450 MHz Alliance avalia mais faixas para redes celulares privativas
24 Apr, 2026
A faixa de 450 MHz é hoje aquela que contém os maiores projetos de redes celulares privativas (RCPs) ao redor do mundo, motivo pelo qual dá o nome da entidade que advoga por essas redes, a 450 MHz Alliance . Mas a entidade acompanha o uso de outras bandas para RCPs e procura fomentar uma padronização mundial, para dar mais robustez a esse ecossistema. Em entrevista para Mobile Time, o chairman da 450 MHz Alliance, Gösta Kallner, comentou sobre as diferentes bandas disponíveis e sobre faixas que podem ganhar importância no longo prazo, como as de 380 MHz e de 1,5 GHz. Mobile Time – Qual é a principal missão da 450 MHz Alliance? Gösta Kallner – Nossa missão é promover e apoiar indústrias que constroem redes móveis privadas, independentemente do espectro, embora a gente se concentre em 450 MHz porque é um espectro global. Também tentamos educar as pessoas sobre o tema, porque a rede privada não se encaixa em tudo. Quais são os seus principais objetivos para este ano de 2026 na 450 MHz Alliance? Devemos estar presentes em todos os continentes, disponíveis para indústrias, concessionárias, operadores de segurança pública em todo o mundo para dar-lhes um bom suporte em suas decisões e também apoiar os reguladores na seleção do espectro a ser disponibilizado para redes públicas ou privadas. São objetivos mais genéricos porque somos uma organização sem fins lucrativos, então não precisamos estabelecer grandes metas para aumentar receitas ou algo assim. A entidade foca em qualquer tipo de rede celular privativa (RCP) ou apenas aquelas para serviços de missão crítica? Os investimentos e a escala estão concentrados em comunicações críticas. Seja missão crítica ou apenas negócio crítico. Mas nós também apoiamos redes privadas de comunidades menores. Cabe destacar que também trabalhamos com MNOs, porque algumas delas constroem ou apoiam pessoas para construir redes privadas. Entre os nossos membros temos redes construídas que custaram vários milhões e outras, mais baratas, que custam cerca de US$ 100 por mês. É uma diferença enorme. Essa é uma beleza e um desafio. Um dos seus desafios é evitar a fragmentação do espectro, fomentando uma padronização global para redes privativas. Qual faixa está hoje mais padronizada para essa finalidade? Temos duas bandas principais agora. Uma está na faixa de 400 MHz e a outra entre 3,5 a 4 GHz, dentro da qual está o CBRS dos EUA. E na Ásia está chegando a faixa de 4,9 GHz. Também temos alguns recortes com 2,3 GHz e 2,6 GHz que aparecem um pouco aqui e ali, mas ainda não são o principal. E espero que haja algumas coisas em torno de 600 a 700 MHz e também em 1,5 GHz, no longo prazo. Na faixa de 700 MHz temos algumas bandas para segurança pública, como a FirstNet nos EUA, que está usando a banda 14, e a banda 68, que também é 700 MHz, na Europa. Gösta Kallner, chairman da 450 MHz Alliance (Crédito: divulgação) Em qual dessas bandas há mais redes celulares privativas implementadas até agora no mundo? 3,5 GHz a 4 GHz é a maior quando se trata de número de redes. Mas se falarmos de investimento em redes, eu acho que são as faixas de 450 MHz ou 700 MHz. Porque são redes muito maiores, algumas de porte nacional na Alemanha, na Polônia, na Arábia Saudita, na Holanda, na Áustria. Todas na casa das centenas de milhões de dólares. Quais mercados são os mais desenvolvidos em redes celulares privativas? Os EUA porque eles têm 900 MHz, 1,6 GHz e CBRS. Eles têm três bandas que estão disponíveis há muito tempo. E também têm 700 MHz para a FirstNet. O problema é que essas bandas não estão disponíveis em todos os estados norte-americanos. Outro mercado em destaque é a Alemanha: são muito bons na banda de 3,5 ou 3,7 GHz. Citaria também o Reino Unido. Na Europa em geral as redes móveis são muito fortes por causa da densidade populacional, então as pessoas têm a tendência de usar rede móvel e Wi-Fi com bastante frequência em combinação, o que faz as redes celulares privativas crescerem mais lentamente. Nos EUA, o principal crescimento tem sido em áreas rurais onde você não tem nada. Vale mencionar também a China, claro, mas é muito difícil ter visibilidade total do que acontece por lá. E na América Latina? Na América Latina, eu acho que o Brasil é provavelmente o pioneiro no espectro privado. É restrito, há muitos parâmetros diferentes que você precisa considerar, mas a Anatel teve uma boa abordagem para disponibilizar isso. Qual é a maior RCP do mundo em número de estações base? A FirstNet é provavelmente a maior, mas é construída pela AT&T... Então não é realmente tão privativa assim... Se não contarmos a FirstNet, talvez as maiores estejam na China. Mas acho que até o final do ano será a rede da Saudi Aramco, uma das maiores empresas do mundo em petróleo e gás. Eles têm uma subsidiária chamada Aramco Digital e estão construindo uma rede nacional para a Arábia Saudita, para a indústria de petróleo e gás, concessionárias de energia e, acredito, outras indústrias. O setor de petróleo e gás é o principal setor a investir em RCPs no mundo? Não, as concessionárias de energia são as maiores em termos de escala. Eu acho que em número de redes