PM citou divórcio em última mensagem a tenente-coronel horas antes de tiro
27 Mar, 2026
Resumo A soldado Gisele Alves Santana, 32, que morreu após ser atingida com um tiro na cabeça, enviou uma mensagem sobre divórcio ao marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, horas antes do disparo. Neto está preso e é réu pelo feminicídio de Gisele e fraude processual — crimes que ele nega ter praticado. O que aconteceu A última mensagem enviada por Gisele ao marido foi às 23h00min42s de 17 de fevereiro, horas antes de morrer. A soldado escreveu que Rosa Neto poderia entrar com um pedido de divórcio. Às 7h28 de 18 de fevereiro, a vizinha do apartamento em que o casal vivia disse ter ouvido um estampido. O primeiro telefonema do tenente-corenel ao socorro ocorreu 27 minutos depois. Confira as últimas mensagens enviadas por Gisele ao tenente-coronel: - 22h47min57s: Mas já que decidiu separar - 22h48min08s: Agora podemos tratar de como vou sair [do apartamento] - 22h59min15s: Vc (sic) confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão. - 23h00min29s: Vejo que se arrependeu do casamento, eu tbm [também], e tem todo direito de pedir o divórcio. Não quero nada seu, como te disse, eu me viro pra sair [da residência]. Tenho minha dignidade - 23h00min42s: Pode entrar com o pedido [de divórcio] essa semana Celular da vítima, da marca Xiaomi, foi manuseado e desbloqueado minutos após o disparo que atingiu a cabeça dela. Segundo o relatório da investigação, que consta no inquérito policial obtido pelo colunista do UOL Josmar Jozino, Rosa Neto teria apagado as mensagens do aparelho de Gisele. Para a Polícia Civil, o acusado "tentou ocultar provas que demonstrassem a vontade da vítima de se separar". Últimas conversas entre o casal foram apagadas "possivelmente" por Rosa Neto, segundo a polícia. No entanto, as autoridades conseguiram recuperar as mensagens através de procedimento técnico específico. Conteúdo do dia 17 de fevereiro aponta que o casal manteve trocas de mensagens sobre o assunto de separação. Não foi possível analisar as conversas no celular de Rosa Neto porque elas foram apagadas, ainda de acordo com o documento. A extração de dados do celular do tenente-coronel não revelou conversas entre o casal naquela data. A polícia apontou que isso demonstrou "mais, uma vez que o indiciado manuseou o celular da vítima, apagando as conversas para sustentar sua versão de que seria o responsável pelos pedidos de separação e não a vítima". Como mostrado pelo UOL, a soldado escreveu, em diversas mensagens, sobre o desejo de se separar. Cinco dias antes do crime, Rosa Neto enviou uma mensagem à companheira afirmando que ela "jamais" e "nunca" seria solteira. Outra mensagem recuperada pela Polícia Civil, de 13 de fevereiro, mostra que os pais de Gisele foram até o condomínio do casal buscá-la. A soldado, porém, deixou a filha — de um relacionamento anterior — ir com eles e disse que deixaria a residência no dia seguinte. No mesmo dia, Rosa Neto enviou uma mensagem à companheira afirmando: "a gente se ama". Para as autoridades, o texto indicava que ele não queria a separação. Inquérito traz outras mensagens que demonstraram a insatisfação e negativas do tenente-coronel quando a vítima tentava se separar dele. Ele "demonstrava sua completa insatisfação e desviava do assunto, dizendo que o casal se amava ou começava a mandar fotos em sequência de passeios que realizaram", escreveram as autoridades. Mais mensagens Em outra mensagem, Rosa Neto reclama que Gisele foi ao batalhão usando uma "calça jeans colada, parecendo uma [legging] de academia". Ela responde que não foi sua intenção e achou que ele gostaria de vê-la no local: "o único que quero chamar a atenção é você. Eu te amo. Obrigada pelo almoço." O tenente-coronel afirmou em outro texto que "não aguentava mais tanta falta de atenção e de carinho e desprezo". Ele acrescentou que a única preocupação e prioridade da policial era a filha dela, de 7 anos. "Isso é desculpa para as coisas que ando sabendo", respondeu a soldado. O homem cita "paranoia de Gisele" e fala que ela inventava coisas por ter peso na consciência por não dar atenção a ele. "Deixa de ser insegura", concluiu o homem. Não há informação sobre a data das trocas de mensagens. A reportagem tenta contato com a defesa de Rosa Neto. O texto será atualizado tão logo haja manifestação. Relembre o caso Gisele morreu após ser encontrada com um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido em São Paulo. Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, na região central da capital, mas a morte foi constatada às 12h04 do mesmo dia. Em depoimento, Rosa Neto afirmou que foi até o quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria se separar. O homem afirmou ter dito que "ainda a amava, mas entendia ser melhor a separação porque o relacionamento não estava funcionando". Depois disso, segundo ele, a esposa se levantou de forma "exaltada", o mandou sair do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado a toalha para tomar banho em seguida. Tenente-coronel declarou ter ouvido um barulho, que pensava ser uma porta batendo, cerca de um minuto após entrar no banho. Ao abrir a porta, teria visto Gisele no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo que é desembargador. Mãe da vítima disse à polícia que o relacionamento da filha com Rosa Neto era "extremamente conturbado". Ela afirmou que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta, que proibia a vítima de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrá-la rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas. O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado, mas o registro foi alterado pela Polícia Civil para "morte suspeita" após depoimento da mãe da vítima. A ocorrência foi investigada pelo 8o Distrito Policial (Brás) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Andamentos Corpo de Gisele foi exumado no dia 6 de março e passou por nova perícia e exames complementares. Laudo apontou que o corpo da soldado tinha "lesões contundentes" na face e na região cervical provocadas por pontas de dedos e escoriação compatível com a pressão de unhas. Em 9 de março, a Justiça de São Paulo encaminhou o caso para a Vara do Tribunal do Júri. Essa é a responsável por crimes contra a vida — como, por exemplo, homicídio, feminicídio e induzimento ao suicídio. Um dia depois, o Tribunal de Justiça de São Paulo decretou sigilo em todo o processo do caso. Uma denúncia anônima registrada em um IPM (Inquérito Polícia Militar) aponta que o tenente-coronel tinha "instabilidade emocional". Segundo o denunciante, Rosa Neto perseguia, intimidava e ameaçava a companheira recorrentemente. A Corregedoria da PM instaurou um IPM no dia 20 de fevereiro, dois dias após a morte da soldado, para apurar o caso. Rosa Neto foi preso em São José dos Campos (SP) no dia 18 de março. Desde então, está detido no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. Nesta semana, a Justiça de São Paulo negou o pedido liminar (medida provisória e urgente) para soltar o tenente-coronel. Defesa O advogado de Rosa Neto declarou estar "estarrecido" pela prisão preventiva (por tempo indeterminado) do cliente ter sido mantida nas justiças comum e militar. No dia 19 de março, Eugênio Malavasi ressaltou que o cliente colabora com as autoridades competentes desde o início das apurações. No dia 11 de março, o tenente-coronel negou ter matado a esposa e declarou ter a consciência tranquila. "As pessoas têm inventado coisas, estou sendo atacado impiedosamente por inverdades. Não tenho nada para inventar ou mentir, trabalho com a verdade", disse, em entrevista à Record TV. Em caso de violência, denuncie Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior. A ligação é gratuita. O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008. As denúncias também podem ser feitas pelo Disque 100, canal voltado a violações de direitos humanos. Há ainda o aplicativo Direitos Humanos Brasil e a página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). Caso esteja em situação de risco, a vítima pode solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.