Familiares de astronautas da Artemis 2 não vão à Lua, mas também fazem parte da missão

admin
7 Apr, 2026
Quando o astronauta Reid Wiseman soube que comandaria a missão Artemis 2 da Nasa ao redor da Lua, sua reação imediata não foi de empolgação. "Foi bem pesado", disse Wiseman no podcast Curious Universe ("Universo Curioso") da agência espacial americana. Em parte, porque ele é pai solo de duas filhas. "Não foi como se tivesse acabado de ganhar na loteria e saísse correndo e pulando de alegria", disse ele. "Não foi essa sensação de jeito nenhum." Aventurar-se no espaço sempre foi perigoso. Mas o risco da Artemis 2 é ainda maior. O voo de teste é a primeira vez que humanos vão à Lua em mais de meio século, e a missão está usando um veículo que nunca havia levado astronautas ao espaço antes. O peso desse risco é sentido não apenas pelos astronautas, mas também por seus entes queridos — muito antes da decolagem acontecer. "O lançamento é um evento de estresse culminante", disse James Picano, psicólogo do Centro Espacial Johnson da Nasa em Houston, Texas, que trabalha para apoiar as famílias da Artemis 2. "Mas há uma quantidade incrível de estresse sobre as famílias antes mesmo do lançamento acontecer". Para eles, acrescentou, "a missão começa na designação". A Nasa selecionou a tripulação da Artemis 2 em 2023, quase três anos antes do lançamento da missão na última quarta-feira (1o). O treinamento de astronautas é rigoroso e demorado, mesmo para viagens de rotina à IEE (Estação Espacial Internacional). A tensão de longos períodos longe de cônjuges e filhos é aumentada por cronogramas intensos e pela ambiguidade de prazos em constante mudança. Catherine Hansen, esposa de Jeremy Hansen, especialista de missão da Artemis 2 pela Agência Espacial Canadense, descreveu o estresse de conciliar vários briefings e planejamentos de contingência antes do lançamento lunar. "É algo que consome toda a nossa família", escreveu ela em uma publicação no Facebook. (Os Hansen têm duas filhas e um filho.) O planejamento ficou ainda mais difícil por precisar se preparar para o pior cenário possível, acrescentou ela, "conversas que nenhuma família de um astronauta com destino à Lua quer ter, mas que são absolutamente necessárias". Quando a Nasa começou a enviar astronautas ao espaço nos anos 1960, pouco apoio formal estava disponível para esposas e filhos. Tracy Scott, socióloga da Universidade Emory que pesquisa a vida das famílias de astronautas, descreveu a agência espacial na época como "muito mais parecida com uma startup" — pequena, informal e descontraída. "Todo mundo se conhecia", disse Scott, cujo pai, o comandante David Scott, voou nos programas Gemini e Apollo da agência. Nas comunidades unidas ao redor das instalações de treinamento de astronautas da Nasa, em Houston, as famílias forjaram seus próprios laços de apoio. Astronautas de missões anteriores visitavam as casas dos membros da tripulação no espaço para explicar o que estava acontecendo. Algumas das mulheres, unidas pela experiência compartilhada de criar filhos enquanto casadas com maridos ausentes em carreiras perigosas, formaram o Clube das Esposas de Astronautas (tema de um livro e série de TV). As famílias foram lançadas aos olhos do público, com repórteres se instalando em frente às suas casas e até dentro delas. A Nasa não oferecia treinamento de mídia, embora muitas das esposas gostassem dos holofotes. Segundo Scott, recursos psicológicos, médicos e financeiros mais formais para famílias de astronautas começaram a aparecer após o desastre da Apollo 1 em 1967, no qual três membros da tripulação perderam suas vidas. "Mas isso estava sendo desenvolvido meio que de improviso na época", disse ela. À medida que a agência cresceu, a cultura mudou para algo menos pessoal e mais burocrático, e as famílias de astronautas saíram da vista do público. O Clube das Esposas de Astronautas se transformou em uma organização conhecida como Grupo de Cônjuges de Astronautas, que faz interface com o Escritório de Apoio às Famílias de Astronautas da Nasa e seu grupo de Operações de Saúde Comportamental e Desempenho. "As necessidades e o apoio às famílias ganharam total destaque", disse Picano, acrescentando que os recursos eram essenciais para o sucesso das missões, permitindo que a tripulação a bordo se concentrasse totalmente nas tarefas no espaço. Picano trabalhou com Anna Morgenthaler, psicóloga da agência, para oferecer aconselhamento, acompanhamentos de rotina e outros serviços para as famílias de astronautas com destino à IEE. Mas o grupo teve que repensar as estratégias de apoio para o programa Artemis, que planeja estabelecer uma presença sustentada na Lua e enviar astronautas a Marte. A exploração do espaço profundo trará novos desafios para as famílias. Uma grande questão será a comunicação. Na Estação Espacial Internacional, os astronautas podem manter contato com pessoas na Terra via e-mail, telefone e videochamadas. As tripulações da Artemis, por outro lado, terão menos oportunidade de se conectar com seus entes queridos. As comunicações com astronautas na Lua enfrentam um breve atraso de tempo. As famílias dos membros da tripulação da Artemis 2 foram treinadas sobre o que esperar e como lidar com esses atrasos. Também haverá um breve período de tempo durante esta missão em que ninguém —nem mesmo o controle da missão— poderá falar com os astronautas, enquanto eles passam por trás da Lua. "Você pode imaginar algumas das emoções complexas que pode sentir como familiar", disse Morgenthaler. "Você está empolgada, orgulhosa deles, mas também há alguma ansiedade e algum medo sobre os riscos potenciais." Duas semanas antes do lançamento, os astronautas entraram em quarentena em Houston com suas famílias. A tripulação viajou separadamente de seus entes queridos para o Centro Espacial John F. Kennedy na Flórida cinco dias antes da decolagem. "Este tempo final é provavelmente o tempo mais precioso que você pode ter", disse Wiseman em uma entrevista em janeiro, durante a quarentena em Houston antes de uma tentativa de lançamento adiada. "Você tem um momento para pensar sobre o que é verdadeiramente valioso na sua vida."