Tecnologia pode elevar as desigualdades, alerta ONU

admin
30 Apr, 2026
Tecnologia pode elevar as desigualdades, alerta ONU Estudo adverte que a falta de infraestrutura e governança pode reverter décadas de avanços em renda e saúde, além de concentrar lucros e inovação entre potências A inteligência artificial (IA) pode aumentar as desigualdades entre os países em termos de desempenho econômico, competências de pessoas e sistemas de governo, segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Na corrida pela transição tecnológica, os países partem de posições desiguais para aproveitar os benefícios e gerenciar os riscos. Enquanto a IA avança rapidamente nos países desenvolvidos, muitos ainda estão na linha de partida. O relatório aponta que infraestrutura, competências, poder computacional e capacidade de governança limitados restringem os benefícios e amplificam os riscos, incluindo o deslocamento de empregos, a exclusão de dados e impactos indiretos. Essa disparidade é o motor do que o estudo, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), classifica como um risco real à convergência global. Ao analisar o cenário na Ásia e no Pacífico, a entidade alerta que a IA pode interromper - até reverter - os avanços em renda, saúde e educação conquistados nos últimos 50 anos por meio do comércio e do desenvolvimento tecnológico. “A experiência da Ásia e do Pacífico destaca a rapidez com que podem surgir lacunas entre aqueles que moldam a IA e aqueles que são moldados por ela”, diz Kanni Wignaraja, diretora regional do PNUD nas duas regiões. Os dados atuais confirmam que a divergência já existe e que os países desenvolvidos largaram antes. Estados Unidos e China concentram 60% de todas as patentes do setor e 33% das publicações sobre o tema no mundo. Além disso, 40% das pesquisas sobre IA foram financiadas por apenas 100 empresas em 2022 e nenhuma delas era de um país em desenvolvimento. O Banco Mundial mostra que países de alta renda concentram 85% das startups de IA, 91% do capital de risco e 54% das publicações globais. A evolução da IA criou uma nova forma de dependência tecnológica global, afirma David Nemer, professor da Universidade da Virgínia. “Não se trata apenas de importar máquinas, mas de depender de infraestrutura controlada por poucos países e empresas”, explica. Sem políticas públicas, ele alerta que a tecnologia concentrará riqueza, funcionando mais como um “multiplicador de vantagens pré-existentes do que como uma ferramenta de nivelamento entre as nações. “Quando os EUA e China concentram pesquisa, patentes e capacidade computacional, países como o Brasil correm o risco de virar consumidores de sistemas produzidos fora, sem autonomia para definir prioridades, regras ou rumos tecnológicos”, diz Nemer. Segundo ele, os chineses lideram em volume de publicações, citações e patentes, enquanto os americanos estão na frente nos modelos de ponta, nas patentes de maior impacto e no investimento privado. “O que separa os países que avançam dos que ficam para trás é menos ‘ter acesso a IA’ e mais ter capacidade de desenvolvê-la, sobretudo para apoiar problemas sociais.” A agência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) divulgou, em 2025, um relatório em que estima que a IA gerará US$ 4,8 bilhões até 2033, embora possa afetar 40% dos empregos globais. Esse impacto, no entanto, tende a ser desigual: enquanto Coreia do Sul e China aceleram investimentos em infraestrutura, outras nações ainda lutam para garantir o acesso básico e a alfabetização digital. De acordo com a ONU, apenas um número limitado de países possui regulamentações abrangentes sobre IA. A Coreia do Sul foi o primeiro país a implementar formalmente uma lei que regula a IA, enquanto a União Europeia (UE) deve ter suas regras totalmente aplicadas em 2027. Conheça o Valor One Acompanhe os mercados com nossas ferramentas