Como as pesquisas para presidente são confiáveis com apenas 2.400 entrevistados?
30 Apr, 2026
Em ano de eleição, as pesquisas de intenção de voto [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/] ganham destaque nos noticiários. E junto com os pontos percentuais, margens de erro e níveis de confiança, surgem também questionamentos sobre a eficácia deste exercício estatístico que, não raro, pode ajudar a definir o resultado de uma votação. Afinal de contas, como é possível que pouco mais de 1,6 mil eleitores consigam refletir com precisão a intenção de voto de um estado como São Paulo e seus mais de 46 milhões de habitantes? Esse, a propósito, foi o número total de entrevistados pela Quaest para sua pesquisa de intenção de voto para o governo paulista divulgada em 29 de abril [https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral-2026/genial-quaest-governador-sao-paulo-abril-2026/]. A resposta está na matemática. Mais especificamente na chamada Lei dos Grandes Números. De forma simplificada, esse princípio da estatística sinaliza que a partir de uma determinada amostra (as 1.650 pessoas entrevistadas pela Quaest), a média desses dados se aproxima da média real de todo o grupo (os mais de 46 milhões de habitantes do estado de São Paulo). Em português, isso quer dizer que quando essa amostra é bem escolhida, os resultados obtidos pela pesquisa são um retrato fiel de toda a população, com uma margem de erro pequena. E isso vale tanto para pesquisas em eleições de presidente da República quanto para aquelas para síndico de condomínio. Divisões naturais ajudam a determinar boa amostra Mas como saber se a amostra foi bem determinada? Um dos fatores principais para responder a essa pergunta é a estratificação da população. Em outras palavras, a amostra precisa respeitar as divisões naturais que há dentro do grupo total, como a divisão entre homens e mulheres e as faixas etárias, e outros critérios que possam ser de interesse dos pesquisadores, como faixas salariais e de escolaridade. “Vamos dizer que metade da população total tenha mais de 30 anos. Então, quando eu for fazer essa amostra, 50% dos meus entrevistados precisam ter mais de 30 anos. Se a proporção entre mulheres e homens for de 60/40, isso precisa aparecer também na minha amostra”, detalhou o matemático e professor da PUCPR Saulo Henrique Weber. Com base nesse fator e na margem de erro esperada, explicou o matemático à Gazeta do Povo, é possível definir o nível de significância da pesquisa. Esse é o ponto que define a quantidade de pessoas ouvidas pelos entrevistadores. Geralmente, é um número pequeno, mas potencialmente representativo graças à essa estratificação. Chegando ao “número mágico” de entrevistados Seguindo o que estabelece a estatística, a equação que chega ao “número mágico” de entrevistados para uma pesquisa eleitoral é a seguinte: n=Z2.p(1-p)/E2 Nessa conta, “n” é o tamanho da amostra, “Z” é o valor crítico, que para um nível de confiança de 95% é 1,96, “p” é a proporção estimada, 0,5 nos piores casos, e “E” é a margem de erro desejada, expressa em decimais. Em um resultado prático, essa conta leva às seguintes amostras – a quantidade de entrevistados – independentemente do tamanho da população total: Os números de entrevistados podem variar entre os institutos de pesquisa, já que cada empresa busca estratificar ainda mais suas amostras para oferecer diferentes análises baseadas nos mais variados fatores. A título de comparação, uma pesquisa que tenha 99% de nível de confiança e margem de erro de 0,01 ponto percentual demandaria 16.588 entrevistados. Em uma pesquisa ainda mais precisa, com margem de erro reduzida para apenas 0,001 ponto percentual, essa amostra saltaria para mais de 2,7 milhões de pessoas. “É lógico que quanto maior for esse nível de significância, maior também será o nível de certeza da pesquisa. Ou, quanto mais gente for pesquisada, maior será a precisão”, confirmou Weber. Então, por que os institutos de pesquisa não fazem pesquisas com ainda mais pessoas, para se aproximarem ainda mais da realidade? A resposta está relacionada ao custo e ao tempo necessários para essa empreitada. Como bem definido pelos institutos, a pesquisa costuma ser analisada como um retrato momentâneo da intenção do eleitor, que pode mudar de um dia para outro e até mesmo na véspera da votação, por diversos fatores. “De nada adianta uma pesquisa com milhões de pessoas se ela levar semanas para ficar pronta, fora o custo logístico desse processo. Não