HQ transforma autismo em fábula cotidiana e contemporânea

admin
30 Apr, 2026
Uma HQ recém lançada, "João Pé de Feijão" (VR Editora), narra a história de João, um garoto autista, irmão mais novo da quadrinista e ilustradora Ing Lee, autora da obra. No livro, ela conta que João recebeu o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos 2 anos de idade e que só foi falar sua primeira palavra aos 5 anos —ele disse "urso" durante um passeio pelo shopping. Lee aproveita os quadrinhos para explicar, com leveza e precisão, algumas características do autismo. Ela conta que João é bastante agitado. Faz o que muitos outros autistas fazem: os "stims", que são estereotipias motoras ou vocais. Ele corre de um lado para o outro e chacoalha as mãos quando está feliz ou agitado —o chamado "flapping". "As estereotipias são essenciais como forma de expressão ou até mesmo como um mecanismo para o sujeito autista conseguir se acalmar", ela explica no livro. E completa: "Se faz bem pra ele, faz bem pra gente." Para trechos como este e outros mais técnicos sobre o autismo, Lee conta, em entrevista à coluna, que fez questão de ter como suporte uma leitura sensível —a revisão crítica por uma pessoa no espectro. Na HQ, Lee usa a fábula do "João e o Pé de Feijão" para reafirmar a potência de o João ser quem é e das conquistas diárias dele. Ela usa o conceito dos feijões mágicos para falar da transformação da própria família, como um rito de passagem, e questiona o que é trazer para casa uma galinha de ovos de ouro. "O João protagonista é um herói que está sempre mudando, amadurecendo, e cujas subidas e descidas até a casa do gigante trazem várias conquistas", escreve no livro. "Ele vai nos surpreendendo a cada dia", diz Lee à coluna sobre irmão, que hoje tem 13 anos. "A gente não quer cortar esse pé [de feijão], queremos que ele cresça livremente, queremos subverter a fábula original." Além de falar sobre o irmão na HQ, Lee descreve sua vivência como irmã atípica e relaciona essa vivência ao fato de ser, ela própria, uma pessoa com deficiência. "A minha surdez foi diagnosticada quando eu tinha 15 anos de idade", escreve na obra. João, que sempre gostou de desenhar, tem usado seus desenhos como uma forma de se comunicar com a irmã, que se mudou de Belo Horizonte para São Paulo. "A gente foi reconstruindo a relação de outras formas. Muitas vezes, a gente se comunica pelo WhatsApp, ele me manda várias imagens. Ele está com hiperfoco [interesse profundo e prolongado em determinados assuntos] em grafite e me manda vários prints no Google Maps. Ele me usa como uma pasta de armazenamento", conta ela. Lee termina a HQ levantando uma questão forte entre irmãos atípicos: "Que tipo de futuro vamos desenhar juntos?". Nota: Para o aniversário de 14 anos do irmão, Lee pretende oferecer uma experiência com grafite para João; grafiteiros de Belo Horizonte interessados e engajados podem procurá-la.