ONU lança painel para medir bem-estar além do PIB

admin
27 May, 2026
247 - A Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou um novo painel de indicadores para medir bem-estar além do PIB, em uma tentativa de ampliar a forma como países avaliam prosperidade, desigualdade, sustentabilidade e qualidade de vida, mas a proposta já enfrenta críticas de especialistas e representantes de governos, segundo o The New York Times. O novo modelo surge em meio a um debate antigo sobre os limites do PIB (produto interno bruto), indicador usado mundialmente como referência de desempenho econômico, mas considerado insuficiente para medir as condições reais de vida da população. Embora registre a produção e a movimentação financeira de um país, o PIB não capta, por exemplo, danos ambientais, desigualdade social, segurança pública, saúde efetiva da população ou violações de direitos humanos. Ao longo das últimas décadas, economistas, organismos internacionais e governos tentaram criar alternativas capazes de oferecer uma leitura mais ampla do desenvolvimento. Houve iniciativas voltadas a bem-estar, vulnerabilidade, capital natural e sustentabilidade, mas nenhuma conseguiu substituir a centralidade do PIB nas decisões econômicas e políticas. A nova tentativa da ONU foi construída por uma comissão criada no ano passado para elaborar um conjunto mais objetivo de indicadores. O resultado, divulgado neste mês, reúne 31 métricas distribuídas em quatro grandes áreas: paz e direitos humanos, sustentabilidade, qualidade de vida e desigualdade. Entre os critérios incluídos estão a proporção de pessoas que se sentem seguras para caminhar em seus bairros após o anoitecer, a parcela da riqueza concentrada pelo 1% mais rico e o número de mortes relacionadas a conflitos por 100 mil habitantes. A proposta é mais enxuta do que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pelas Nações Unidas em 2015 e sustentados por centenas de dados. António Guterres, secretário-geral da ONU, classificou o painel como um complemento ao PIB e pediu que os países incorporem os novos indicadores em suas próprias avaliações nacionais. “O relatório também é um chamado à ação: vamos contar o que importa”, afirmou. Disputa sobre o alcance do novo painel Apesar da ambição da proposta, o painel já enfrenta resistência. Antes mesmo de sua divulgação, uma carta assinada por 58 especialistas, incluindo professores de Oxford, Cambridge, Harvard e Yale, além de um ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, criticou a comissão por ter selecionado indicadores em excesso. “É difícil imaginar qualquer aspecto do bem-estar que plausivelmente ficaria fora de uma estrutura tão extremamente ampla”, afirma a carta. Os signatários, ligados principalmente ao campo da economia ambiental, defendem uma medida mais integrada de riqueza, capaz de considerar fatores como saúde pública e recursos naturais. O Banco Mundial publicou, em 2024, uma edição atualizada de um sistema de medição voltado a complementar o foco do PIB na renda. Robert Smith, ex-diretor de contas ambientais da agência nacional de estatísticas do Canadá e articulador da carta, avaliou que a iniciativa da ONU tem boa intenção, mas carece de foco. “Isso não vai competir com o PIB”, disse Smith. “Os países vão olhar para isso e dizer: ‘Vamos criar nosso próprio conjunto de indicadores’ ou ‘É ridículo, e vamos continuar com o PIB’.” Países pequenos apontam risco de fragmentação Durante a apresentação do relatório por especialistas e funcionários da ONU, uma aliança de pequenos países insulares alertou que outras métricas alternativas já cumprem papel semelhante e vêm ganhando espaço. Para esses países, a criação de novos sistemas pode dispersar esforços políticos e técnicos. “Reabrir ou replicar este trabalho sob um rótulo diferente arriscaria fragmentação e diluiria o impulso político”, afirmou Ilana Seid, representante de Palau na ONU. Ela também destacou que muitos países pequenos não têm estrutura suficiente para reunir grandes quantidades de dados. “A proliferação de indicadores acarreta custos e restrições reais de capacidade”, acrescentou. O debate