Tratamento com injeções deixa 26 pacientes com danos nos olhos na Bahia
7 Apr, 2026
Tratamento com injeções deixa 26 pacientes com danos nos olhos na Bahia Ao menos 26 pessoas apresentaram problemas e algumas ficaram com problemas graves de visão após passarem por procedimento no Ceom Day Hospital, em Irecê (BA), entre os dias 28 de fevereiro e 1o de março. Ao todo, 143 pacientes passaram por terapia antiangiogênica, que consiste na aplicação por injeção de medicamentos diretamente no olho para bloquear o crescimento de vasos sanguíneos anormais na retina. Dessas 26 pessoas que relataram intercorrências, segundo a Sesab (Secretaria de Saúde da Bahia), 23 eram pacientes do SUS. Todos receberam a injeção do produto Avastin, um agente biológico oncológico produzido pelo laboratório Roche. Um deles foi Gilberto Pereira Pontes, 72, que morreu no último dia 31. A família alega que a morte foi uma decorrência da infecção gerada pelo procedimento malfeito, mas autoridades não confirmam ainda a informação. O caso está sob investigação da Polícia Civil da Bahia, que ontem cumpriu mandados de busca e apreensão no hospital, onde apreendeu documentos e prontuários médicos para perícia. Segundo a polícia, 24 pacientes procuraram a instituição entre os dias 27 e 30 de março e relataram perda parcial ou total da visão após a realização de procedimentos. O caso está sendo apurado pela 1a Delegacia Territorial de Irecê. Cegos O advogado Joviniano Dourado Lopes Neto, que representa 12 pacientes, diz que todos apresentam quadro de endoftalmite, uma infecção grave no interior do olho geralmente causada por bactérias ou fungos após cirurgias ou traumas. "Há fortes indícios de que sua ocorrência decorreu de contaminação cruzada durante os procedimentos realizados no hospital", diz. Ele afirma que quatro dos pacientes tiveram perda de visão nos dois olhos, e que os problemas gerados seriam irreversíveis pela demora no atendimento. "Segundo avaliação de oftalmologistas consultados em Salvador, caso o procedimento cirúrgico tivesse sido realizado de forma imediata, haveria possibilidade de recuperação parcial da visão, o que evidencia a falha na prestação do serviço e o agravamento do dano", diz. No caso da morte Gilberto, ele diz que o laudo de óbito atestou insuficiência renal aguda. "Isso é algo esperado nos quadros de infecção grave com evolução para sepse, que podem desencadear disfunção de múltiplos órgãos", assegura o advogado, que representa a família no caso. O que diz o hospital Segundo o Hospital Ceom, nos dois dias de mutirão foram realizados 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos em pacientes com degeneração macular relacionada à idade ou retinopatia diabética, "todos seguindo critérios médicos estabelecidos na literatura e com a realização de exames prévios específicos". Sobre a operação da Polícia, o Hospital Ceom afirma que está à disposição e colaborando com a investigação. "As autoridades foram devidamente recebidas pela instituição, tendo a operação transcorrido de forma respeitosa, colaborativa e em diálogo constante, com especial atenção à natureza sensível dos documentos médicos". "Em respeito ao sigilo legal que envolve procedimentos dessa natureza, bem como às normas éticas aplicáveis, a instituição não pode detalhar o conteúdo da diligência neste momento", completa em nota. Sobre a reclamação de pacientes sobre o atendimento, afirma que "segue prestando toda a assistência aos pacientes e familiares, com acompanhamento contínuo dos casos". Já sobre a morte do idoso, diz que não teve acesso ainda à declaração de óbito, "sendo indispensável para qualquer análise técnica mais aprofundada do caso". Secretaria apura Em nota ao UOL, a Sesab informou que o Ceom Day Hospital é credenciado a prestar serviços em oftalmologia pelo SUS. "A organização da agenda assistencial e a execução dos procedimentos são de responsabilidade exclusiva do prestador". Após tomar conhecimento da situação em Irecê, diz que adotou as seguintes providências: - Suspensão imediata do encaminhamento de pacientes - Diligências para análise de prontuários e acompanhamento da evolução clínica dos casos - Inspeção da Vigilância Sanitária, que identificou "não conformidades relativas ao armazenamento do medicamento Avastin, incluindo ausência de monitoramento adequado de temperatura na geladeira de acondicionamento do produto e despreparo da equipe quanto aos protocolos de controle de temperatura" Segundo a pasta, a Vigilância Sanitária aguarda o resultado das análises laboratoriais dos produtos coletados durante a inspeção. "A Sesab reafirma seu compromisso com a segurança dos pacientes e a qualidade dos serviços prestados no âmbito do SUS, e adotará todas as medidas cabíveis para a adequada responsabilização diante dos fatos apurados". Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.