Aos 70, Anfavea enfrenta as mesmas questões do início da indústria automotiva nacional

admin
12 May, 2026
A Anfavea (associação nacional das montadoras) completa 70 anos lidando com o mesmo tema de seus primeiros anos: as discussões sobre a nacionalização de componentes e a tentativa de se manter próxima do governo. Quando foi criada, em maio de 1956, o Brasil já tinha linhas de montagem estruturadas. Entretanto, a importação de kits apenas para montagem local era predominante —algo que começaria a mudar no mês seguinte, com a criação do Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística). A partir daí, foi definido um cronograma para a nacionalização de veículos e de suas partes. As montadoras instaladas no Brasil já preparavam a transição para a produção local. Por isso, foi rápida a reação ao Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek, que concedia incentivos ao segmento no país, para estimular a industrialização. Passados 70 anos, a discussão ainda envolve os regimes CKD e SKD. As siglas que definem carros importados desmontados (parcialmente ou totalmente) não apareciam no noticiário da década de 1950, mas eram esses modelos fabris que predominavam na indústria daquela época. Hoje, as conversas sobre nacionalização envolvem as montadoras chinesas. A Anfavea tenta barrar pedidos de mudança nas regras vigentes sobre importação. Enquanto não estabelecem fornecedores locais, empresas como a BYD querem redução nas tarifas para trazer seus veículos semiprontos. É uma disputa aberta, diferentemente de outros momentos em que a associação atuou nos bastidores. Foi assim na elaboração do programa Mover, que teve início em 2021, ainda no governo de Jair Bolsonaro. Era um dos piores momentos da pandemia de Covid-19, e a relação das montadoras com o governo não ia bem. Havia reuniões quinzenais com o então ministro da Economia, Paulo Guedes. Os encontros, contudo, eram pouco produtivos. Na tentativa de mudar o jogo, a Anfavea havia decidido não pedir incentivos fiscais, mas, sim, focar em previsibilidade e competitividade. Havia a preocupação sobre o que ocorreria após o término do programa Rota 2030 (2018), sucessor do Inovar Auto (2012). Entre o início de um e o término de outro, as vendas e a produção de veículos haviam despencado. A associação das montadoras sabia que o governo Bolsonaro pouco entendia do setor automotivo e da transição energética em curso no mundo. Chegava a hora de evitar riscos e traçar um plano de descarbonização de acordo com os interesses das fabricantes. O Mover, portanto, foi criado pela Anfavea. Implementado no governo Lula, o programa foi a última grande conquista da associação das montadoras junto ao governo federal. Com o avanço das marcas chinesas e seus planos de produção local —inclusive com a reativação de fábricas que haviam sido fechadas, como as da Ford em Camaçari (BA) e da Mercedes em Iracemápolis (interior de São Paulo)—, as novas empresas ganharam espaço nas negociações com Brasília. O futuro da Anfavea passa pela entrada dessas montadoras asiáticas na entidade.