é a manufatura. Mas em escala são as concessionárias de energia. O Brasil vive um imbróglio em relação à faixa de 450 MHz. Ela já esteve nas mãos das operadoras, depois foi devolvida. Agora está sendo usada por concessionárias de energia. A Anatel chegou a divulgar no fim do ano passado que iria leiloá-la para o Serviço Móvel Pessoal (SMP), mas voltou atrás recentemente. Existe algum país em que a frequência de 450 MHz está sendo usada atualmente por MNOs para serviço comercial? A Noruega. É uma rede legada, mas eles planejam desativar o serviço nesta banda este ano. Suécia, Noruega e Dinamarca tiveram serviços comerciais nesta banda. Dinamarca e Suécia já desativaram. Na Noruega, a razão pela qual faz parte de uma oferta comercial é que é uma concessionária hoje que possui uma operadora móvel. E eles também possuem o espectro de 450 MHz. Mas acho que até o final deste ano não haverá mais oferta comercial na Noruega nessa faixa. Faltam dispositivos para o consumidor final nesse espectro. A principal razão pela qual também gostamos deste espectro é justamente porque não há dispositivos de consumo. Isso significa que quando há algum grande incidente, um desastre, seja o que for, o usuário final não tenta se conectar nessa faixa. Em outras bandas, como 700 MHz, há dispositivos para os consumidores finais. E isso cria ruído, os serviços se degradam significativamente. Outras duas frequências usadas para RCPs não tiveram o mesmo sucesso de 450 MHz. São as de 250 MHz e 410 MHz. Por que? Estamos cerca de três a cinco anos atrasados em 410 MHz, porque padronizamos a banda mais tarde para LTE do que a de 450 MHz. Mas vemos 410 MHz em ascensão. A Argentina já tem 450 MHz e 410 MHz à disposição, por exemplo. Vemos o mesmo acontecendo na Arábia Saudita e em vários outros países aonde ambos os espectros já são usados. Outra faixa de espectro baixo que estamos começando é a de 380 MHz. É uma banda típica Tetra P25 em todo o mundo. E achamos que essas eventualmente evoluirão também para 4G, 5G e 6G. Mas essa estamos olhando a longo prazo. A banda de 250 MHz ficou muito isolada no Brasil e na China. A razão pela qual a 450 MHz Alliance existe é porque precisamos agregar volumes. As redes privadas atualmente são muito menores em escala do que as redes comerciais. Então, mesmo que reunamos todas as redes privadas ao redor do mundo não chegaremos ao tamanho da Vodafone. As operadoras móveis têm muito mais volume, são muito maiores em escala. Nossa expectativa é que a rede privada cresça e se torne mais um ecossistema autossustentável. Os fornecedores vivem um dilema. Por um lado querem vender equipamentos para RCPs, por outro, não querem se indispor com seus principais clientes, que são as operadoras. O que acha disso? Eu acho que eles conseguiram explicar às operadoras que isso não é competição, mas um complemento. E a operadora móvel vende mais capacidade quando alguém constrói uma rede privada. Porque eles podem ser o backup ou a alternativa. Você impulsiona o tráfego, impulsiona o crescimento nessas áreas porque geralmente as constrói onde as operadoras são fracas. Há muitos fabricantes voltados para operadoras. Precisamos de algo intermediário. Os pequenos são muito dispersos. Alguns deles estão apenas entregando estação base, outros usam core, não estão acostumados a integrar e fazer as coisas. Eu acho que, por um lado, se Nokia, Ericsson, Huawei, ZTE focarem em empresas em escala reduzida seria um ajuste perfeito para grande parte desse negócio. E sempre haverá alguns negócios secundários, com redes privadas mais simples e de melhor esforço que talvez sirvam a um propósito diferente. Por outro lado, eu também digo para as concessionárias de energia: comecem a comprar algo simples, pequeno, para que vocês aprendam o que é um cartão SIMcard primeiro. Entendam a cobertura como são as antenas, a cobertura etc. Porque as concessionárias de energia vêm de um mundo diferente, usam Wi-Fi e banda estreita, que têm características completamente diferentes. Como você vê as possibilidades de usar o fatiamento de rede para oferecer uma espécie de rede privada dentro de uma rede comercial? Neste caso não é uma rede privada. É um complemento. Eu acho que é um bom recurso para o gerenciamento de capacidade para as MNOs. Mas não é uma rede privada. Em 10 anos talvez as redes privadas atuais estejam maduras o suficiente para começar a fazer fatiamento também, mas hoje eles deveriam construir de forma simples, e eu acho que isso vale um pouco para as MNOs também. Quando se aumenta a complexidade, surgem problemas na rede. Em muitas dessas experiências de fatiamento que foram ao ar houve problemas. Já pensaram em mudar o nome da associação, já que lidam com tantos espectros diferentes? Sim, já olhamos para outros nomes. Mas 450 Alliance é um nome que as pessoas sabem onde estamos e quem somos. Ainda somos relativamente pequenos como organização. Pode ser que em algum momento, a gente dê um salto e mude de nome. Mas, até agora, sentimos que ainda estamos crescendo a um nível que é melhor manter o nome. Foto no alto: Gösta Kallner, chairman da 450 MHz Alliance, durante palestra na UTCAL 2026, no Rio de Janeiro (Crédito: Fernando Paiva/Mobile Time)