existe pesquisa com 100% da população, o nome disso é plebiscito, é eleição”, resume o matemático. Por que as pesquisas “erram”? E por que as pesquisas “erram”? O que explica a diferença nos resultados dos institutos e a apuração final dos votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)? Aqui também há uma série de fatores, como explica o especialista. Um desses pontos é uma escolha malfeita da amostra, que pode não refletir a diversidade da população total. Em um exemplo extremo, uma pesquisa eleitoral para presidente que concentre seus entrevistados apenas na Região Nordeste não irá refletir a intenção de voto dos eleitores do restante do país. Nesse caso, a pesquisa é considerada nichada, e o resultado será enviesado. O viés de amostragem é uma tendência que tira a neutralidade da pesquisa. Isso é facilmente verificado em levantamentos feitos em redes sociais, como grupos de WhatsApp e páginas de Instagram ou Facebook. “É natural que as pessoas que fazem parte desses grupos estejam mais alinhadas entre si. Um apoiador do candidato ‘A’ geralmente não vai entrar em um grupo ou página de apoio ao candidato ‘B’. No final, a ‘pesquisa’ acaba mostrando menos a realidade e mais o que a pessoa quer ouvir, porque foi feita dentro de um nicho muito específico”, comentou o matemático. Por isso, uma enquete no Facebook com 100 mil respostas pode ser menos confiável que uma pesquisa eleitoral feita com 2 mil eleitores. Margem de erro das pesquisas influencia no empate técnico Outro ponto é a dificuldade natural que há em alguns eleitores em entender alguns conceitos matemáticos presentes nas pesquisas, como a margem de erro e o empate técnico. Dependendo dessa margem, que no caso da pesquisa da Quaest citada no início da reportagem é de 2 pontos percentuais, um candidato que apareça com 33% das intenções pode estar empatado com outro que tem 29%. A margem de erro está intimamente ligada à escolha da amostra, e é tanto menor quanto maior for a quantidade de pessoas entrevistadas. No exemplo anterior, isso significa que o primeiro candidato pode ter algo entre 31% e 33% das intenções de voto. Da mesma forma, o percentual de eleitores do segundo candidato está oscilando entre 27% e 31% - o “teto” de um é igual ao “piso” do outro, daí o empate técnico. Quando todas essas características são levadas em conta – estratificação e significância da amostra, minimização do viés e todos os outros detalhes do processo – chega-se ao nível de confiança da pesquisa. Não raro, as pesquisas eleitorais mais respeitadas apresentam um índice de 95%. Novamente, em português isso significa que se essa mesma pesquisa fosse aplicada 100 vezes, os resultados refletiriam o mesmo resultado, dentro da mesma margem de erro, em 95 das vezes. Fator humano pode enviesar pesquisas Ainda assim, mesmo quando todo o processo científico/matemático é respeitado, uma pesquisa pode ter um resultado “errado”. De acordo com o matemático Saulo Henrique Weber, fatores humanos como uma pergunta mal formulada ou a aplicação do questionário sem o devido cuidado podem influenciar diretamente nos números finais. “Se a pergunta for algo como ‘você votaria no candidato A ou em algum dos outros?’, isso claramente traz uma vantagem para esse ‘A’. Da mesma forma, até mesmo microgestos do entrevistador, como um leve aceno de cabeça ou uma sobrancelha levantada podem fazer com que o eleitor pesquisado seja levado, mesmo que de forma não consciente, a mudar sua resposta”, completou. Por fim, elencou Weber, há ainda o fator psicológico dos eleitores que não querem “perder o voto”. Esse comportamento aparece entre aqueles que, mesmo tendo mostrado interesse em votar em um determinado candidato, mudam de lado ao perceber que sua opção não está bem ranqueada. Essas mudanças de última hora tendem a fazer com que os resultados das urnas não necessariamente sigam o que foi aferido nas pesquisas. Por que a Gazeta do Povo publica pesquisas eleitorais A Gazeta do Povo publica há anos todas as pesquisas de intenção de voto realizadas pelos principais institutos de opinião pública do país. As pesquisas de intenção de voto fazem uma leitura de momento, com base em amostras representativas da população. Métodos de entrevistas, composição e número da amostra e até mesmo a forma como uma pergunta é feita são fatores que podem influenciar no resultado. Por isso é importante ficar atento às informações de metodologias, encontradas no fim das matérias da Gazeta do Povo sobre pesquisas eleitorais.