expôs ainda divergências sobre o uso prático de uma métrica alternativa ao PIB. A Costa Rica, um dos países que defenderam a criação da comissão, tem interesse em utilizar novas formas de medição para buscar condições de empréstimo mais favoráveis. O relatório, no entanto, não definiu se instituições de desenvolvimento, como o Banco Mundial, deveriam adotar a estrutura para orientar financiamentos. Um representante falando em nome de Canadá, Austrália e Nova Zelândia afirmou, no evento de lançamento, que o grupo se opõe a esse uso, considerando a existência de outros indicadores já disponíveis. Impasse entre painel e indicador único Nora Lustig, economista argentina do El Colegio de México e especialista em desigualdade, reconheceu as dificuldades do processo. Ela afirmou que estava cética quando o gabinete do secretário-geral da ONU a convidou para ajudar a liderar a comissão. “Não é por falta de esforço que não temos um concorrente além do PIB”, disse Lustig. “É porque não conseguimos chegar a um acordo.” Segundo ela, o relatório nasceu de um compromisso entre diferentes áreas de conhecimento e escolas de pensamento. A comissão tentou reduzir o número de indicadores, mas cada métrica tinha defensores firmes. Para Lustig, temas como segurança, direitos humanos e meio ambiente não poderiam ser tratados como secundários. “Se você não tem paz e segurança e os direitos humanos são violados e o planeta se foi, você não pode ter nenhum bem-estar”, afirmou. “Eles são primordiais, em certo sentido.” Uma das principais divisões entre os especialistas foi a escolha entre manter um painel de indicadores ou criar um índice composto, nos moldes do PIB, que reunisse diferentes componentes em um único número. Lustig disse ter passado a defender a segunda alternativa e pretende aprofundar essa linha de pesquisa com outros acadêmicos. Joseph Stiglitz defende abordagem plural Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel e ex-economista-chefe do Banco Mundial, participou da comissão e é um dos defensores históricos de alternativas ao PIB. Para ele, reunir todos os aspectos do bem-estar em um único número reduziria a utilidade do exercício. Stiglitz argumenta que os países precisam construir consensos internos sobre quais dimensões devem orientar suas políticas públicas. “É preciso um diálogo nacional para decidir quais são as coisas importantes”, disse. “Talvez depois que vários países fizerem isso, seremos capazes de ter uma noção de quais são as métricas que funcionam para orientar políticas e motivar cidadãos.” Alguns países já experimentam modelos próprios. O Canadá, por exemplo, desenvolveu uma “estrutura de qualidade de vida” incorporada a processos orçamentários e à comunicação pública. Kari Wolanski, funcionária da agência federal de estatísticas canadense, trabalha com outra comissão da ONU voltada à criação de métricas sociais e demográficas uniformes. A ideia é permitir que países escolham indicadores diferentes, mas dentro de uma lógica comum e comparável. “Você pode apresentar isso a diferentes públicos com diferentes marcas, mas produzir por baixo um trabalho que é internamente lógico e coerente”, afirmou Wolanski. A força política do PIB Apesar das experiências em curso, a adoção de um sistema universal permanece distante. O PIB se tornou uma referência poderosa justamente por ser simples, amplamente compreendido e incorporado às instituições econômicas globais. Kaushik Basu, economista da Universidade Cornell e copresidente da comissão da ONU sobre o PIB, afirmou temer que países evitem indicadores capazes de expor fragilidades internas. “Você não pode esperar que uma nova medida seja adotada voluntariamente, com todos os países aderindo, porque alguns são vencedores e alguns são perdedores”, afirmou. Basu defende que a ONU pressione seus Estados-membros a participar do novo modelo. Segundo ele, a força histórica do PIB esteve ligada à sua imposição política no pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente na conferência de Bretton Woods, quando foram criadas as bases das instituições financeiras internacionais que seguem influentes até hoje.