Marco Nanini e Guilherme Weber encenam a vida diante da tragédia em espetáculo

admin
1 May, 2026
O mundo é apenas caos, aridez e desolação. Dentro de um pequeno abrigo feito com painéis de madeira, quatro pessoas se protegem das consequências de uma hecatombe que devastou a natureza e dizimou quase toda a humanidade. Sem conseguir andar ou enxergar, Hamm passa os dias em uma cadeira de rodas dando ordens a Clov, filho adotivo que ele trata como um criado. Embora queira abandonar a opressão paterna, a fuga parece mais um devaneio do que uma intenção concreta. O grupo é formado ainda por Nell e Nagg, pais de Hamm que habitam duas latas de lixo posicionadas na lateral do abrigo. Para os quatro sobreviventes da peça "Fim de Partida", a vida se tornou um cativeiro tão sufocante quanto inescapável. Esse mundo claustrofóbico e pós-apocalíptico é encenado agora no palco do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, zona oeste da capital paulista. Com direção de Rodrigo Portella, o espetáculo é estrelado por Marco Nanini e Guilherme Weber, que vivem respectivamente Hamm e Clov. Além dos dois, Helena Ignez e Ary França integram o elenco na pele de Nell e Nagg. A produção adapta para os palcos do Brasil o texto seminal de Samuel Beckett publicado em 1957. Ganhador do Nobel de Literatura, o dramaturgo irlandês revolucionou o teatro ao romper com o naturalismo em favor de tramas absurdas, minimalistas e silenciosas. Ele se notabilizou ainda por verter na dramaturgia o desespero de um mundo ainda traumatizado pela Segunda Guerra Mundial. O artista testemunhou os horrores desse conflito ao fazer parte da resistência contra o nazismo na França –país para onde se mudou em 1937 e no qual morreu em 1989. "Ele escreveu sobre as ruínas da humanidade, parodiando tiranos e fazendo alegorias sobre os oprimidos. Seus trabalhos são a metáfora de um sonho que se perdeu", afirma Guilherme Weber, para quem a peça ecoa tragédias atuais. A devastação da natureza que permeia a produção é uma evidência disso. "Ele é muito hábil em concretizar, em termos de linguagem, o vazio da história e as ruínas contemporâneas." Beckett era igualmente hábil em infundir na dramaturgia a repetição tediosa e maquinal do cotidiano. Em "Fim de Partida", por exemplo, isso fica evidente quando Hamm confessa o apreço por questões já conhecidas. "Ah, as velhas perguntas, as velhas respostas, não há nada como elas." Clov, por sua vez, é bem menos afeito à repetição. "A vida toda os mesmos absurdos", diz ele, em uma conversa com Hamm. De certa forma, essas frases fazem alusão não apenas à reincidência de crises e guerras, mas também ao nosso interesse por contar sempre as mesmas histórias. A repetição, inclusive, é um pilar da própria dramaturgia. Afinal, o público continua lotando teatros para ver textos que já foram encenados um sem-número de vezes, como "Hamlet", de William Shakespeare, ou "A Gaivota", de Anton Tchékhov. "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tem a dizer", diz Weber, citando um aforisma do escritor italiano Italo Calvino. "Acho que ‘Fim de Partida’ é um trabalho infinito, que continua a responder a novas questões." Em uma hora e meia, o espetáculo lança uma saraivada de perguntas à plateia. A questão mais premente, porém, parece nos indagar se é possível haver vida depois da tragédia. "Na verdade, a peça mostra que existe, sim, possibilidade de fluência de vida", diz o ator. "Não acho que Beckett seja um niilista." Esse desejo pela vida é discreto, mas nem por isso menos poderoso. Apesar da realidade claustrofóbica, Clov alimenta o sonho de fugir do abrigo, enquanto Hamm quer sentir a luz do Sol. Já Nell e Nagg ainda sentem desejo um pelo outro, mesmo presos em latas de lixo. São lampejos de resistência que também podem ser sentidos em "O Inominável" —romance que integra uma trilogia formada pelos livros "Molloy" e "Malone Morre". No final da obra, Beckett escreveu aquela que é uma das frases mais emblemáticas da literatura mundial: "Você deve continuar, eu não posso continuar, eu vou continuar." É uma sentença que sintetiza as ambivalências que marcam a produção do autor e as contradições da própria natureza humana. "Talvez ele tenha sido o dramaturgo ocidental que mais inovou em termos de linguagem", diz Weber, artista de quem veio a ideia de montar "Fim de Partida". Esse desejo surgiu não apenas pelo texto do irlandês, mas também pela possibilidade de contracenar com Marco Nanini —um dos atores mais reverenciados da dramaturgia nacional. "Hamm é o Rei Lear do teatro moderno", afirma ele, em referência ao monarca criado por Shakespeare. "É como se esse personagem ficasse esperando os grandes atores chegarem à idade certa para que ele possa ser representado nos palcos." A montagem marca a primeira vez que Nanini dá vida a um personagem beckettiano. "E talvez seja a última, porque me deu uma canseira", afirma o ator, após o ensaio do espetáculo. "Para me preparar, eu li bastante o texto, tentando compreender esse personagem." Hamm tem motivações que nem sempre são fáceis de entender. Ora ele se comporta de modo tirânico, ora demonstra a fragilidade de quem teme ser abandonado. "Ele é cheio de intenções que surgem quando a gente menos espera", diz o ator, acrescentando ter dificuldade para explicar os meandros da criação de seu personagem. "O próprio Beckett dizia que não queria explicar nada e que tudo o que tinha para ser explicado já está no texto. Então, para mim, tudo o que preciso explicar está no palco." Beckett de fato era avesso a analisar a própria obra. Questionado sobre a identidade de Godot, um de seus personagens mais célebres, ele disparou à queima-roupa: "Se eu soubesse, teria revelado na peça". Essa postura evasiva somada ao caráter experimental de seus textos valeu ao irlandês a pecha de autor pouco acessível. Diretor de "Fim de Partida", Rodrigo Portella diz que o hermetismo se tornou a tônica das montagens de obras do dramaturgo. Por esse motivo, decidiu ir por outro caminho. "Ao lado do elenco, tentei tirar um pouco esses invólucros e maneirismos para deixar o texto num lugar mais puro e permitir que o contato do público com ele fosse mais direto", diz Portella, para quem o abrigo em que os personagens estão confinados é um microcosmo da sociedade. A postura servil de Clov e o comportamento autoritário de Hamm são evidências disso, ao espelhar a dominação de classe. A exemplo do que acontece na realidade, essa assimetria de poder também gera conflitos na ficção. "É um texto que nos ajuda a pensar o mundo de meados do século passado, mas também nos ajuda a refletir sobre o Brasil polarizado do século 21."