Sua profissão não é sua vocação

admin
29 Mar, 2026
As pessoas que confundem profissão com vocação estão errando feio. Na minha época, virou moda fazer “testes vocacionais” na adolescência que sugeriam cursos universitários a seguir, como se a vocação fosse uma simples adaptação ao mercado de trabalho. Acontece que as profissões mudam conforme o tempo; e não é raro que uma única pessoa passe por várias ao longo da vida. Eu mesma sou professora universitária, escrevo para o jornal, publico no Instagram, edito vídeos, enfim, já vivi muitas fases e exerci muitas profissões. Enquanto isso, a minha vocação permanece estável, porque ela é o chamado que ordena a personalidade inteira diante da realidade, independentemente da mudança de circunstâncias. Mas quando uma geração reduz a vocação à profissão, ela cria uma tensão desnecessária na alma. Os indivíduos começam a acreditar que cometeram um erro existencial ao escolher um curso universitário de que não gostaram ou que fracassaram por não trabalhar com seus hobbies, quando essa distância entre o trabalho e o máximo prazer sempre foi algo normal. Vou organizar essa confusão apresentando três razões pelas quais profissão não é vocação: 1) Nem todos vão conseguir trabalhar com o que “gostam” Especialmente no Brasil, um país ainda pobre, onde aquilo que é “belo” ou “elevado” dificilmente é bem remunerado. Lembro-me de um conhecido que desejava ser cantor gregoriano ou erudito. Ele tinha técnica e talento. Mas, como as igrejas locais não remuneravam o coral, ele decidiu trabalhar na empresa da família, onde era bem remunerado, mas vivia com a sensação de estar “traindo o próprio coração”. Até que surgiu a possibilidade de se mudar para o Canadá, onde o cantor da igreja recebia um salário bom e, finalmente, ele se sentiu profissionalmente realizado. Porém, começaram a surgir outros problemas: a dificuldade com o clima, o estranhamento cultural, a saudade da família... até que ele decidiu voltar ao Brasil. Se partíssemos daquela ideia de que profissão e vocação são a mesma coisa, seríamos obrigados a concluir que ele “abriu mão” da sua vocação ao retornar ao Brasil. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Ele reconheceu que certos valores — como a proximidade da família e a intimidade com a própria língua (“minha pátria é a língua portuguesa”) — tinham um peso muito maior do que simplesmente “ganhar dinheiro com o que gosta”. Paradoxalmente, no caso dele, a tentativa de fazer coincidir integralmente vocação e profissão empobreceria sua vida. Então pergunto: por que ele não poderia se dedicar ao canto erudito depois do trabalho? Desde quando o valor de uma atividade depende exclusivamente de sua rentabilidade? Ou, indo mais fundo: será que aquilo que muitos chamam de “crise profissional” não é, na verdade, uma crise pessoal? Uma série de insatisfações com outros aspectos da vida, que você transfere para a profissão, como, por exemplo, uma má relação com o pai na empresa da família... A maioria das pessoas, inclusive, nem sequer pode se dar ao luxo de dizer: “Ah, então vou morar em outro país para fazer o que eu gosto!” ou “Meu pai vai me sustentar enquanto faço o curso universitário que sempre sonhei!”. No Brasil, as pessoas estão trabalhando como caixa de supermercado, motorista de Uber, cursando Direito porque a família quis, aceitando o que aparece para pagar as contas no fim do mês. O trabalho, para a maior parte delas, é meio de sustento e também de servir ao outro. Dizer que essas pessoas estão “traindo a própria vocação” seria uma forma de elitismo espiritual. 2) Mesmo que trabalhe com o que você ama, uma hora você vai se aposentar Mesmo nos raros casos de quem conseguiu “trabalhar com o que gosta”, a identificação entre vocação e profissão pode trazer um problema tardio, que é o seguinte: chega um momento em que você deixa de trabalhar. A pessoa envelhece, se aposenta ou simplesmente percebe que o mercado já não tem mais lugar para você. E então? Se a vocação estivesse inteiramente contida na profissão, isso significaria que, a partir desse momento, estaria encerrada qualquer possibilidade de realização existencial. Esse tema aparece de forma recorrente na grande literatura e também no cinema clássico. Em “Sunset Boulevard”, por exemplo, vemos a figura de uma atriz cuja vida esteve inteiramente identificada com a arte e com o reconhecimento público, até que, ao envelhecer, não lhe resta mais nenhum papel. Afinal, poderia uma “velha” interpretar uma musa de William Shakespeare? “All About Eve” é uma variação do mesmo drama: a identificação absoluta com a profissão produz o medo de ser substituído. Na vida pessoal, entre amigos e na família, você é insubstituível; mas, no mercado de trabalho, sempre pode surgir “alguém melhor” ou mais novo para ocupar o seu lugar. 3) Pessoas podem exercer a mesma profissão por eixos vocacionais completamente diferentes Finalmente, se profissão é vocação, como explicar que pessoas com eixos vocacionais completamente diferentes possam exercer a mesma profissão? Tomemos a medicina como exemplo. Alguém pode ser médico porque está ligado ao eixo: A) Do corpo: gosta de estudar anatomia, viver a saúde como valor central. B) Do dinheiro: quer prosperar e vê na medicina um meio possível de crescimento econômico. C) Da comunidade: sente-se chamado a servir, cuidar, aliviar o sofrimento dos outros. D) Do conhecimento: ama pesquisar, descobrir novas curas e estudar o funcionamento do organismo humano. E) Da mística: como em certas tradições da medicina antiga grega ou da medicina oriental, nas quais curar envolve uma dimensão espiritual. Conclusão A leitura atenta dos clássicos, da Filosofia e da Psicologia, somada à minha experiência de vida, me fez entender que quando alguém diz que só poderia ser feliz exercendo uma profissão específica, o que está em jogo é uma crise de identidade mais profunda. A pessoa pega um problema concreto (excesso de fantasia, conflitos familiares, a necessidade de ser diferente, medo de ser pobre, etc) e o transforma numa abstração do tipo: “Eu só não sou feliz porque não posso seguir aquela profissão”. A mente humana é infinitamente mais complexa! Se você está infeliz, nunca é por um fator isolado. E a maneira como você lida com sua vida pessoal pesa muito mais do que o que consta no seu diploma ou na sua carteira de trabalho.