Sylvia Colombo

admin
28 Mar, 2026
Os movimentos recentes de Donald Trump na América Latina, especialmente o lançamento do chamado Escudo das Américas, obrigam a região a olhar com atenção redobrada para o calendário eleitoral deste ano. Mais do que disputas locais, as eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil podem se tornar o próximo campo de expansão de uma estratégia que combina segurança, alinhamento ideológico e influência política dos Estados Unidos. No Peru, há chances concretas de que Rafael López Aliaga chegue finalmente à Casa de Pizarro, em uma eleição fragmentada, com dezenas de candidatos e partidos frágeis. Seu discurso de endurecimento na segurança ganha força num país onde o avanço do crime organizado se tornou tema central do debate público. Na Colômbia, o cenário é mais complexo. Apesar das críticas internacionais, Gustavo Petro mantém níveis de aprovação relevantes, sustentados por indicadores econômicos e sociais relativamente estáveis. Isso torna menos evidente uma eventual aposta externa em nomes como o ultradireitista Abelardo de la Espriella. O favorito ao pleito, segundo as pesquisas, é justamente o candidato governista, o senador Iván Cepeda. No Brasil, o bolsonarismo segue como força política ativa. É nesse contexto que o Escudo das Américas ganha sentido. Recém-anunciado numa cúpula na Flórida que reuniu líderes alinhados à ultradireita, como o argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele e outros, o projeto foi apresentado como uma coalizão militar para combater cartéis e reforçar a segurança hemisférica. A expansão dessa aliança já começou por outras vias. Paralelamente à cúpula, os EUA promoveram a assinatura de um acordo anticartéis com ministros da Defesa de 17 países, ampliando o alcance da coalizão para além dos chefes de Estado que participaram do encontro na Flórida. No Caribe, aderiram países como Bahamas, República Dominicana, Jamaica e Trinidad e Tobago, em uma configuração que cerca diretamente Cuba. Na América Central, praticamente todos os países —com exceção da Nicarágua— se alinharam ao pacto. E, na América do Sul, firmaram o acordo Argentina, Bolívia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru. Mais do que uma aliança pontual, começa a se desenhar uma rede de cooperação militar com capilaridade regional, com potencial de incorporar, no curto prazo, os países que irão às urnas. Há ainda um movimento decisivo. Como apontado por análises da plataforma Connectas, os EUA vêm reconfigurando sua doutrina militar para a América Latina, ampliando o papel do Comando Sul e aproximando a formação de militares da região de uma lógica operacional integrada. O próprio Instituto do Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança —herdeiro da antiga Escola das Américas— vem conectando treinamento e atuação no terreno. Episódios recentes iluminam essa estratégia, como a pressão sobre Cuba, a captura de Nicolás Maduro, o respaldo a operações no Equador e a captura do narcotraficante "El Mencho" no México. São ações que combinam força, comunicação política e alinhamento com governos locais. Trump parece preparar o terreno para uma nova etapa de atuação no hemisfério. Nas próximas disputas eleitorais, não serão apenas as questões internas de cada país que estarão em jogo. O que se desenha é uma possível reorganização mais ampla do xadrez político da América Latina sob forte vigilância e comando dos EUA.