DNA mostra infiltração gradual e miscigenação após queda do Império Romano

admin
3 May, 2026
Com a ajuda da genômica, pesquisadores da Alemanha acabam de traçar um quadro bastante surpreendente de como foi a queda do Império Romano do Ocidente nas regiões de fronteira. Os dados de DNA sugerem que os invasores "bárbaros" responsáveis por destruir o regime imperial na verdade se infiltraram gradualmente na antiga população romana, chegando como indivíduos ou em pequenas famílias, e já tinham se miscigenado com os moradores originais cerca de um século depois do contato inicial. Os dados, publicados em artigo na revista científica Nature na última quarta (29), são fruto de um estudo coordenado por Joachim Burger, da Universidade Johannes Gutenberg, em Mainz, junto com colegas de outras instituições espalhadas pelo continente europeu. Para o trabalho, Burger e seus colegas "soletraram" pela primeira vez o DNA de 221 pessoas que viveram entre os séculos 5o e 7o d.C. Trata-se justamente da fase de transição entre o que convencionamos chamar de Antiguidade e a Idade Média. A data normalmente atribuída ao fim da porção ocidental do Império Romano (e ao fim da Antiguidade) é 476 d.C. Mas a importância desse ano está ligada a eventos na Itália, com a deposição do último imperador, Rômulo Augústulo. Já na fronteira norte dos domínios romanos, por outro lado, a situação já estava tumultuada desde pelo menos as primeiras décadas do mesmo século, quando grupos de fala germânica (o grupo linguístico que inclui o alemão, o inglês e as línguas escandinavas modernas, bem como seus ancestrais) começaram a cruzar as fronteiras com o território romano em bandos armados. Essa região fronteiriça, designada com o termo latino "Limes", estava salpicada de fortificações e acampamentos de soldados de Roma, mais ou menos acompanhando o trajeto dos rios Reno e Danúbio. E é justamente de localidades espalhadas por ambas as bacias hidrográficas, nas antigas províncias romanas da Germânia Superior e da Récia, que vieram as principais amostras de DNA do estudo. Esses dados genômicos também foram comparados com os obtidos em outros locais da Europa e do Oriente Próximo, a partir de pessoas que viveram antes e depois da ocupação pelo Império Romano. No primeiro período com amostras disponíveis, que vai do ano 400 ao ano 470, um dado que chamou a atenção dos pesquisadores é a presença relativamente grande de pessoas com ancestralidade associada a grupos germânicos do norte da Europa, próxima das populações atuais do norte da Alemanha, Dinamarca e Holanda –e isso do lado romano, e não do lado "bárbaro", da fronteira, no principal sítio estudado por eles, o de Altheim, na Bavária. Poderia ser um sinal de infiltração precoce dos invasores, se não fosse pelo fato de que, em diversos casos, aparentemente esses são grupos de camponeses, sem os sinais de status (como armas caras depositadas nos túmulos) que seriam esperados de "conquistadores" recém-chegados. Os pesquisadores especulam que eles poderiam ser descendentes de soldados ou escravos romanos de origem germânica (era possível encontrar os "bárbaros" em ambas as posições sociais) que foram assentados na região, talvez por ordens do próprio império, antes do colapso da fronteira. Isso porque, pela análise da composição química de seus restos mortais, eles não são recém-chegados de áreas distantes, mas cresceram na própria região. Em outras áreas do atual território alemão analisadas no estudo, além desses indivíduos com ancestralidade "germânica", há outros com DNA associado a regiões como o norte da Itália e ao sudeste da Europa (nos Bálcãs, como as atuais Sérvia e Croácia), entre outros lugares, o que pode refletir o fato de que o exército romano, nessa época, era uma entidade multiétnica que costumava receber recrutas das mais diversas origens. Por fim, no período posterior, que vai do ano 470 ao ano 620, mesmo os assentamentos onde praticamente só havia indivíduos com ancestralidade do norte da Europa passam por um episódio de aumento da diversidade genética, com a chegada de pessoas com ancestralidade ligada a diferentes regiões do antigo Império Romano. A explicação proposta por Joachim Burger e seus colegas é que o fim da fronteira teria provocado uma desorganização do sistema econômico e agrícola da religião que teria permitido que antigos escravos e camponeses, vindos originalmente de muitas regiões, pudessem se deslocar com mais facilidade, assentando-se em novas áreas. Com o passar do tempo, os pesquisadores identificaram um processo de miscigenação entre todos esses grupos, chegando a uma composição genética mista bastante semelhante à da atual população do sul da Alemanha e da Áustria. Outro detalhe interessante é que foi possível mapear relações de parentesco entre muitos desses indivíduos ao longo das gerações, e o padrão identificado foi a da formação de famílias monogâmicas e que evitavam uniões entre parentes –provavelmente o resultado de conversões ao cristianismo, embora esse padrão básico já estivesse presente, em alguma medida, nas fases anteriores do domínio romano.