Número de salas de cinema no Brasil sofre queda e exibidores pedem recursos
4 Apr, 2026
O número de salas de cinema em funcionamento hoje no Brasil é menor do que no ano passado, na primeira queda desde a lenta recuperação que acontece desde o fim da pandemia de Covid-19, que acertou exibidores em cheio. De acordo com dados da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, acessados no fim de março deste ano, há atualmente 3.538 salas de exibição em funcionamento no país. No fim de 2025, eram 3.545. É uma pequena retração que retrata uma crise que não é de hoje e um cenário de contradições. Muitos filmes vêm sendo produzidos, o investimento público está numa crescente. O mercado exibidor, porém, já viu dias melhores. Ainda de acordo com a Ancine, o público total de cinema em 2024 foi de 126 milhões. Já no ano seguinte, o número de ingressos vendidos caiu para 113 milhões, uma queda de 10%. O dinheiro público destinado à produção de filmes, por sua vez, tem crescido nos últimos tempos. Em 2025, a Ancine desembolsou R$ 1,41 bilhão em recursos, um aumento de 29% em relação a 2024 e de 179% em relação a 2021. Esse dinheiro vai majoritariamente para a produção. Agora, os donos de salas de cinema estão questionando por que não vêm recebendo uma fatia desse bolo que cresceu. Em 2023, cerca de 79% dos recursos aportados pelo Fundo Setorial do Audiovisual foram para produção de curtas, longas e programas de TV, segundo o relatório de gestão. Gastos em capacitação, festivais, eventos, comercialização e desenvolvimento de roteiro somam, todos juntos, apenas 2,5% do total. Em 2025 foram produzidos oficialmente 3.979 filmes brasileiros, entre longas, médias e curtas, de acordo com o número de Certificados de Produtos Brasileiros emitidos. Isso representa um crescimento de 20% em relação a 2016, ou 644 filmes a mais, comparando números absolutos. É um cenário novo para o audiovisual brasileiro. Muitos filmes sendo produzidos e um crescimento sem precedentes nos recursos de fomento. Segundo dados do Filme B, porém, 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não alcançaram mil espectadores nos cinemas. Além disso, dos 11,9 milhões de ingressos vendidos para filmes brasileiros no ano passado, 5,9 milhões foram para "O Auto da Compadecida 2" e "Ainda Estou Aqui", ambos lançados ainda em 2024. Os donos e gestores de salas de cinema então viram que era a hora de se reunir, botar as cartas na mesa e discutir as melhores maneiras de evitar que o setor exibidor naufrague, frente à ameaça do streaming. Sob o sol da Bahia, uma série de exibidores do Brasil se reuniram em Salvador no fim de março durante o festival Panorama, em sua 21a edição. O festival já é tradicional na Bahia, mas só no ano passado surgiu o Seminário de Exibição, que acontece pela segunda vez junto ao festival. Na avaliação de Cláudio Marques, cineasta e diretor do Cine Glauber Rocha e do Festival Panorama, o crescimento nos investimentos para os realizadores de cinema é reflexo de um esforço de longo prazo. "O produtor há décadas aprendeu a gritar, a fazer pressão. Coisa que o exibidor nunca fez. Na verdade, o exibidor sempre foi muito orgulhoso da sua capacidade de andar sozinho", diz Marques. "O exibidor não tem o que o produtor sabe desde sempre, que precisa ter uma organização política." Essa necessidade de organização política vem em um momento em que os exibidores se queixam de estar encurralados. Por um lado, veem o fomento ao audiovisual crescer, por outro, veem as salas vazias quando são obrigados a oferecer meia-entrada e outros tipos de gratuidade, além de preencher a exigência de cotas de filmes nacionais. "Nós estávamos acostumados a lutar por mais recursos, porque o Ministério da Cultura sempre foi paupérrimo", disse o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. Hoje, ele diz, há abundância de recursos, o que falta é política pública. "Perdemos a noção da realidade. É preciso saber quanto vai se investir na produção, na distribuição, onde estão os gargalos", diz Ferreira. "Não podemos produzir tanto filme e não ter exibição, não ter distribuição, não ter promoção", afirma o ex-ministro. "O streaming, depois da pandemia, criou um mercado que, se não tivermos uma política cultural para equilibrar, se deixarmos ao sabor da indústria cultural americana, vai engolir as salas de exibição." Pela primeira vez, o seminário elaborou uma carta contendo demandas do setor, a ser entregue ao Ministério da Cultura. Entre os pedidos, está a destinação de 10% do orçamento anual aplicado no audiovisual brasileiro para políticas permanentes de acesso às salas de cinema e formação de plateia. Pedem ainda um programa emergencial imediato no valor de R$ 120 milhões, destinado a possibilitar o acesso de 10 milhões de brasileiros "das classes populares e estudantes às salas de cinema nacionais, priorizando as salas pertencentes a pequenos e médios exibidores brasileiros". Outra demanda é a janela mínima de 180 dias de exclusividade para exibição em salas de cinema antes que as obras possam ir para o streaming. "O que eu sinto que a classe está pedindo, os exibidores estão pedindo, é uma atitude imediata", disse o cineasta José Araripe Jr. durante o seminário. Ao longo do evento, porém, como em toda frente de articulação política, pôde se observar faíscas de discordâncias internas entre os exibidores. André Virgens, representante da Secretaria do Audiovisual do MinC, apresentou trechos do novo Plano de Diretrizes e Metas para o Audiovisual. Entre os destaques, estava a expansão do parque exibidor e a criação de salas públicas. Parte dos donos e gestores de sala não recebeu bem o intuito do governo de construir novos espaços, sendo que os cinemas já existentes estão cada vez mais vazios. Enquanto alguns exibidores torceram o nariz, houve quem defendesse a importância do aumento do parque exibidor. "Onde não há sala de cinema, o VoD [vídeo sob demanda ou steraming] consegue chegar. E esse é um argumento importante das plataformas para disputar a agenda no Congresso", afirma Kátia Morais, professora da Universidade do Estado da Bahia, sobre as pressões políticas dentro das disputas na regulação do streaming. "Os números de exclusão cultural no Brasil seguem dantescos. Menos de 10% das cidades têm salas de cinema. Sem público, não existe indústria", diz Alfredo Manevy, cineasta e professor de cinema da Universidade Federal de Santa Catarina. Nos bastidores do festival, houve ainda quem criticasse a demanda dos exibidores por aportes diretos do governo, classificando essa estratégia como paliativa.