Como funcionam as minas navais que o Irã ameaça usar e por que elas podem travar o comércio global
29 Mar, 2026
Como funcionam as minas navais que o Irã ameaça usar e por que elas podem travar o comércio global O temor de que o Irã utilize minas navais no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz voltou a colocar a comunidade internacional em alerta diante de um cenário com potencial de bloqueio de uma das rotas mais estratégicas do comércio mundial de petróleo e mercadorias. A principal dúvida entre especialistas em segurança marítima é se Teerã teria capacidade de executar rapidamente essa ameaça e, sobretudo, quais seriam as consequências práticas de uma eventual minagem da região. Franck Alexandre, da RFI O estreito de Ormuz tem pouco mais de 200 quilômetros de extensão e, em alguns pontos, sua largura não ultrapassa 50 quilômetros. Essa configuração geográfica, somada à profundidade relativamente favorável à operação de minas, torna o local especialmente vulnerável a esse tipo de armamento. Segundo estimativas citadas por especialistas em desminagem naval, o arsenal iraniano poderia incluir entre 5.000 e 6.000 minas marítimas. De acordo com o contra-almirante francês Éric Lavault, ex-bombeiro de desminagem da Marinha francesa, a colocação dessas minas não exige meios tecnologicamente complexos. Ele explica que há diferentes tipos de minas, cada uma com características próprias e formas distintas de atuação. Três tipos de minas As chamadas minas de fundo ficam depositadas no leito marinho e são ativadas por influência, reagindo a alterações magnéticas ou acústicas provocadas pela passagem de embarcações. Há também as minas de amarração, conhecidas como minas de orin, que ficam presas ao fundo por cabos e permanecem flutuando em profundidade intermediária, podendo atingir cascos de navios que passam pela área. Um terceiro tipo, considerado particularmente sensível por especialistas por seu caráter furtivo, são as minas de contato fixadas diretamente nos cascos das embarcações, conhecidas como minas de aderência. Elas podem ser instaladas de forma discreta por meio de pequenas embarcações rápidas, sendo posicionadas durante a passagem de navios. Experiência iraniana com artefato Segundo Lavault, o Irã possui experiência histórica nesse tipo de operação e já demonstrou capacidade de adaptação tática. Durante o conflito entre Irã e Iraque, na década de 1980, o país teria convertido embarcações civis, como barcos de pesca e arrasto, em plataformas de lançamento de minas navais. O especialista afirma ainda que o fundo do estreito de Ormuz favorece esse tipo de estratégia, já que a profundidade varia entre cerca de 50 e menos de 100 metros, o que facilita a ocultação e o posicionamento de artefatos explosivos no leito marinho. Caso uma operação de minagem fosse realizada, o impacto imediato seria sentido nas rotas comerciais globais, especialmente no transporte de petróleo. O estreito de Ormuz é uma passagem obrigatória para uma parcela significativa do petróleo exportado pelo Golfo Pérsico, o que amplifica o efeito potencial de qualquer bloqueio. Como funcionam os navios caça-minas A retirada dessas minas, por sua vez, é considerada uma operação longa e tecnicamente complexa. Os chamados navios caça-minas são construídos com casco não magnético e assinatura acústica reduzida para evitar a detecção e a detonação dos artefatos. Esses navios operam com drones subaquáticos e mergulhadores especializados para identificar e neutralizar as minas. A estratégia inicial de desminagem, segundo especialistas, consiste na abertura de corredores seguros de navegação — verdadeiras "autoestradas marítimas" — que permitam a retomada parcial do tráfego de navios. Somente em uma segunda etapa seria feita a limpeza completa das áreas restantes. Guerra do Golfo Após a Guerra do Golfo de 1991, operações semelhantes levaram cerca de dois anos para declarar a região livre de minas, o que ilustra a complexidade e a duração desse tipo de intervenção. Apesar de avanços recentes no uso de drones navais para desminagem, esses sistemas ainda não estão plenamente operacionais em larga escala. Nesse contexto, países como França, Bélgica e Países Baixos continuam entre os principais atores especializados nesse tipo de operação. A França, inclusive, já sinalizou disposição para liderar uma eventual coalizão naval destinada a garantir a segurança do estreito de Ormuz, sob a condição de que não haja conflito ativo em curso. Para especialistas, esse conjunto de fatores faz com que a hipótese de minagem do estreito seja considerada um dos cenários mais críticos para a segurança do comércio marítimo internacional, justamente por sua capacidade de interrupção rápida e difícil reversão.