Explosão do foguete New Glenn representa grande revés para a Blue Origin

admin
2 Jun, 2026
Por anos, a Blue Origin, empresa de foguetes de Jeff Bezos, operou em sigilo, ofuscada pelo sucesso da SpaceX, de Elon Musk. Mas no último ano ela vinha ganhando impulso, chegando cada vez mais perto de lançar de forma confiável o foguete New Glenn. Ele deveria dar à indústria espacial capacidade para colocar satélites e outros equipamentos em órbita. A Nasa deu um voto de confiança ao foguete no mês passado, com um papel maior no programa lunar Artemis, e a Amazon tinha 48 de seus satélites prontos para pegar carona até a órbita na corrida da empresa para competir com o serviço de internet Starlink da SpaceX. Então, na noite da última quinta (28), o New Glenn explodiu na plataforma de lançamento durante um teste. "Isso é um grande suspiro coletivo e um revés", disse Chad Anderson, investidor de startups na empresa de capital de risco Space Capital. Os atrasos causados pela explosão vão afetar a Blue Origin e seus clientes, incluindo Amazon e Nasa, justamente quando a SpaceX está se aproximando de uma aguardada oferta pública inicial de ações que pode avaliar a empresa em mais de US$ 1,25 trilhão. Se o foguete tivesse explodido no ar, a falha poderia ter sido quase rotineira, mas a explosão danificou a plataforma de lançamento. Pelo menos uma enorme torre de aço parece ter sido praticamente destruída, e há dúvidas sobre o estado do emaranhado de sistemas hidráulicos e de abastecimento que passam por baixo da plataforma de concreto e pela área. Procurada pela reportagem, a Blue Origin não se manifestou. Em uma publicação nas redes sociais na noite do dia 28, a empresa chamou a explosão de "anomalia" e afirmou que todo o seu pessoal estava em segurança. A Amazon não se pronunciou. O New Glenn tem apenas uma plataforma de lançamento: o Complexo de Lançamento 36, na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, Estados Unidos. A Blue Origin investiu mais de US$ 1 bilhão para reconstruir o local de lançamento da década de 1960. Isso significa que a Blue Origin não só precisa descobrir o que deu errado e como consertar, mas também tem que reconstruir a infraestrutura de lançamento, potencialmente gerando grandes atrasos antes que a empresa possa voltar a testar o New Glenn. Os atrasos vão afetar a Blue Origin justamente quando ela estava ganhando ritmo, segundo Carissa Christensen, CEO da BryceTech, uma empresa de análise e engenharia espacial. "Não acho que seja o fim do jogo, nem mesmo uma mudança de jogo, mas é decepcionante." Observadores do setor dizem que Bezos vai manter suas ambições. Ele tem um patrimônio de mais de US$ 290 bilhões e vê a Blue Origin como uma pedra angular de seu legado. Os recursos da empresa são limitados apenas pela disposição dele em gastar. "Foi um dia muito difícil, mas vamos reconstruir o que for preciso e voltar a voar", escreveu Bezos nas redes sociais na noite do dia 28. "Vale a pena." Os atrasos da Blue Origin encurralam ainda mais a Amazon. A empresa busca iniciar as operações comerciais de sua constelação de satélites, a Amazon Leo, que pretende competir com a Starlink. A Amazon construiu sua estratégia de lançamento apostando principalmente em uma nova geração de foguetes capazes de transportar dezenas de satélites para o espaço de uma só vez. O New Glenn, por exemplo, pode carregar 48 satélites da Amazon. Os foguetes que levaram os satélites Leo à órbita até agora comportam de 24 a 32 cada um. A Amazon está sendo vítima de uma crise de capacidade de lançamento no setor que a explosão do New Glenn vai agravar, na avaliação da empresa de pesquisa Quilty Space. "Toda a economia espacial precisa passar pelo mesmo gargalo", disse Kim Burke, diretora de assuntos governamentais da Quilty Space. "Então, quando um foguete falha, não importa para qual time você está torcendo, todos nós sofremos o impacto." Um terço dos quase 3.500 satélites restantes que a Amazon contratou para lançar estava programado para ir no New Glenn, segundo a análise da Quilty Space. Outros estão previstos para o novo foguete Vulcan Centaur da United Launch Alliance (uma joint venture da Boeing e da Lockheed Martin), que tenta resolver um problema com seus propulsores de combustível sólido. Se o problema com o New Glenn acabar sendo os motores da Blue Origin, o veículo de lançamento Vulcan Centaur também pode estar em risco, já que seus foguetes usam os mesmos motores. O Amazon Leo estava avançando na corrida para alcançar o Starlink. Após um ano de lançamentos, tinha mais de 300 satélites em órbita. O Starlink tem mais de 10 mil, de acordo com um rastreador mantido pelo astrofísico Jonathan McDowell. Os satélites da Amazon foram transportados por foguetes menores da SpaceX, da United Launch Alliance e da Arianespace, empresa sediada na França. A empresa de Bezos havia fechado contratos com grandes clientes, incluindo a Delta Air Lines, e firmado um acordo com a Apple para fornecer serviços de satélite para iPhones e Apple Watches. "Quando lançarmos esse serviço comercialmente, ele será uma das duas ofertas na vanguarda tecnológica", disse Andy Jassy, CEO da Amazon, no mês passado. A Amazon tem outros lançamentos programados para foguetes menores. A empresa afirmou que o Amazon Leo ainda está no caminho certo para começar os serviços comerciais entre setembro e dezembro, permitindo que a companhia finalmente comece a gerar receita contra os bilhões que gastou construindo a rede. Mas os atrasos do New Glenn podem afetar a velocidade com que ela conseguirá crescer a partir daí. "Isso elimina a aceleração e o plano de contingência justamente quando a Amazon precisa", afirmou Anderson.