O que a Polícia Civil descobriu até agora sobre o esquema dos camarotes no São Paulo e no MorumBis
24 Mar, 2026
O São Paulo enfrenta uma das crises institucionais mais graves de sua história. A revelação de esquema para a venda de camarotes e ingressos para shows no MorumBis, o impeachment de Júlio Casares da presidência e a abertura de investigações tomaram o noticiário tricolor. Os acusados citados nesta matéria negam participação em irregularidades. A numerosa quantidade de notícias sobre as suspeitas de corrupção, no entanto, faz com que o torcedor por vezes se perca na história. Por esse motivo, o Sport Insider reuniu documentos relacionados ao inquérito da Polícia Civil e explica quais são as descobertas feitas até o momento. Presidente Júlio Casares foi destituído por conselheiros e depois renunciou ao cargo no São Paulo. A origem do inquérito O caso se tornou público em 15 de dezembro de 2025, quando o ge publicou um áudio sobre o uso irregular de espaços VIP no MorumBis. Douglas Schwartzmann, então diretor de futebol de base do São Paulo, foi flagrado em conversa com Mara Casares, então diretora feminina e ex-mulher do presidente, e a intermediária Rita de Cássia Adriana Prado. No áudio, Schwartzmann diz que “todo mundo ganhou” com a comercialização do camarote 3A — Sala da Presidência — e outras áreas nobres durante eventos. A repercussão foi imediata e insustentável para a alta cúpula, resultando na renúncia do então presidente e ex-marido de Mara, Júlio Casares, além da abertura de um inquérito policial. Adriana Prado no MorumBis; intermediária falava em nome de Mara Casares e fechava contrato de patrocínios A prova encontrada pela polícia A Polícia Civil instaurou inquérito e deflagrou operação de busca e apreensão para colher evidências de todos os suspeitos de envolvimento no esquema. Na residência de Adriana, os investigadores apreenderam uma caderneta em espiral que se tornou peça fundamental para o caso. Segundo o Relatório Técnico de Análise de Dados e de Investigação, de 18 de março de 2026, os dados encontrados no caderno revelam que o esquema era profissional e habitual. A operação existia pelo menos desde o show do Coldplay, em março de 2023, até as apresentações da cantora Shakira, em 2025, no MorumBis. O Sport Insider teve acesso ao documento na íntegra. Nos manuscritos, havia uma “taxa de corrupção” fixa de 25% para cada integrante do esquema. Para a polícia, essa divisão confirma que Mara Casares, Douglas Schwartzmann, o então superintendente Marcio Carlomagno e a operadora Adriana dividiam equitativamente os lucros da exploração clandestina do patrimônio tricolor. Carlomagno ocupava um dos cargos administrativos mais altos e estratégicos do clube. Como superintendente geral, ele tinha o poder de supervisionar processos internos e operações de diversos departamentos. Apesar do peso dado pela Polícia Civil no relatório, as defesas de Mara Casares, Douglas Schwartzmann e Marcio Carlomagno rebatem veementemente a validade da caderneta como prova de crime. O principal argumento jurídico deles é que as anotações são unilaterais — ou seja, foram produzidas exclusivamente por Adriana, sem qualquer participação, assinatura ou ciência dos diretores citados. A defesa de Adriana informou ter tomado conhecimento do relatório por meio da imprensa, ressaltando que o caso tramita sob segredo de justiça. Mara Casares está licenciada da diretoria do São Paulo e pode ser punida no Conselho Deliberativo. De operadora a delatora A “sociedade” entre os envolvidos ruiu devido a um desacerto comercial e o sentimento de exclusão por parte de Adriana. O estopim foi a venda de ingressos para a cliente Carolina Cassemiro, no valor de R$ 132 mil. Adriana recebeu apenas R$ 70 mil, mas foi pressionada pelos diretores a repassar as cotas deles integralmente. Ao pagar os sócios e ficar sem o próprio lucro, Adriana se sentiu lesada. Além do prejuízo financeiro, pesou o fato de Adriana ter sido privada do uso de um veículo de luxo, cedido pela revendedora Osten. Ela se considerava a responsável por levar a concessionária para o clube e não aceitou não receber um dos carros, que eram destinados a membros da diretoria à época. Em sua caderneta, ela registrou a mágoa. “Vocês me colocaram para fora do SPFC”, escreveu Adriana. Temendo ser o “bode expiatório”, Adriana e seu marido, Cleiton, conhecido como “Ton”, passaram a negociar o acervo de provas com a oposição do clube. Os interlocutores foram o ex-conselheiro Denis Ormrod e o conselheiro vitalício Fabio Mariz. O relatório da Polícia Civil aponta que houve um “contrato” de R$ 400 mil para que Adriana entregasse um áudio de três horas com detalhes sobre o esquema. Em troca, ela buscava não apenas o dinheiro, mas uma “blindagem jurídica” e uma estratégia para retornar ao clube legalmente após a queda dos seus antigos sócios. O plano não deu certo, e Adriana virou o pivô da investigação policial, que deve ganhar desdobramentos com o depoimento de Mara Casares. Na última terça-feira (17), Mara compareceu à sua primeira oitiva marcada, mas adotou uma estratégia de silêncio. A defesa da diretora solicitou acesso integral aos novos pontos dos autos do inquérito para analisar as provas. Diante do pedido, o depoimento foi remarcado para o dia 31 de março, na 6a Delegacia do DPPC. Desdobramentos para a nova direção A crise também atingiu a atual gestão em fevereiro de 2026, quando surgiram denúncias envolvendo Christina Massis, filha do atual presidente Harry Massis Júnior, que era o vice de Casares. Ela foi acusada de participar de revendas irregulares de ingressos de shows. Em nota enviada à ESPN , Christina classificou as denúncias como ataques políticos. Ela ocupava o cargo de diretora adjunta das equipes de base do futebol feminino, do qual foi afastada temporariamente. “Historicamente, o São Paulo Futebol Clube foi marcado pela falta de transparência. A atual gestão é diferente e por isso tem sofrido tantos ataques, desde o início, com acusações infundadas. Tenho plena consciência da lisura da minha conduta e, no momento oportuno, prestarei os esclarecimentos necessários”, afirmou Christina. Ao Uol , o presidente Harry Massis disse ter recebido a notícia com “surpresa e indignação”. Ele defendeu que a Comissão de Ética do clube aprofunde as apurações contra a própria filha, e garantiu que não haverá privilégios por parentesco. “Não compactuo com a lamentável atitude dela e defendo que a comissão de ética do clube aprofunde as apurações sobre o caso”, disse ao site. A reportagem apurou que nenhuma sindicância interna para apurar o suposto envolvimento de Christina foi instaurada até o momento. A entrada do MP no caso Paralelamente, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) entrou no circuito para apurar as demais denúncias. O promotor Paulo Destro determinou que diversos dirigentes e conselheiros prestem esclarecimentos até o dia 3 de abril. Entre os notificados estão Harry Massis Júnior, Christina Massis, além de Olten Ayres de Abreu Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, e dos conselheiros Vinicius Pinotti e Fabio Mariz. Os conselheiros foram citados em reportagens recentes como receptores de informações que derrubaram a gestão de Júlio Casares. O Ministério Público apura se essa atuação foi estritamente para denunciar crime ou se houve o uso de métodos irregulares para obter e “leiloar” provas. O MP-SP agendou para o dia 30 de março a oitiva presencial do representante legal da Osten Group. O objetivo é esclarecer a natureza das parcerias comerciais citadas nos manuscritos de Adriana Prado, que indicavam a empresa como um canal de patrocínios que acessava o clube por meio dos camarotes.