Com atraso de até 5 anos, Hard Rock abandona projetos de megaresorts no CE

admin
25 May, 2026
Com atraso de até 5 anos, Hard Rock abandona projetos de megaresorts no CE Resumo Quase dez anos após o anúncio do primeiro resort da marca Hard Rock no Brasil, o grupo decidiu romper os contratos e retirar seu nome dos dois empreendimentos de luxo em construção no Ceará — um deles com cinco anos de atraso. A decisão foi comunicada por email em 6 de fevereiro ao grupo Residence Club, atual responsável pelas obras. O distrato está sendo discutido na Justiça, já que o grupo brasileiro reclama de descumprimentos contratuais e cobra a restituição de valores pagos até aqui. Os dois projetos de megaresorts cearenses foram lançados pela incorporadora imobiliária VCI (Venture Capital Investimentos) em 2017 (Lagoinha/Fortaleza) e 2021 (Jericoacoara), com mais de mil unidades comercializáveis no modelo de multipropriedade. As unidades seriam administradas pela marca Hard Rock Hotel. O projeto arquitetônico previa relação direta com a marca internacional, especialmente pelo uso da imagem da guitarra, símbolo do Hard Rock. Apesar do rompimento, unidades seguiam até esta quinta-feira (21) sendo anunciadas no site da Residence Club. Hard Rock Hotel Fortaleza - 583 unidades e 3.346 m2 Hard Rock Hotel Jericoacoara - 515 unidades em 2.000 m2 Atraso O nome e o ineditismo da marca no setor hoteleiro brasileiro atraíram investidores, que compraram a maioria das unidades do empreendimento em Fortaleza. No caso do Hard Rock Hotel Fortaleza (que fica na praia de Lagoinha do município de Paraipaba), a promessa era de que as unidades fossem entregues a partir de dezembro de 2020, mas o projeto atrasou, sem previsão de conclusão. Dentro do processo de chegada da marca ao Ceará, em 11 de março de 2019 foi aberta a loja do Hard Rock Cafe Fortaleza — que durou pouco: em setembro de 2024 anunciou uma pausa para "voltar com tudo". Nunca voltou. Em 2024, as vendas de unidades do resort da capital foram proibidas, atendendo a uma solicitação do MP-CE (Ministério Público do Ceará), que apura danos aos consumidores. No caso do Hard Rock Hotel Jericoacoara, a previsão de entrega é para 2028. Em janeiro de 2024, a VCI foi adquirida pelo grupo Residence Club, formado por "executivos do mercado de multipropriedade", que comprou a VCI S/A e tenta agora viabilizar parceiros para concluir as construções. O descumprimento dos prazos de entrega no caso do resort de Fortaleza gerou uma enxurrada de processos de compradores, que querem distrato e indenização pelo atraso, e muitos casos incluem na ação o CNPJ do Hard Rock no Brasil. Troca de emails expõe racha O UOL teve acesso a uma troca de emails que expõe as divergências entre o Hard Rock e a Residence Club. Os documentos constam no dossiê entregue neste mês ao MP-CE, que mantém procedimento aberto para investigar os atrasos nas entregas e os danos aos clientes. Em 4 de julho de 2025, um email da Hard Rock Brazil Gerenciadora de Hotéis Ltda. e da Hard Rock International Inc. notificou o grupo Residence Club para cobrar o "saneamento dos inadimplementos contratuais". No texto, as empresas afirmam que o contrato de administração do hotel previa a data de 1o de dezembro de 2020 como "prazo limite" para abertura do hotel de Fortaleza. "A RESIDENCE CLUB falhou em entregar o projeto, inexistindo qualquer perspectiva de inauguração", diz o documento, citando que o atraso daria direito à rescisão dos contratos. A marca também reclamou da inadimplência de outra obrigação: a manutenção do patrimônio líquido agregado do garantidor (que é a soma de todos os bens e direitos de uma empresa que serve como avalista, subtraída de suas dívidas). Alegando que os problemas não foram resolvidos, em 6 de fevereiro as empresas voltaram a encaminhar emails para informar a rescisão do contrato e solicitar a imediata retirada dos nomes e marcas do grupo. Também cobraram a devolução de "todos os materiais, manuais e quaisquer documentos que contenham informações confidenciais". Em 27 de fevereiro de 2026, o grupo cearense rebateu e, em outro email, afirmou que "não reconhece qualquer inadimplemento contratual que lhe possa ser imputado, tampouco admite a narrativa construída no sentido de que a rescisão decorra de supostas falhas atribuíveis à contranotificante". "Trata-se, aliás, de mais um dos diversos abusos e ilicitudes praticados pelos notificantes nas relações com Residence Club que, convenhamos, tem por objetivo tentar encobrir o seu próprio inadimplemento". O que dizem as empresas Em nota ao UOL, o Residence Club afirmou que a saída da Hard Rock não inviabiliza os dois empreendimentos, que passam por um processo de "reorganização operacional e reposicionamento estratégico de bandeira hoteleira". O grupo diz que busca uma marca internacional que seja a nova parceira e, assim, dar continuidade à operação. "Estão sendo trabalhadas alternativas voltadas à continuidade responsável dos projetos, à preservação dos direitos dos clientes e ao fortalecimento operacional dos ativos". Segundo o Residence Club, ao longo do desenvolvimento dos projetos "houve ingerências operacionais, exigências e limitações impostas pela Hard Rock International, que impactaram diretamente a execução das obras e a previsibilidade dos empreendimentos". No dossiê que entregou ao MP-CE, o grupo disse que a participação do Hard Rock foi muito além do licenciamento e cita que a marca tinha participação na gestão, com direito a decisões comerciais, operacionais e societárias, poder de veto, além de exigências de fornecedores e projetos de arquitetura e engenharia. Além disso, controlava a comunicação institucional, exigia validações e impunha restrições de comunicação que, segundo o grupo, impactaram as vendas. Sobre a rescisão de fevereiro, o grupo confirma que negocia a "devolução de significativos valores pagos e investidos em royalties da marca, valores tão expressivos que seriam capazes de garantir recursos para o ressarcimento dos clientes e/ou viabilizar a conclusão da primeira fase de Lagoinha". Sobre os clientes que pedem indenização, a Residence Club diz que há mais de dois anos oferece um programa de benefícios que proporciona "semanas de férias em diversos destinos nacionais e internacionais". "Para os clientes que solicitaram distrato, a empresa segue com as devoluções dos valores", diz. O UOL procurou a Hard Rock International para comentar o caso, mas a marca informou que, "como este assunto está em andamento na esfera judicial, não fará comentários". "No entanto, o Brasil continua sendo um mercado prioritário para a marca, e a empresa permanece comprometida com sua presença e desenvolvimento de longo prazo no país", acrescenta. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.