Patente propõe novo método de análise de solos coesos

admin
10 May, 2026
Um novo método de análise de solos coesos, desenvolvido no âmbito da UFC (Universidade Federal do Ceará) em colaboração com a Embrapa (Embrapa Meio Ambiente), resultou em patente concedida pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). A tecnologia tem como diferencial o uso de espectroscopia de reflectância —técnica que emprega a interação da luz com o solo— associada a procedimentos de umedecimento e secagem sucessivos, para compreender a estrutura e o comportamento químico desses solos. O método reduz tempo, custos e impactos ambientais em comparação a outros processos de análise. A pesquisa, liderada pela doutoranda Ana Maria Vieira da Silva, foi orientada pelo professor Raul Shiso Toma (UFC) e contou com a participação do pesquisador da EMBRAPA (Embrapa Meio Ambiente) Luiz Eduardo Vicente. [shortcode-newsletter] A INOVAÇÃO METODOLÓGICA Análises espectrais de solos — radiação eletromagnética (luz) decomposta em vários comprimentos de onda (bandas), permitindo a identificação e quantificação físico-química de diferentes materiais (a exemplo de minerais no solo) — são, tradicionalmente, realizadas com amostras peneiradas e secas em estufa, o que oferece uma visão simplificada da composição do recurso natural. A proposta de Ana Maria da Silva e sua equipe foi incluir ciclos de umedecimento e secagem antes da análise, simulando o comportamento natural de agregação das partículas do solo com caráter coeso. Com isso, os pesquisadores conseguiram gerar dados espectrais — amostras de solo com composição físico-química identificada ou quantificada por sua interação com a luz — mais representativos, capazes de evidenciar faixas específicas da radiação eletromagnética associadas a componentes do solo com caráter coeso, como argilas e substâncias amorfas, que podem atuar na sua gênese. “A espectroscopia de reflectância é uma técnica consagrada e eficiente, mas seu uso para o estudo do caráter coeso do solo ainda é incipiente. Nosso trabalho envolve um método de preparação que abre espaço para novas aplicações e modelos de previsão, com mais rapidez e menor custo”, destaca Ana Maria Vieira. De acordo com Vicente, a espectroscopia de reflectância oferece uma vantagem decisiva: dispensa análises químicas tradicionais, que são lentas e caras e geram resíduos laboratoriais. Ao utilizar a luz como insumo principal, o método reduz despesas, aumenta a agilidade e diminui impactos ambientais. “É uma abordagem que exige um forte trabalho de calibração, com coleta e validação de amostras. Mas, uma vez estabelecida uma base de dados robusta, ela pode substituir grande parte dos métodos químicos convencionais, acelerando diagnósticos e reduzindo custos para agricultores e pesquisadores”, explica Vicente. O método que resultou na patente tem como público inicial a comunidade científica, que poderá contar com uma ferramenta mais refinada para estudar solos coesos em laboratório. No entanto, o potencial de aplicação é mais amplo. O uso em condições de estufa e campo pode viabilizar análises rápidas e baratas, diretamente aplicáveis a experimentos de manejo. Ele abre também espaço para o desenvolvimento de novas tecnologias agrícolas, incluindo insumos comerciais destinados a amenizar a resistência mecânica dos solos. Produtos como condicionadores de solo, biochars e hidrogéis poderão ser testados com mais eficiência, reduzindo o tempo de desenvolvimento e aumentando as chances de sucesso. Para Raul Toma, a inovação também tem relevância estratégica: “Estamos diante de uma contribuição que pode mudar a forma como avaliamos e manejamos solos com caráter coeso no Brasil. Isso impacta desde a pesquisa até o setor produtivo, reforçando a sustentabilidade agrícola”. Além de seu valor técnico e científico, a patente simboliza o sucesso da colaboração entre instituições de ensino e pesquisa. A união entre a UFC (Universidade Federal do Ceará) e a EMBRAPA (Embrapa Meio Ambiente) permitiu reunir conhecimentos complementares e gerar uma solução com potencial de impacto direto no campo. “Esse é um exemplo claro de como a interação entre universidades e instituições públicas de pesquisa pode resultar em inovação, com ganhos para a ciência, para os produtores e para a sociedade”, conclui Vicente. O DESAFIO DOS SOLOS COESOS O caráter coeso é um atributo descrito no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS). Ele identifica horizontes subsuperficiais (camadas minerais localizadas abaixo da superfície) em que a consistência seca varia de muito dura a extremamente dura, e a úmida, de friável a firme. Na prática, trata-se de um solo com camadas endurecidas logo abaixo da superfície, que dificultam a penetração de raízes, reduzem a infiltração da água e limitam a circulação de oxigênio. Segundo o professor Raul Toma, a ocorrência desse tipo de solo é comum em diferentes regiões do Brasil, mas é particularmente concentrada nos Tabuleiros Costeiros — área que se estende do Amapá ao Rio de Janeiro. Essa faixa litorânea tem grande relevância histórica e econômica, pois reúne portos estratégicos para o escoamento de produção agrícola, áreas favoráveis à mecanização e clima propício para cultivos, além de possuir grande concentração urbana e apresentar diversidade de explorações agrícolas. Entretanto, a coesão do solo impõe sérias restrições à agricultura. Ela prejudica o crescimento das raízes, reduz o rendimento das culturas e compromete processos ambientais importantes, como a ciclagem de nutrientes e o sequestro de carbono orgânico. Para o pesquisador da EMBRAPA (Embrapa Meio Ambiente) Luiz Vicente, “a análise e o manejo de solos coesos são essenciais não apenas para garantir produtividade, mas também para promover sistemas agrícolas mais sustentáveis”. O trabalho, assinado pela doutoranda Ana Maria Vieira da Silva, intitulado “Método para caracterização espectral de solo de horizonte com caráter coeso submetido a ciclos de umedecimento e secagem e extração de amorfos”, teve o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Este texto foi publicado originalmente Embrapa, em 5 de maio de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, foi adaptado para o padrão do Poder360.