Precisamos de políticas de educação para formar espectadores de cinema
10 May, 2026
Estive nas últimas semanas acompanhando a exibição de nosso filme "Los Silencios", que estreou no Festival de Cannes em 2018, e que entrou neste ano para o programa Minha Classe no Cinema na França. Um filme brasileiro, feito em coprodução com a Colômbia e a França, que quase 2 milhões de estudantes franceses terão acesso graças a esse dispositivo criado pelo Ministério da Educação, o Ministério da Cultura e pelo Centro Nacional do Cinema, o CNC, que leva os alunos do maternal ao ensino médio ao cinema, nas aulas de letramento midiático. Logo após a segunda guerra mundial, a França criou o CNC justamente para estruturar e fortalecer o cinema francês, em toda a sua cadeia –produção, distribuição, exibição e formação de público–, e assim resistir ao colonialismo cultural americano, pois perceberam que esta seria uma segunda ocupação de seu território. Dentre os programas desenvolvidos pelo CNC, junto ao Ministério da Educação e o da Cultura, está este completo programa de formação de público e de cidadania que faz com que todos os alunos matriculados em uma escola na França possam assistir a pelo menos três filmes por ano nas salas de cinema –um clássico, um filme francês e um filme "do mundo", que este ano é o nosso filme, "Los Silencios", voltado especificamente para os estudantes dos últimos dois anos do ensino médio. Essas sessões são agendadas pelas escolas no cinema, nos horários matutinos, a preços sociais –cada ingresso custa cerca de três euros por aluno, ou R$ 17, pago por um passe cultural de 200 euros que cada estudante recebe por ano, para gastar no cinema, em shows, livrarias, teatros, museus, espetáculos de dança e outros eventos culturais. Os professores recebem também uma revisa pedagógica sobre cada filme que será trabalhado por três meses em sala de aula, com exercícios de narrativas audiovisuais —tanto teóricos, com composições de crítica e análise desses filmes, quanto práticos, que ampliam a percepção dos alunos para compreenderem como eles podem ser manipulados pelos elementos que de uma obra audiovisual, seja ela jornalística, seja um reel de redes sociais, seja uma obra de arte. Em tempos de tantas desinformações, fake news, manipulações narrativas, manipulação de imagem, confusão entre fatos e opiniões, dessensibilização à violência e tantas horas de consumo de telas, eu não consigo imaginar algo mais urgente do que a existência dessas aulas de letramento midiático nas escolas. E o cinema tem todos os elementos para ajudar o Ministério da Educação do Brasil a encontrar esses caminhos. A pasta poderia exigir que as editoras de livros didáticos fizessem um caderno sobre cinema, ajudando as escolas a cumprirem a Lei 13.006/2014, trazendo tanto a história do cinema, e elementos de análise critica das obras, quanto exercícios práticos de construção narrativa e linguagem audiovisual. Neste caderno, os filmes e exercícios poderiam ser acessados com um simples QRCode que levasse os estudantes às obras numa plataforma da Cinemateca Brasileira. As próprias produtoras e distribuidores poderiam subir seus filmes nesta plataforma, para passarem pela curadoria do Ministério da Educação e o da Cultura, com suas sinopses e materiais complementares, dizendo para qual idade, aula ou situação aquela obra pode ser relevante. A remuneração aos produtores poderia ser feita no ano fiscal seguinte, calculada pelo número de visualização das obras, como fazem as plataformas de TVOD atualmente. Além disso, precisamos que a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, financie a construção de salas de cinema nas universidades brasileiras, já que apenas 8% das cidades no Brasil têm espaços de exibição apropriados. Temos cerca de 10 milhões de estudantes universitários, 7,3 milhões de estudantes do ensino médio e mais de 25 milhões do ensino fundamental em nosso país – imagine se todos eles pudessem receber ingressos de cinema para assistirem a filmes nacionais e de arte de países com os quais o Brasil tem acordos comerciais, como Brics e União Europeia, em seu lugar de desfrute por excelência, a sala de cinema? E se para além disso, todos tivessem aulas de letramento midiático nas escolas? A arte nos sensibiliza e nos ajuda a refinarmos leituras sobre a realidade que nos cerca. Que a seleção de um filme brasileiro para integrar o sistema educacional da França nos inspire a criarmos essas pontes entre a educação, a cultura e a Ancine aqui no Brasil.