Trump recuou de verdade? O que está por trás do movimento dos EUA

admin
24 Mar, 2026
Resumo O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a suspensão temporária de ataques ao Irã na manhã de hoje. Segundo o mandatário, ele estaria em negociações com o Irã. Oficialmente, o governo iraniano ainda não se pronunciou sobre o assunto confirmando ou negando qualquer acordo. O que aconteceu Anúncio de supostas negociações vem após "ultimato" de Trump. No sábado (21), ele disse que o Irã teria 48 horas para reabrir o Estreito de Ormuz, canal responsável pelo transporte de aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo. O presidente dos EUA ameaçou "atacar e destruir completamente" as usinas de energia iranianas, começando pela maior delas, caso a exigência não fosse cumprida. As mídias iranianas Fars e Irib News negaram a existência de negociações. Especialistas desconfiam de que de fato exista uma negociação. Fernando Brancoli, professor de Geopolítica da UFRJ, reitera que o prazo estipulado de cinco dias é "curto demais para a diplomacia séria e longo o suficiente para que algo mude no campo de batalha ou no cenário interno iraniano". Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Uerj, chama atenção para que o Irã não confirmou as supostas negociações. Há um detalhe que não pode ser ignorado: o Irã nega categoricamente que haja qualquer negociação em curso. O Ministério das Relações Exteriores iraniano foi direto, e Teerã classificou o anúncio de Trump como uma manobra para manipular os mercados de energia. A agência estatal Mehr foi ainda mais precisa ao dizer que a decisão foi resultado de pressões externas -- leia-se: mercados financeiros internacionais -- e não de qualquer avanço diplomático genuíno. Essa divergência de versões é ela mesma informativa. O que Trump está fazendo é administrar a percepção doméstica e internacional de que ele está "negociando", sem que o outro lado tenha se comprometido com absolutamente nada. Fernando Brancoli, professor de Geopolítica da UFRJ Considerando que, por enquanto, tudo o que temos é a declaração do próprio Trump sobre o assunto, talvez seja cedo dizer que há uma mudança de posição mais efetiva dos EUA, ou que estamos a caminho de uma possível cessação duradoura dos ataques. Além disso, não houve confirmação de negociações pelo lado iraniano. Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Uerj "Recuo" de Trump pode mesmo ter relação com o aumento dos preços, segundo especialistas. Os especialistas ouvidos pelo UOL concordam que a tentativa de amenizar o discurso sobre a guerra contra o Irã pode estar relacionada com uma busca de controlar preço do petróleo. Após as declarações de Trump nesta manhã, o preço caiu em 11%. Além disso, outros motivos também podem estar em jogo, como uma própria tática do Trump de dissuadir o Irã. Esse é um recuo porque os preços do petróleo estão subindo. O presidente Trump também teria percebido que o Irã tem capacidade de efetuar mais ataques. Ele poderia estar fazendo isso como uma forma de enganar o Irã e em seguida atacar, como ele já fez duas outras vezes. Com o Trump então imprevisível é difícil saber, e ele gosta de ser imprevisível pra justamente deixar os seus inimigos e oponentes sem saber direito o que ele vai efetivamente fazer. Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM O petróleo é o termômetro mais visível da crise, e a queda de mais de 11% no Brent hoje é um alívio que Trump vai querer apropriar politicamente. Mas o que está em jogo é a arquitetura inteira de uma situação que ele mesmo escalou no fim de fevereiro e que começou a sair do roteiro. O Estreito de Ormuz com tráfego de petroleiros caindo de cem passagens por semana para sete representa uma ruptura séria no sistema global de abastecimento -- e ruptura no abastecimento significa inflação, e inflação significa problema político para qualquer governo americano. Fernando Brancoli, professor de Geopolítica da UFRJ A mudança de tom talvez se relacione mais com os interesses dos próprios EUA em relação à contenção do aumento dos preços de petróleo e gás, a preocupação em garantir a reabertura do Estreito de Ormuz e as oscilações do mercado em relação a estes impactos econômicos. Trump busca, por um lado, passar uma mensagem de estabilidade e, por outro, de controle das variáveis, especialmente quando diz que a negociação foi procurada pelo próprio Irã e que o país estaria disposto a atender as demandas norte-americanas em relação ao programa nuclear. Na prática, porém, as ações e discursos da administração sobre a guerra permanecem bastante desencontradas e as dificuldades enfrentadas no campo militar não refletem essa narrativa de sucesso ou estabilidade. Também podemos pensar em uma reposta ao aumento da desaprovação da guerra pela opinião pública nos EUA. Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Uerj Mercados sentem a pressão do fechamento do Estreito de Hormuz. Os preços do combustível para navios subiram cerca de 90% desde o início do conflito, no dia 28 de fevereiro, segundo dados do observatório do setor Ship and Bunker. A Clarksons, empresa de transporte marítimo que também faz análises do mercado, indicou que o custo de transportar um barril de petróleo bruto duplicou para US$ 10 (cerca de R$ 52,80) desde o início do ano. Os aumentos atingiram um nível que não se via desde 2022, quando a Rússia lançou sua invasão à Ucrânia. Recuo de Trump também pode estar relacionado com segurança. Para Brancoli, o novo míssil de longo alcance do Irã globalizou o conflito, forçando os EUA a buscarem uma pausa estratégica para conter uma crise de segurança transcontinental. Há também um elemento que estava rastejando nas beiradas e que provavelmente concentrou a atenção de Washington: o Irã testou um míssil com alcance de quatro mil quilômetros, colocando Europa, Ásia e partes da África no raio de risco potencial. Isso muda o cálculo estratégico de forma significativa: o conflito deixa de ser um problema regional e passa a ser uma variável na equação de segurança europeia e asiática, com todas as implicações que isso tem para as relações de Trump com a OTAN e com parceiros do Indo-Pacífico. A pausa de cinco dias, nesse contexto, é sobre impedir que a situação escape completamente do controle americano antes que Washington consiga reposicionar suas peças. Fernando Brancoli, professor de Geopolítica da UFRJ Supostas negociações Trump disse que fez acordo com o Irã. "Tenho o prazer de informar que os Estados Unidos da América e o Irã tiveram, nos últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas a respeito de uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio", escreveu na rede social Truth Social. As mídias iranianas Fars e Irib News negaram as negociações citadas. Em publicações pelo X, as agências disseram ter consultado fontes, que teriam informado não haver nenhuma ligação direta ou indireta com Trump. EUA têm evitado ataques em Ormuz. Segundo o Washington Post, os ataques à infraestrutura energética iraniana poderiam ocasionar uma maior pressão nos mercados globais. Outro ponto citado pelo jornal é de que ataques às usinas de energia seriam uma violação às Convenções de Genebra, tratados internacionais que limitam as ações dos países diante de uma guerra. A ideia de que os Estados Unidos teriam uma vitória rápida sobre o Irã não se confirmou diante da resistência articulada pelo regime iraniano. A análise é de Vinícius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da FAAP e FGV, em entrevista ao UOL News - 2a edição, do Canal UOL na última segunda-feira. Analista diz que o país iraniano mantém sua capacidade de ataques e influência sobre grupos armados na região. "Irã parece ter capacidade para resistir por mais tempo do que o esperado. Isso que não quer dizer, claro, que o regime seja indestrutível. Mas não é um passeio como aparentemente Trump parece ter imaginado, inspirado na experiência da Venezuela", avalia. *Com informações da AFP Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.