Aquela reunião que você odeia pode impedir que a IA roube seu emprego

admin
23 Apr, 2026
Dan Sirk é o que se chama de executivo fracionado —ou seja, ele trabalha como diretor de marketing não de uma empresa, mas de duas. Simultaneamente. É um malabarismo que se tornou muito mais administrável graças a ferramentas de IA (inteligência artificial) como Claude, Gemini e ChatGPT. Antes, Sirk levava de três a seis meses, ou mais, para construir um site personalizado com uma equipe de terceirizados. Agora, ele leva cerca de um mês e consegue fazer sozinho. Elaborar uma estratégia de comunicação costumava levar uma semana. Quando conversei com ele em março, ele tinha acabado de concluir essa tarefa em menos de oito horas. Em parte graças a esses ganhos de eficiência, Sirk planeja se tornar diretor de marketing de uma terceira empresa nos próximos meses. No entanto, quando perguntei se eu deveria supor que ele adicionaria ainda mais empresas à sua lista nos próximos anos, ele me olhou como se eu fosse louco. Insistiu que três era o limite máximo que conseguiria administrar, mesmo com a ajuda da IA. "Ainda existem relacionamentos humanos", disse. Ou, para ser mais direto: existem reuniões. Sirk estima que já participa de dez reuniões por semana nas duas empresas. Há uma reunião fixa com cada equipe de executivos seniores, sem contar as reuniões individuais regulares com cada CEO. Há uma reunião com seu subordinado direto e com o diretor de vendas de uma das empresas. E há reuniões sobre projetos específicos, como uma apresentação futura para os investidores de uma das empresas. Entrar em uma terceira empresa provavelmente aumentaria o volume de reuniões em 50%. Se ele se tornasse diretor de marketing em mais um lugar, estaria em reuniões por praticamente toda a semana de trabalho, estimou Sirk. A experiência do executivo, embora talvez extrema, reflete o impacto mais amplo da IA no ambiente de trabalho: ela está acelerando enormemente muitas das tarefas realizadas por trabalhadores de escritório e até substituindo algumas delas por completo. O que ela não consegue automatizar —pelo menos não por enquanto— são as exigências rígidas da burocracia. Com a ajuda da IA, trabalhadores podem gerar muito mais memorandos ou opções estratégicas do que no passado e produzir mais protótipos de produtos ou funcionalidades de software. Mas algum executivo ainda precisa decidir qual opção aprovar. Os trabalhadores podem criar muito mais propostas de vendas, mas ainda precisam convencer os clientes a assinar o contrato. À medida que a IA torna a produção do trabalho intelectual cada vez mais eficiente, a tarefa de apresentar, debater, fazer lobby, pressionar, tranquilizar ou simplesmente vender o trabalho parece estar ganhando importância. E a necessidade dessas tarefas humanas às vezes confusas pode limitar o número de pessoas que a IA substitui. "Essas sempre foram habilidades importantes", disse David Deming, economista e reitor do Harvard College. "Mas à medida que o cenário de informações se torna mais saturado, a capacidade de contar uma história a partir dele —de pegar uma tonelada de texto e transformar em algo que as pessoas queiram— se torna mais valiosa." VOCÊ CONSEGUE CONVENCER SEUS COLEGAS? A ideia de que a automação torna interações pessoais mais importantes não é totalmente nova. Um artigo de 2017 de Deming descobriu que, à medida que os computadores ficavam mais poderosos, uma parcela crescente dos empregos exigia intensa interação social, enquanto uma parcela cada vez menor exigia muito conhecimento matemático, mas pouca interação social —como certas funções de engenharia. Ao automatizar tarefas técnicas, os computadores estavam efetivamente empurrando as pessoas para empregos que valorizavam habilidades sociais, observou Deming. Isso não significava que pessoas emocionalmente habilidosas eram as mais bem-sucedidas por padrão —se saíam melhor aquelas que tendiam a combinar habilidades sociais com conhecimento— mas reorganizou o que os empregadores procuravam. Em entrevistas, trabalhadores de diversas profissões de escritório disseram que a IA havia turbinado esse padrão. Muitos preferiram não ser identificados por medo de antagonizar seus empregadores. Um cientista de dados de uma empresa de software disse que ele e seus colegas costumavam ter que escrever código para cada nova funcionalidade ou melhoria que queriam avaliar. Agora, eles apenas têm a ideia, e a IA escreve o código e executa a análise. O processo seletivo de sua empresa, que antes era dominado por perguntas sobre programação e recompensava nerds socialmente desajeitados, agora se concentra em saber se os candidatos conseguem identificar boas ideias e parecem capazes de convencer colegas a apoiá-las, disse ele. Mark Ozaki, diretor da KPMG, afirmou que a consultoria tradicionalmente incentivava consultores mais jovens a se especializarem em uma área temática, como leis e regulamentações tributárias, ou em uma área técnica, como programação. Mas a IA está desvalorizando esse conhecimento e valorizando generalistas que tomam iniciativa e se destacam no cultivo de relacionamentos com clientes, avaliou. Ozaki, que supervisiona uma equipe responsável por uma plataforma de sustentabilidade baseada em IA chamada Sustainlit.com, disse que sua equipe ficava à mercê de programadores habilidosos no passado. Agora, pode usar principalmente IA para fazer programação, e precisa de pessoas "que têm o telefone grudado na cabeça, que são os melhores amigos de todo mundo, que estão sempre a mil". ADEUS, PROGRAMADORES; OLÁ, SUCESSO DO CLIENTE Cory Crosland, CEO da PolicyFly, que vende software para ajudar seguradoras a emitir apólices, disse que a IA reduziu tanto o tempo necessário para configurar o software para novos clientes quanto o número de funcionários necessários para fazê-lo. A mudança permitiu que a empresa cobrasse muito menos dinheiro antecipadamente, o que parece estar aumentando a demanda por seus serviços. Para acompanhar, a PolicyFly saiu de 20 para 28 funcionários nos últimos seis meses —apenas duas das novas contratações são engenheiros de software. Vários são funcionários mais jovens que ajudam clientes a aderir ao sistema ou trabalham com sucesso do cliente, ajudando-os a aproveitar melhor o software. Ainda assim, Crosland disse que não achava que conseguiria automatizar muito mais o processo, pelo menos não no futuro previsível. O motivo? Seus clientes querem interagir com humanos. Os clientes querem que a PolicyFly os tranquilize de que o software funcionará em diferentes situações, e que eles configuraram seu faturamento corretamente ou estão rateando suas apólices de maneiras que fazem sentido. E, claro, há as reuniões para resolver tudo isso —muitas, muitas reuniões. "Com as empresas maiores, temos várias pessoas que são partes interessadas opinando de diferentes departamentos", disse Crosland. "É ainda mais difícil conseguir acordo e alinhamento sobre as coisas."