A encruzilhada da IA no jornalismo

admin
2 Jun, 2026
Difícil citar uma atividade humana que não esteja sendo impactada pela chegada da inteligência artificial. No jornalismo não é diferente e o assunto dominou a edição deste ano do Festival 3i, organizador pela Ajor, Associação de Jornalismo Digital, da qual o Mobile Time faz parte. De um lado, há o impacto direto na audiência e nos direitos autorais. Os assistentes de IA estão abastecendo seus modelos com conteúdo gerado por veículos de mídia online e não pagam por isso. Para complicar, o público se informa cada vez mais pelas IAs, em vez de ir até os sites aonde o conteúdo original foi produzido. Mas o impacto sobre o qual quero escrever dessa vez é no ofício do jornalista. Grosso modo, vejo dois tipos de reação entre colegas e veículos de mídia quanto ao uso de IA na prática do jornalismo: 1) aqueles que querem mergulhar de cabeça na IA, com a esperança que ela faça o máximo de trabalho possível em seu lugar; 2) aqueles que rejeitam veementemente o uso de qualquer ferramenta de IA. Os primeiros estão deslumbrados e podem pagar caro por isso. Os segundos bancam os ludistas pós-modernos... e também podem pagar caro por isso. A meu ver o melhor caminho está entre esses dois extremos. Não se deve demonizar a IA no jornalismo, assim como não é prudente endeusá-la cegamente. Para certos processos, a IA aumenta drasticamente a eficiência, sem comprometer a qualidade e a autoria do trabalho jornalístico. Alguns deles são a transcrição de gravações; a tradução de textos; e a produção de resumos de matérias para redes sociais e outros canais. A IA também pode ser muito útil na análise de dados e de documentos longos, destacando pontos importantes e fornecendo insights. Tenho usado, por exemplo, o gravador Plaud para transcrever minhas entrevistas e para encontrar certas informações dentro delas, perguntando para uma IA que ele traz embarcada – dica do amigo Samuel Possebon, editor da Teletime. Por outro lado, não uso hoje a IA para a produção de texto final. Isso porque, no caso de matérias especiais, ainda confio mais e enxergo maior qualidade no texto humano. No caso de matérias curtas, de registro de uma notícia recebida por release, entendo que dá mais trabalho ficar checando os dados para conferir se a IA alucinou e corrigi-la do que escrever rapidamente com as nossas próprias palavras. Acredito que o trabalho jornalístico vai se concentrar cada vez mais aonde o humano faz diferença. Isso está na curiosidade do repórter, na criatividade do pauteiro, na sensibilidade do entrevistador, no talento do redator, na sagacidade do editor. Mas com certeza haverá veículos e jornalistas que arriscarão se aprofundar mais no uso da IA. Ainda não vi ninguém usar um robô para fazer uma entrevista em seu lugar, embora tecnicamente seja plenamente possível, inclusive por voz, em uma chamada telefônica ou videochamada. O jornalista pode definir as perguntas previamente ou simplesmente informar em linhas gerais o objetivo da entrevista e dar liberdade para o robô conduzi-la. Acho que isso só não foi feito ainda (que eu saiba) por uma resistência cultural. Não acredito que pessoas públicas e importantes aceitariam dar entrevista para um robô. A não ser que elas mesmas botem um clone digital em seu lugar. E aí teremos robôs entrevistando robôs para escrever matérias que, provavelmente, serão lidas por robôs, enquanto nós humanos... O que estaremos fazendo?