Macacos comem terra aparentemente para evitar dor de barriga causada por chocolate e sorvete
23 Apr, 2026
Macacos que vivem em Gibraltar, um território britânico no extremo sul da Espanha, aparentemente desenvolveram uma estratégia para evitar dores de barriga devido ao consumo de alimentos industrializados. Eles comem terra. O comportamento foi descrito em um estudo que saiu nesta quarta (22) na revista Scientific Reports. Para desenvolver o trabalho, os pesquisadores observaram macacos-de-gibraltar (Macaca sylvanus) de agosto de 2022 a abril de 2024. Ao todo, habitam aquele território em torno de 230 espécimes, divididos em oito grupos. Eles representam a única população de macacos vivendo em liberdade na Europa. Nativos do norte da África, os macacos-de-gibraltar teriam chegado a Gibraltar durante o domínio mouro. Mais tarde, eles viraram um símbolo do controle britânico em razão da lenda de que alertaram as tropas locais sobre um ataque surpresa no século 18. Hoje, os animais mantêm contato próximo com os turistas. E, com frequência, eles ganham alimentos dos visitantes, ou roubam seus lanches. Isso ocorre apesar de os macacos receberem frutas, legumes e sementes em plataformas de alimentação designadas e administradas pelas autoridades locais. Os pesquisadores descobriram que o hábito dos macacos de comer terra era mais recorrente em grupos que consumiam alimentos de turistas, como chocolate, salgadinhos e sorvete —itens ricos em açúcar, gordura e laticínios, e pobres em fibras. "Propomos a ideia de que a comida humana, por não ser adaptada à dieta natural deles, provoca desconforto estomacal e, potencialmente, alterações no microbioma, cujos efeitos negativos são amenizados pelos componentes do solo", disse o antropólogo biológico Sylvain Lemoine, da Universidade de Cambridge (Inglaterra). A terra "provavelmente age como antiácidos", segundo o pesquisador, autor principal do novo estudo. Porém, mais pesquisas são necessárias para entender os efeitos do material ingerido nas bactérias intestinais. O consumo deliberado de terra, giz ou argila é chamado de geofagia. Esse comportamento é observado em diversas espécies, entre as quais chimpanzés, lêmures e outros macacos. "Não sabemos a ação exata da terra no intestino, mas os solos, particularmente aqueles ricos em argila, são conhecidos por aliviar o pH intestinal [acidez], adsorver toxinas, revestir o estômago e modificar a composição do microbioma", afirmou Lemoine à Reuters. "Eu não diria que o solo ajuda a digerir ‘junk food’, mas provavelmente os ajuda a se sentir melhor durante uma digestão difícil." Os pesquisadores documentaram 46 casos de geofagia na população de macacos de Gibraltar. A prática foi especialmente comum em áreas com grande fluxo de turistas e atingiu seu pico no verão, quando o número de visitantes é mais alto. Um grupo sem acesso a alimentos industrializados não apresentou consumo de solo. O estudo sugere que o comportamento pode ser aprendido socialmente. Diferentes grupos de macacos preferem tipos específicos de solo, e a maior parte do consumo de solo ocorre na presença de outros macacos, dando aos indivíduos mais jovens a chance de observar e imitar. De acordo com Lemoine, as descobertas mostram como os primatas podem se adaptar a ambientes em mudança de maneiras semelhantes aos humanos e aprender esses comportamentos uns com os outros. Ainda segundo o pesquisador, as descobertas podem influenciar o comportamento dos turistas, potencialmente ajudando a desencorajá-los a dar comida aos animais. Também existe a preocupação de que isso possa ter o efeito oposto se os visitantes tiverem a expectativa de poder provocar comportamentos incomuns. "Não há associação sistemática entre o consumo imediato de junk food e a subsequente ingestão de terra. Isso acontece dessa forma em alguns casos, mas geralmente eles não comem terra imediatamente após consumir alimentos humanos", disse Lemoine.