O segredo da felicidade
27 Mar, 2026
O homem mais sábio que já conheci na vida foi um senhorzinho que me recomendaram em meio a uma crise profissional que também era espiritual, mental, intelectual e física. Ou seja, uma crise daquelas. Chamava-se Anderson Leonino. Ou pelo menos era o que dizia o cartão. ENTRE PARA A MINHA COMUNIDADE NO WHATSAPP! [https://sndflw.com/i/BGCLFclD6FuMggrDeeYS] Àquela altura da vida, não acreditava que era possível sair da crise. Até porque já tinha lido todos os livros do mundo, tanto os escritos pelos sábios quanto os pelos idiotas. (Aqueles que encravam. Dã). Já tinha me consultado com cem especialistas e dez mil generalistas. E nenhum deles tinha sido capaz de me salvar da areia movediça em que me encontrava – e afundava rápido. Cnidários Até que cheguei ao consultório do dr. Anderson Leonino. Pelo menos suponho que ele fosse doutor. Nunca me dei ao trabalho de descobrir. Era um consultório simples. Me lembro vagamente do quadro de uma árvore. Ou seria uma baleia? Talvez não fosse nem uma coisa nem outra e sim uma caravela: a embarcação, não o único organismo em colônia heteromorfa, no grupo dos cnidários. É, acho que era mesmo uma caravela. Só sei que ele abriu a porta e me estendeu a mão mole. Quase dei meia-volta e só não dei porque não tinha nenhuma sobrando. Ele me apontou uma poltrona, eu me sentei. Ao lado, havia um copo d’água e uma caixa de lenços. Considerei aquilo uma precaução exagerada. Praticamente uma ofensa. Eu não era tão desastrado assim. Vaca amarela Ficamos nos encarando em silêncio por alguns segundos. E ainda assim não me lembro direito da aparência dele. Acho que usava cavanhaque, mas só acho. E talvez fosse baixinho. Ou alto. Realmente não sei e, por mais que eu me esforce agora, não consigo lembrar. Por favor, não insista. Ali sentado e em silêncio, não tinha a menor ideia de como agir. Na hora me lembrei de uns filmes e me passou pela cabeça falar da mãe ou contar um sonho. Era o que se esperava de mim, não? Mas fazia tempo que eu não sonhava nem pesadelava. E minha mãe ter culpa de nada ou de tudo não fazia a menor diferença. Por isso fiquei brincando de vaca amarela. Até que ele disse: Walmor Chagas — Paulo, tenho uma coisa para te contar. (Ganhei!). — Conta! Conta! Conta! — disse, empolgado. Sou curioso. — Meu nome verdadeiro não é Anderson Leonino. Meu nome verdadeiro é Walmor Chagas das Chagas. Sim, em homenagem ao ator. E na verdade sou sagitariano. Num átimo, me lembrei dos cabelos de algodão bem branquinho do ator. E, querendo bancar o simpaticão, quase respondi que também era sagitariano. Olha só que coincidência! Em vez disso, porém, perguntei: — Como assim? Por quê? Para quê? Sorriso-eureka Mas eu mal tinha colocado o ponto embaixo da última interrogação e ele já tinha aberto o sorriso-eureka. — Ah, então você é desses que quer saber o “como”... — Como assim — achei melhor acrescentar. —... o porquê... — Isso, muito bem! Junto e com acento. Parabéns — interrompi. — ...e o para quê. — Sim. O tempo todo. — Pois aí está a causa e, por consequência, a cura para a sua crise. Agora pode me pagar. Ficou em seiscentos reais. Débito ou crédito? Nada a ver Atordoado, passei no débito quando era para ter passado no crédito. E, enquanto digitava a senha, entendi. Ao ver o brilho nos meus olhos, o dr. Anderson Leonino, na verdade Walmor Chagas das Chagas, sagitariano, achou por bem me explicar. — Pare de se perguntar como as coisas se dão de um certo modo. Elas simplesmente se dão assim. Querendo ou não. Pare de querer saber o porquê de tudo. Há porquês que não vale a pena saber. Sobre o paraquê, presuma sempre retidão de intenção. Mesmo que depois você perceba que foi enganado. Não era exatamente o que eu tinha entendido. Na verdade, eu tinha entendido uma outra coisa nada a ver. Tatuagem Mas aquilo ficou na minha cabeça e hoje está na minha pele, já que saí do consultório direito para o estúdio de tatuagem. E se neste momento você está se perguntando “como assim?”, “por quê?” e “para quê?” eu tatuei os ensinamentos do dr. WCC nas costas, pare AGORA MESMO. Eis o segredo da felicidade.