Natureza ainda está moldando os genes humanos, revela estudo

admin
17 Apr, 2026
Muitos cientistas têm defendido que os humanos evoluíram pouco nos últimos 10 mil anos. Mas um estudo publicado na última quarta (15) na revista Nature sugere o contrário. Ao examinarem o DNA de 15.836 restos mortais de humanos antigos, os autores da pesquisa encontraram 479 variantes genéticas que parecem ter sido favorecidas pela seleção natural apenas nos últimos 10 mil anos. Os cientistas também concluíram que milhares de variantes genéticas adicionais provavelmente passaram por seleção natural —antes do novo estudo, haviam sido identificadas só algumas dezenas de variantes. "São tantas que é difícil compreender todas", disse David Reich, geneticista da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA) e um dos autores do novo estudo. Reich e seus colegas descobriram, por exemplo, que uma mutação considerada um importante fator de risco para a doença celíaca surgiu há apenas 4.000 anos. Isso significa que a condição pode ser mais recente do que as pirâmides egípcias. Essa mutação se tornou cada vez mais comum. Hoje, estima-se que 80 milhões de pessoas no mundo tenham doença celíaca, na qual o sistema imunológico ataca o glúten e danifica os intestinos. O aumento constante da mutação ocorreu por meio da seleção natural, argumentam os cientistas. Por alguma razão, pessoas com a mutação tiveram mais descendentes do que aquelas sem ela —mesmo que isso as colocasse em risco de desenvolver um distúrbio autoimune. Outros achados são ainda mais intrigantes. Os pesquisadores identificaram que variantes genéticas que aumentam as chances de uma pessoa fumar têm se tornado cada vez mais raras na Europa nos últimos 10 mil anos. Algo está agindo contra essas variantes, mas não se sabe o que —os europeus fumam tabaco há cerca de 460 anos. Os cientistas ainda não conseguem estabelecer quais forças podem estar tornando essas variantes mais ou menos comuns. "Minha resposta curta é: não sei", disse Ali Akbari, de Harvard, um dos autores do estudo. O estudo repercutiu entre os biólogos evolucionistas. Alguns especialistas concordaram, de modo geral, que pelo menos algumas das variantes genéticas encontradas por Akbari, Reich e seus colegas acabarão se revelando influenciadas pela seleção natural. "A escala do que a equipe de pesquisa de Reich conseguiu realizar com mais de 15 mil genomas de pessoas antigas é impressionante", afirmou o paleoantropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin (EUA). Outros foram cautelosos quanto à extensão total da seleção natural que a equipe afirma ter encontrado. Sasha Gusev, geneticista da Faculdade de Medicina de Harvard que não participou do novo estudo, tem ressalvas sobre os métodos estatísticos utilizados. "As descobertas ainda exigem algo a mais." Nos últimos anos, cientistas conseguiram encontrar casos de evolução humana recente. Quando algumas sociedades na África, Ásia e Europa domesticaram gado e outros animais, por exemplo, elas começaram a beber leite e consumir outros produtos lácteos. Uma mutação se espalhou e ajudou as pessoas a digerir esses alimentos na idade adulta. Ela pode ter ajudado indivíduos a sobreviver à fome na Idade do Bronze. No início dos anos 2000, Reich e outros pesquisadores foram pioneiros em uma nova forma de reconstruir a evolução humana: eles começaram a extrair DNA de ossos antigos. Em 2015, cientistas do laboratório de Reich fizeram um levantamento de DNA antigo em busca de sinais de seleção natural. Eles encontraram 12 variantes que haviam sido submetidas à seleção natural, incluindo uma que pode ajudar as pessoas a digerir leite na idade adulta. Estudos posteriores elevaram o total para 21 variantes. A equipe de Reich passou a acumular milhares de novas amostras de DNA antigo, enquanto Akbari desenvolveu novos métodos para analisá-las. Este último, aliás, disse ter ficado chocado ao encontrar tantas novas variantes que vinham evoluindo nos últimos 10 mil anos. "Levei cerca de dois anos para me convencer de que isso era real." Akbari e seus colegas encontraram milhares de variantes genéticas adicionais que apresentaram aumentos menores —mas ainda assim impressionantes— ao longo dos últimos 10 mil anos. Mesmo que apenas metade dessas variantes tenha sido afetada pela seleção natural, isso significaria que cerca de 3.800 foram submetidas a mudanças evolutivas. No entanto, "é aí que as evidências começam a ficar mais fracas", na avaliação do geneticista Graham Coop, da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele disse acreditar ser possível que muitas dessas variantes tenham aumentado na população humana graças a mudanças que não tinham nada a ver com seleção natural. Em outra linha de pesquisa, os cientistas analisaram características em pessoas vivas que são modestamente influenciadas por dezenas ou centenas de genes. Essas características incluem tabagismo e diabetes, por exemplo, e os anos que as pessoas passam na escola. Das 563 características estudadas pelos cientistas, 44 mostraram sinais de seleção natural em genes relacionados, um processo conhecido como seleção poligênica. Variantes ligadas ao risco de diabetes tipo dois se tornaram mais raras, por exemplo. O mesmo aconteceu com variantes associadas a uma cintura mais larga e a um alto percentual de gordura corporal. A agricultura pode ser responsável por essas tendências. Os caçadores-coletores se beneficiavam ao transformar alimentos em gordura como forma de sobreviver a períodos de escassez. Mas essa estratégia pode ter se tornado prejudicial quando os agricultores passaram a ter uma dieta constante de trigo e outros alimentos ricos em carboidratos. É muito mais difícil compreender as mudanças em outras características. Os cientistas concluíram que a seleção natural favoreceu variantes genéticas ligadas ao número de anos que as pessoas passam na escola. Porém, o geneticista Iain Mathieson, da Universidade da Pensilvânia e líder do estudo de Reich em 2015, disse que as descobertas sobre características como tabagismo e escolaridade são menos convincentes do que as 479 variantes ligadas a condições como a doença celíaca. "Estou menos convencido pelas evidências de seleção poligênica." Reich e seus colegas limitaram o estudo à Europa e a países vizinhos em parte porque a maioria das amostras de DNA antigo veio dessas regiões. "A razão pela qual não fizemos isso em outras partes do mundo é porque não temos dados suficientes para responder a essa pergunta", disse Akbari. Agora, os cientistas estão ampliando seu escopo. Em um estudo ainda não publicado com a revisão de pares, Akbari e seus colegas analisaram 1.862 amostras de DNA antigo da China e países vizinhos. Eles descobriram que a seleção natural favoreceu algumas das mesmas variantes no Leste Asiático e na Europa. Em um estudo separado, Mathieson também encontrou indícios dos mesmos padrões em outros continentes.