifying RNA of Nppa to treat myocardial infarction. Science https://www.science.org/doi/10.1126/science.adu9394 2026 Uma revolução nos soros contra o veneno de cobras Exercícios e alimentação são menos importantes para a longevidade do que acreditávamos